Portugalid[Arte] #157
uma viagem com Inês Meneses, a banda sonora da semana, Correr o Fado, ProfJam no Imperfeita Repetição, Carolina Deslandes na bapcave e sugestões culturais
[estante cápsula]
Linhas de Valor Acrescentado, Inês Meneses
O despertador ecoa no quarto e há um novo dia a amanhecer dentro e fora das quatro paredes que o delimitam, que delimitam esta casa construída de pedra, de saudades e de afeto. E sendo, todo ele, feito de promessas, florescem perguntas diferentes, outros olhares sobre a mesma realidade e a vontade renovada de me continuar a mover pelo espanto, tal como Inês Meneses, com quem aprendo, sobretudo, a olhar para dentro.
Linhas de Valor Acrescentado embarca nessa viagem intimista, de quem observa sempre o mundo de um modo introspetivo, mas sem diminuir a possibilidade de enriquecer os dias com rasgos de esperança, de animação, de amor. Aliás, sinto que uma das missões da autora é mesmo mostrar-nos o quanto a vida «acontece com os amores por cumprir (…) com as paixões que fazem os anos parecer instantes»; mostrar-nos que a vida é um lugar «bonito para se habitar», apesar da solidão, dos silêncios, do desânimo, visto que os amigos também nos resgatam da «claustrofobia quotidiana» e não nos desamparam.
Existe sempre um motivo para as coisas demorarem o seu tempo: se eu tivesse escrito este texto pouco depois de ter terminado a leitura, teria perdido um exemplo evidente das linhas que me acrescentam e que refletem várias observações que sublinhei nestas páginas. Num domingo que tinha tudo para ser igual a tantos outros, estar no parque com a minha melhor amiga (e a mais antiga), enquanto a filha dela se divertia a ver as bolas de sabão, foi daqueles momentos simples que se colam à nossa pele, talvez, não tanto pela situação em si, mas pelo facto de nós, duas adultas com tantos dias dentro, estarmos apenas em silêncio, sem necessidade de preencher esse espaço com palavras. Podemos não conversar diariamente, podemos demorar até combinar um reencontro, no entanto, continuamos a nutrir aquilo que nos une. E isso, creio, explica o conforto que esse silêncio representa, excluindo qualquer indício de cobrança ou afastamento.
A Inês Meneses é uma das vozes que mais companhia me faz e tenho procurado voltar à sua escrita com maior frequência, uma vez que sei que encontrarei sempre uma nova perspetiva para aquilo que é comum e uma maneira de não perder a capacidade de ver nisso uma certa beleza, porque, parafraseando-a, precisamos de andar distraídos para estarmos atentos e é nessa distração que vamos colhendo o que nos deixa mais perto de quem somos — se calhar, pela pureza, por nos moldarmos menos ao que esperam de nós e nos limitarmos a ser livres naquilo que nos amplia as emoções e as memórias.
Confesso que tenho algumas reservas em relação ao ato de romantizar a vida, quando isso implica bloquear a nossa vulnerabilidade. Nem todos os dias serão luminosos e a transbordar de felicidade, porém, precisamos de sentir, de nos fragmentar, porque só assim «voltamos a ficar quase intactos». E reforço o quase, tendo em conta que nunca seremos as mesmas pessoas: as cicatrizes fazem parte do processo e, mesmo que soe a lugar comum, são, também elas, fiéis contadoras da nossa história. Não obstante, creio que a Inês Meneses consegue trazer o equilíbrio perfeito entre descermos ao abismo e sermos arrebatados por aquilo que nos rodeia, sem medo de sentirmos as coisas como elas nos chegam, porque sente tudo intensamente, mas há uma calma que nos inebria.
Leio-a sempre com um lápis por perto, porque há frases que abraçam e sobre as quais me apetece escrever, como se lhe enviasse um bilhete de resposta através das margens, embora saiba que nunca o lerá. Neste livro, que aparenta ser uma crónica longa, senti-me a conversar com uma amiga e, por um lado, a chegar a lugares onde não tinha ido e, por outro, a voltar a temas que são recorrentes nas minhas conversas. Assim, pude refletir sobre a diferença entre confiança e segurança (que parece evidente e não é), o caminho da sororidade, o que fica do (que não foi) amor, as pessoas que nunca chegam a sair da nossa vida totalmente e as feridas provocadas por amizades interrompidas.
Linhas de Valor Acrescentado parte das relações humanas e traz para a mesa aquilo que é o território material e o território afetivo — e a certeza de ser no segundo que reside o que temos de mais valioso. Hei-de regressar a estas páginas, porque existe, em cada uma, um mundo que nos acalenta nos dias mais turvos e que nos faz sentir acolhidos.
🎧 Banda Sonora: Neblina, Luar, Rita Onofre & Avalanche | Gostas, Lhast | Inquietação, José Mário Branco
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: TOP, Joint One | Nasci Para Te Amar, Ricardo Maia & LEO2745 | Perigo, BUH BUH | Ilusão, Carl Karlsson | Moss Moça, Peculiar | Tua Boca, Cardu, kidlouis & João Não.
O álbum: Bad Bitches Ouvem Espama, a Mixtape, Espama Trincana.
[caixa mágica]
Imperfeita Repetição: ProfJam
Estou a desbloquear o gosto por ouvir o ProfJam em entrevistas, porque sinto que tem ido a camadas interessantes sobre o processo de criar e sobre o equilíbrio entre o lado pessoal e lado profissional. Além disso, como o Alexandre Guimarães é exímio na arte de conversar com os artistas, consegue sempre encaminhar-nos por novos ângulos.
Bapcave Sessions: Carolina Deslandes
A Carolina Deslandes sempre teve a caneta afiada. Reconheço que há ocasiões em que não me identifico com a maneira como defende as suas batalhas, mas é fascinante ver como as canções são terreno fértil de causas e de emoções, sem ter qualquer receio de usar as palavras. Por isso, foi com surpresa e entusiasmo que vi que seria a convidada mais recentes das bapcave sessions. Mal posso esperar que o tema esteja disponível.
Correr o Fado
O conto de Alberto S. Santos saiu do papel para o ecrã e traz-nos um protagonista que não é assim tão frequente nas narrativas e que, por esse motivo, nos permite ter acesso a uma parte do nosso património, principalmente, das tradições da região de Penafiel.
Nas lendas portuguesas, um corredor pode assumir a forma de um animal. Além disso, se o sétimo filho for um rapaz, «nasce tardo ou trasgo e precisa de correr o fado para quebrar a tradição». No filme de Francisco Manso, deslocamo-nos até Luzim, onde as maldições e as crenças se cruzam com monumentos megalíticos e cenários simbólicos.
Felisberto é caixeiro viajante e, ao chegar a esta aldeia junto ao rio Tâmega, depara-se com uma energia sombria. Estranhamente, parece estar deserta, porque existe algo a assustar o povo, algo sobrenatural: «medos, superstições e rituais vindos do longínquo tempo dos celtas, que falam de seres humanos (…) que se transformam em animais e matam quem os afronta». Para agravar a situação, Tomé Misérias é encontrado morto. É perante este clima de desconfiança que Felisberto, com a ajuda do padre Joaquim e de Claude, tentará compreender o que aconteceu e, também, ilibar a sua apaixonada.
É curioso como há tantas histórias entrelaçadas, como pormenores subtis nos podem ludibriar sem que o percebamos de imediato. Num lugar onde tudo se insinua, onde se amplia o poder de rituais e de velhas lendas, é fácil embarcarmos no ilógico e cairmos no erro de julgar antes de sabermos todos os factos, mas é essa abordagem que torna o enredo ainda mais envolvente, ao ponto de nos sentirmos parte da história. Aliás, dei por mim a querer acompanhar as personagens, vendo de perto a ação a desenrolar-se.
Correr o Fado tem, ainda, uma particularidade interessante: ser narrado «pelas palavras de um estranho e fantasmático personagem, o Paracleto». Apesar de ser invisível para todos, ajuda «a desfiar o novelo» dos acontecimentos, ao mesmo tempo que acrescenta uma camada extra de mistério. Ademais, acredito que foi uma excelente ponte não só para interligar os vários assuntos abordados no filme, mas também para nos manter atentos à história, como se nos chamasse a refletir sobre aquilo que acabamos de ver.
Focando-se no medo, no impacto que o inexplicável assume, nos rituais de fertilidade e nas relações interpessoais, num misto de seriedade e humor, também apreciei que se mantivesse a dúvida: no final de contas, existem ou não existem corredores de fado?
[bilheteira]
Porto Pianofest
Nuno Marques atua dia 4 de agosto (terça-feira), às 19h30, na Reitoria da Universidade do Porto. O bilhete tem o custo de 15€.
Varosa Fest 2026
De 6 a 9 de agosto (quinta-feira a domingo), no Parque Ribeirinho, em Tarouca, ocorre a nova edição do Varosa Fest. É possível adquirir bilhetes diários (12,50€ a 17,50€) ou passe geral (com campismo, 60€; sem campismo, 50€).
Festas do Povo de Rio Maior
A partir de 8 de agosto (sábado), as ruas de Campo Maior ficam «totalmente cobertas por milhares de flores de papel feitas à mão». O bilhete diário tem o custo de 10€ e o bilhete semanal tem o custo de 15€ — este último tem de ser trocado por pulseira.
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«Há coisas que se só diz com o olhar»
[in Filmes, ProfJam]
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