Portugalid[Arte] #145
uma viagem com Pedro Mexia, as músicas da semana, Vocês Sabem Lá, três episódios de podcast, Joana Marques e sugestões culturais
[estante cápsula]
Lá Fora, Pedro Mexia
O meu contacto com o Pedro Mexia é bastante indireto, porque apenas acompanho a sua curadoria de poesia na Tinta da China. Para inverter a tendência, pensei que seria um nome interessante para incluir no meu desafio de leitura, o Alma Lusitana, e, já que seria uma estreia, optei por não ir à sua obra poética e começar, antes, pelas crónicas.
Lá Fora é um bilhete de ia, no entanto, sem indicação de regresso, porque a viagem de cada texto pode revelar-se mais demorada do que aquilo que aparenta: quer porque é possível encontrar uma camada mais emocional, que nos entrelaça às suas memórias, quer porque se multiplica em referências que nos podem ser pouco familiares. Deste modo, não só nos leva aos lugares físicos onde esteve, como também nos permite ir aos «lugares mentais acerca dos quais pensou», entre livrarias, teatros e, até, pessoas.
No fundo, somos transportados para os espaços do autor, que lhe são próximos e que espalham fragmentos da sua história, recuperando uma certa nostalgia, não porque se recuse a prosseguir, mas porque procuramos sempre «que as histórias não terminem». Entre «os verões da infância na Figueira da Foz» e a «ilha grega de Leonard Cohen», o que mais me cativou neste conjunto de crónicas foi a sensação de orbitarmos tantos planos geográficos distintos, que parecem encaixar com toda a naturalidade. Assim, tão depressa nos envolve em cinema, como nos leva a refletir sobre filosofia, política e religião, sempre de um lugar íntimo, ser esquecer todos os detalhes que nos moldam.
Lá Fora tem, ainda, um aspeto que considero importante: a intemporalidade, uma vez que me parece que estes textos permanecerão muito para além da data em que foram escritos. Embora, por vezes, tenha sentido que não tinha referências suficientes para ir a todos os lugares que Pedro Mexia retratou, gostei muito desta viagem, sobretudo, porque acho sempre generoso quando um autor nos mostra o mundo a partir da sua visão, mas sem a necessidade de nos fazer acreditar que aquela lente é a única possível.
🎧 Banda Sonora: London Calling, The Clash | Songs From a Room, Leonard Cohen
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Sozinho, ProfJam | Amanheça, Rita Vian | História, Guga | Incenso, Sara Megre | Nojo, Josh | Voltar a Casa, t. Policarpo & Harold | Look at Her, Carla Prata | Dia Normal, JAFUIPEDRO & Bia Maria | Era de Aquário/Deixa o Sol Entrar, Maro & Ana Moura | Presa em Mim Mesma, Elvira.
O EP e os álbuns: Primavera, Isaura | Consumir Preferencialmente Antes do Apocalipse, João Maia Ferreira | Capacete Preto, SleepyThePrince.
[caixa mágica]
Vocês Sabem Lá: Gonçalo XZ e Mafalda Leal da Costa
No número 144 da newsletter, ainda que de um modo breve, partilhei o meu fascínio por videoclipes. Curiosamente, no domingo, saiu a conversa do Alexandre Guimarães com a Mafalda Leal da Costa e o Gonçalo XZ, cofundadores da produtora VAMMU, que, entre outros serviços, atua nessa área criativa. Uma vez que são os responsáveis pela parte visual de músicas que adoro, não podia perder a oportunidade de os ouvir.
É incrível como há tantas camadas que desconhecemos, por não fazermos parte deste meio, e acho que é por isso que gosto tanto de conhecer o outro lado, de descobrir um pouco mais dos bastidores. Desde o processo de gravação até «ao papel de cada pessoa num set», também houve espaço para falarem sobre imprevistos e sobre como se gere tudo ao segundo, para que nada falhe, sem se esquecerem de desfrutar do momento.
[biblioteca sonora]
Vamos a mais uma ronda de episódios para ouvir durante a semana? Trago três!
[cartaz]
Em Sede Própria, Joana Marques
O processo interposto pelos Anjos não deixou ninguém indiferente e acredito, até, que foi motor de várias conversas, durante o último ano, não só pelo espanto, mas também pela curiosidade, pela vontade de debater os vários ângulos desta situação caricata. E, tal como prometido, Joana Marques veio falar sobre o assunto no seu novo espetáculo.
As minhas expectativas para Em Sede Própria estavam elevadas, mas admito que tinha um pouco de receio que, por ser somente sobre este tema, tendo em conta que foi tão esmiuçado na comunicação social, se tornasse maçador, talvez repetitivo. No entanto, a forma como construiu o texto não deu qualquer margem para desilusões. Antes pelo contrário, sinto que conseguiu acrescentar camadas novas e intercalar a insanidade de todo o processo com situações recentes, integrando o seu humor de atualidade mordaz.
Naturalmente, não entrarei em detalhes, mas achei que foi muito inteligente no modo como iniciou o espetáculo e como o conduziu. Ainda que seja todo baseado em algo que lhe aconteceu, não deixa de ser evidente o cuidado com que limou os segmentos, o tom e a fluidez. Sem quebras de ritmo e com «provas irrefutáveis», foi certeira em cada observação. O palco fica-lhe bem e vê-la a escalar no texto com tanta naturalidade traz a sensação de que é fácil estar naquela posição. Não é, claro, mas a Joana Marques não vacila — e acredito que o seu humor incomoda porque carrega nas feridas sem filtros.
Em Sede Própria só peca porque termina, ainda assim, sem aspas, foi extraordinário. O ponto de partida era claro para todos e, através dele, fez-nos refletir e rir sobre falhas, lugares de privilégio, maternidade, moralidade, liberdade e dualidade de critérios. Que o ser humano é cheio de incoerências, já todos sabemos (nenhum de nós escapa a essa sina), mas continua a ter graça perceber aqueles que se levam demasiado a sério: é que existe sempre uma ocasião em que essa imagem desmorona como um castelo de cartas.


[bilheteira]
Go Go
O Dagu atua hoje (11 de maio) no Auditório dos Oceanos, do Casino de Lisboa, às 21h. Os bilhetes variam entre os 12,89€ e os 17,18€.
Escrevi Canções e São Todas Iguais
A Latte apresenta o seu primeiro álbum de estudio, dia 12 de maio (terça-feira), às 21h, no Teatro Maria Matos. Os bilhetes variam entre os 16€ e os 19€.
Viver Mal
O filme de João Canijo é exibido dia 14 de maio (quinta-feira), no Teatro Municipal de Oliveira de Azeméis (TEMA), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 3,76€.
Pop Luso Flamenco
Lucas Maia apresenta o seu EP de estreia no Hard Club (Porto), dia 15 de maio (sexta-feira), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 16€.
Coreto Pop
JAFUIPEDRO apresenta o seu disco de estreia, dia 16 de maio (sábado), no Cine-Teatro Avenida (Castelo Branco), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 5,37€.
O Outro Lado da História
Os Fingertips atuam dia 16 de maio, às 21h30, no Teatro Ribeiro Conceição (Lamego). Os bilhetes variam entre os 13,42€ e os 16,11€.
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«Não posso ser medo e tu não podes ser viagem»
[in Não Disseste Nada, Icaro]
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