Portugalid[Arte] #144
uma viagem com Tiago Fernandes, António Reis, a banda sonora da semana, três videoclipes, uma sugestão de episódio de podcast, Vítor Sá e sugestões culturais
[estante cápsula]
Revolução, Contrarrevolução e Democracia, Tiago Fernandes
O marco mais bonito da nossa história, enquanto país, continua a ter vários contornos que merecem ser descobertos: não só pela total pertinência da data, mas também para que nunca esqueçamos que precisa de ser cuidada/protegida todos os dias. Para além de tudo o que reconhecemos, ao pós-25 de abril acresce o facto de ser «historicamente raro uma revolução levar diretamente a um regime democrático», sendo este o foco do retrato que Tiago Fernandes escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Revolução, Contrarrevolução e Democracia parte de um estudo comparado da revolução portuguesa «com outros processos revolucionários europeus do séc. XX». A intenção, que fica clara desde o início, é perceber os motivos que permitem que as revoluções se transformem num regime democrático. Assim, responde a duas questões centrais: (1) «por que razão Portugal não sofreu um golpe militar de direita apoiado por segmentos da elite do anterior regime» e (2) «por que não sucumbiu à ascensão de um regime de partido único revolucionário apoiado por segmentos dos militares». Focar o contexto português espelha um simbolismo duplo, porque a revolução portuguesa marcou «o início da terceira vaga de democratização» e foi «uma revolução social pacífica».
A obra divide-se em três capítulos, cada um deles responsável por analisar um período específico — a crise do Estado Novo, o 25 de abril e a consolidação da democracia —, o que nos ajuda a compreender melhor o arco evolutivo, quer em relação aos valores defendidos pelo regime, quer em relação às incoerências que pautavam esse sistema político, à oposição e ao papel dos militares, socorrendo-se de dados e de gráficos para termos uma noção mais visual daquelas que eram as condições da sociedade nacional.
Confesso que esperava encontrar um diálogo mais estreito com o dia da revolução em si, porém, privilegia mais o antes e o depois desse acontecimento, evidenciando que o «predomínio das forças liberais/moderadas […] ocorre quando aquelas têm capacidade de organização cívica e aliados nos militares». Embora tivesse precisado de calibrar as minhas expectativas, achei Revolução, Contrarrevolução e Democracia muito elucidativo e interessante, por me permitir explorar um tópico sobre o qual nunca tinha lido antes e por sentir que abre a porta para que continuemos a informarmo-nos sobre o assunto. É uma leitura para fazer sem pressas, porque há muita informação para assimilarmos.
🎧 Banda Sonora: Grândola, Vila Morena e Os Bravos, Zeca Afonso
Poemas Quotidianos, António Reis
O mundo ficou um pouco em suspenso, dentro destas paredes, uma vez que aproveitei as primeiras horas do feriado para abraçar a escolha de maio do desafio poético criado pela minha amiga Sofia. E, desta vez, fiquei por casa, já que li um conterrâneo: o poeta e cineasta António Reis, cujo livro integra, agora, a coleção de poesia de Pedro Mexia.
Poemas Quotidianos, tal como o título permite antever, divide-se pela banalidade dos dias comuns, por aquilo que está no nosso horizonte e sobre o qual nem sempre é fácil escrever (porque é próximo, porque está entranhado na nossa realidade, porque ainda não temos a distância emocional necessária para racionalizar), mas o autor parte desse cenário e mostra-nos a realidade que nos habita, que nós habitamos, que nos confunde.
Há um tom cru e muito direto a entrelaçar cada verso; um tom que nos leva a «sectores da população [que] vivem no limitar da pobreza ou numa apertada mediania», como se nos arrancasse a esperança, sem piedade, sem floreados, sem lirismos. Por oposição, é nos versos claramente dedicados à mulher que parece recuperar fôlego, talvez leveza, porque existe um propósito, a garantia de conforto e de cuidado, ainda que nem todos os cenários sejam de sonho — são o espelho da vida que acontece, com altos e baixos.
Senti, por vezes, que os seus versos carregavam um peso acrescido e desconforto: não sei se para nos inquietar por dentro ou se era esse turbilhão que o próprio sentia. Não sei se compreendi a extensão de todas as mensagens, mas gostei da lentidão, do toque de estranheza — que nos faz mexer na cadeira — e da urgência. Gostei, sobretudo, do facto de serem poemas tão visuais, mas com margem suficiente para imaginarmos.
Poemas Quotidianos parece-me ter dois mundos: o que se avista para lá da janela, que se reveste «de gente que passaja, vira ou tinge a roupa», e o que fica recolhido, íntimo, ancorando dúvidas, hesitações, esquecimento, abandono, saudade e tristeza. E, depois, traz o Porto e a sua relação ambivalente com a cidade. A aparente simplicidade da sua escrita deixou-me a questionar quantos mais mundos poderão existir nestas palavras.
🎧 Banda Sonora: Lado a Lado, ed | Tão Perto e Tão Longe, Hands On Approach
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Minha Boo, Satiro | Não Vale a Pena, Yang & Mark Exodus | Recursos Humanos, Benjamim | Deixo o Número Aqui, Gustavo Reinas | Lenço, João Só & Tiago Nogueira | Caxemira, Palazzi | Não Dá, MUN | Último Som, Guga | Duas da Manhã, Smile & Raptruista | F*ck Up & Make Up, Richie Campbell | Se Eu Fosse a Ti, Mariana Pereira & Murta | Não Disseste Nada, Icaro | Double Up, bapcat & SleepyThePrince.
Os álbuns: Soy Louco, Nininho Vaz Mais | Jab, Vilas Boas.
[caixa mágica]
Nunca Mais, Não Disseste Nada e F*ck Up & Make Up
Mergulhar em canções, movidos pelas suas melodias e letras, é uma experiência muito particular, porque o produto final é o mesmo para quem as escuta, no entanto, a forma como conversa connosco assume um dialeto diferente. E acho sempre maravilhoso ver essa versatilidade, perceber a quantidade de narrativas que a música assume para cada um de nós. Por esse motivo, adoro quando os artistas lançam os videoclipes, para além dos temas, porque é uma forma de nos aproximarem da sua visão, sem que se quebre a margem para continuarmos a sentir a mensagem como ela nos chegou e se ancorou.
Esta semana, para minha felicidade, tivemos direito ao vídeo da Nunca Mais, do xtinto, da Não Disseste Nada, do Icaro, e da F*ck Up & Make Up, do Richie Campbell.
[biblioteca sonora]
Da saga «episódios que continuo a acumular», deixo-vos esta sugestão.
[cartaz]
Arraial, Vítor Sá
O meu texto precisava de começar com uma confissão: a primeira vez que ouvi o Vítor Sá não encaixei com a sua energia. Na altura, ainda não acompanhava Cubinho de uma forma assídua e creio que incompatibilizei com ele por não ter compreendido o tom, por me parecer que havia uma postura de superioridade, sobretudo, em relação a um dos colegas. Contudo, o lado bom das primeiras impressões é que podem ser mudadas e bastou-me estar mais atenta ao seu percurso para perceber o quanto estava errada.
Para além do podcast que divide com o António Azevedo Coutinho e o Ricardo Maria, assisti ao especial de comédia que disponibilizou no Youtube, Incerto, e, mais tarde, vi-o a abrir o Não Faz Sentido, do Guilherme Fonseca. Se, após esse espetáculo, dissessem que eu ia acabar por comprar bilhetes para um solo seu, talvez não acreditasse, porque até achei que embalou bem o público, mas que a construção do texto se socorreu mais de palavrões (e eu adoro palavrões). Claro que é injusto reduzir o trabalho do artista ao tempo de abertura, ainda assim, foi uma primeira interação que me deixou oscilante.
Corta para novembro, de 2025, quando Vítor Sá anuncia o novo espetáculo de stand-up e, com uma perceção diferente, tive de me apressar a comprar bilhetes, já que estavam a desaparecer num ápice. E a curiosidade foi aumentando: pelo conceito do solo, pelos novos ângulos que traria à sua comédia e pela quantidade de histórias hilariantes que teria acumulado, afinal, atendendo a que tanto o podemos ver «disfarçado de Zorro na Festa dos Arcos de Paços de Paços de Brandão», como a ser «tesoureiro e dançarino no Rancho Folclórico e Etnográfico das Terras de Santa Maria em Rio Meão», sem, claro, esquecer que foi «praticante de skate amador», não lhe faltam peripécias na bagagem.
Conclui-se, portanto, que «uma boa parte da vida de Vítor Sá foi passada num Arraial» e não haveria melhor nome para o espetáculo. Com um cenário, em palco, que nos leva mesmo para um ambiente festivo, a noite começou com a atuação do Chimpas, que se revelou uma excelente surpresa. Não sabia o que esperar, sendo honesta, porque ainda não tinha visto trabalhos dele, mas sinto que entregou tudo e que deixou a plateia no ponto certo. Logo de seguida, ainda tivemos a visita de Carlos Contente, que fez total justiça ao apelido. Se o início da festa já prometia, o resto da noite cumpriu em pleno.
Não quero entrar em pormenores, para não comprometer a experiência a quem possa ir ver Arraial, mas permitam-me realçar o quanto a evolução do Vítor Sá é admirável: o texto nem parecia o de um primeiro solo, de tão bom e coeso que estava. Uniu todas as pontas soltas com mestria e sem quebrar o ritmo — nem quando teve de gerir aquelas situações imprevisíveis. Se existia nervosismo, nunca o transpareceu, atuando seguro, conseguindo o equilíbrio certo entre o cómico e o javardo. Há, aqui, histórias que só podiam ser contadas por ele, que talvez só nos levem a chorar a rir por serem dele, no entanto, a entrega em cada momento foi irrepreensível, espelhando toda a qualidade.
Não me recordo de ter estado noutro espetáculo em que estivesse o tempo todo a rir e ele conseguiu-o. Aliás, fiquei com a sensação de que esse foi o estado geral da sala, o que corrobora o tom cirúrgico das punchline. Percebe-se que existiu trabalho «a limar cada frase», não obstante, o texto não perdeu naturalidade e isso também é uma prova da sua evolução. A fasquia está elevada, mas acredito que tem tudo para melhorar. E o mais curioso é que não o conheço, mas saí do Teatro Sá da Bandeira orgulhosa, como se tivesse assistido a uma conquista de um amigo. Se dúvidas existissem em relação ao quanto merece que lhe esgotem todas as salas, este solo veio desfazê-las uma por uma.
Sinto que nenhum outro Arraial foi tão extraordinário, porque este fica para a história!
[bilheteira]
Bairro da Comédia
Hoje (4 de maio), há noite de stand-up comedy no Alface Hall (Bairro Alto), às 21h. Os bilhetes têm o custo de 7€.
Concerto Tatanka
O artista atua na sala principal do Teatro Sá da Bandeira, dia 6 de maio (quarta-feira), às 21h. Os bilhetes variam entre os 12,50€ e os 25€
O Lugar do Silêncio
A peça de João Ferreira está em cena nos dias 7 (quinta-feira), 8 (sexta-feira) e 9 (sábado), às 21h30, e no dia 10 de maio (domingo), às 17h. Os bilhetes têm o custo de 8€ em todas as datas.
Concerto Samuel Úria
O artista atua no 5L — Festival Internacional de Literatura e Língua Portuguesa —, dia 8 de maio, às 21h, no Jardim da Biblioteca Palácio de Galveias. A entrada é livre.
Concerto Surma
A artista atua dia 9 de maio, no pequeno auditório do Teatro de Vila Real, às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 7€.
Concerto Gisela João
A artista sobe ao palco do Teatro Fonseca Moreira (Casa das Artes de Felgueiras), dia 9 de maio, às 21h30. Os bilhetes variam entre os 14€ e os 18€.
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Sabes que eu gosto quando encosto em problemas
Vou fingir que não quero nada até puxares»[in Bon Vivan, Lhast]»
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