Portugalid[Arte] #156
uma viagem com Ana Luísa Amaral, a banda sonora da semana, A Sibila, Marta Gouveia, sugestões culturais e o Era Uma Vez do mês
[estante cápsula]
O Olhar Diagonal das Coisas, Ana Luísa Amaral
O termo antologia seduziu-me pela origem etimológica, uma vez que deriva do grego e significa «coleção de flores». Este escalar da botânica para uma utilização mais ampla, sem, no entanto, perder a sua génese, talvez seja a demonstração do lirismo da poesia e do quanto o ato de reunir nos agrega. Como procuro colher poemas como se fossem flores, voltei a Ana Luísa Amaral para (re)descobrir os seus trinta e um anos em verso.
O Olhar Diagonal das Coisas compila os 17 livros de poesia da autora e tradutora, numa viagem inaugurada em 1990, com Minha Senhora de Quê, e que terminou em 2021, com Mundo — não deixa de ser curioso que o último título publicado seja este, porque Ana Luísa Amaral, através da escrita, mostrou sempre a maneira como observava o mundo, encarando-o pelo espelho do quotidiano, pelo que vem de dentro e continua complexo.
Partir da nossa esfera pessoal, privada, mesmo que não tenhamos de analisar o que se passa dentro de quatro paredes, pode ser uma forma muito interessante de estabelecer pontes com aquilo que nos rodeia: se calhar, porque invertemos um pouco a ordem do percurso e seguimos uma linha que vai do concreto para o abstrato; se calhar, porque é nessa inversão que nos predispomos a imaginar, a não temer o metafórico, a conceder espaço para que se avistem e acolham novos ângulos. Desfoca-se o horizonte, contudo, adquire-se margem para o instantâneo e para as subtilezas, sem ponta de narcisismo.
Creio que a expressão que sustenta o nome da obra é, por si só, uma analogia singular, isto porque olhar na diagonal assume uma carga mais negativa, como se estivéssemos pouco investidos no que vemos/lemos. No entanto, nestas páginas, é um conceito que se expande, que se torna transversal, que cria, inclusive, intimidade e privacidade, ou seja, ao olhar na diagonal, a poeta permanece atenta ao outro, só que não o confronta com as suas sombras, as suas incoerências, as suas divagações, nem o intimida nessas observações. Deste modo, as pessoas continuam a agir como se ninguém as estivesse a ver, ficando tudo muito mais próximo da sua verdadeira essência. E acho interessante como parece aplicar a mesma fórmula à sua existência, sobressaindo outras camadas.
O olhar oblíquo amplia a curiosidade, quer pelas coisas, quer pelas pessoas, ao mesmo tempo que lhe permite ver para além do óbvio e oscilar entre o vazio e o infinito, entre o que é ínfimo e colossal, entre o emocional e o racional. É, também, nestes contrastes que explora vários estilos e assuntos, trazendo para os versos uma ressonância bíblica, política, mnemónica e épica, com uma precisão que pode suportar diferentes crises e, por um lado, auxiliar na procura por respostas e, por outro, levantar mais perguntas.
Naturalmente, não me relacionei com estes livros com a mesma intensidade. Aliás, já tinha lido Ágora e Mundo, que me despertaram reações distintas, e isso fez-me pensar que um dos aspetos mais fascinantes das antologias prende-se com a possibilidade de acompanharmos a evolução do autor de uma forma mais imediata e sequencial. Foi, portanto, estimulante identificar as metamorfoses de Ana Luísa Amaral e, até, a sua envolvência com certas temáticas. Assim, «há poemas transferidos de um livro para o outro» e poemas que dialogam entre si, e esta cumplicidade impulsiona-nos a ver os detalhes com atenção. A título de exemplo, destaco os capítulos Minha Senhora de Quê e Coisas de Partir e os poemas Do Lado Mais Brilhante do Silêncio, Sentidos e A Casa e o Tempo, atendendo a que ficaram com todo o meu coração e a minha alma por inteiro.
O Olhar Diagonal das Coisas alicerça-se na saudade, nos afetos, na banalidade dos dias e no amor. Com um tom espinhoso e sensível, traduz uma humanidade que não nos é indiferente e que denota aquilo que permanece — e a força que habita o ato de sentir.
🎧 Banda Sonora: Sentir o Sol, Os Quatro e Meia | Sinal, Dengaz | Para T., Valter Lobo
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Se Esta Vida, Dinis Mota | Emocional, Fernando Daniel | Ipanema, Cadu | Já Perdeu e Homem das Notícias, Tipo | Insónias, André Mousinho & Blutab | Rosa, Rodrigo 13 & Icaro.
Os álbuns: whaTAFunk, The Acoustic Foudation.
[caixa mágica]
A Sibila
As histórias têm um tempo certo, que nem sempre se alinha com o nosso. Há, por isso, um desencontro que talvez nos impeça de entender a beleza, o fascínio e a envolvência com o enredo e com as personagens. Mesmo quando estamos no mesmo comprimento de onda, sabemos que revisitar aquele texto implica um olhar diferente e curioso sobre aspetos que se tornaram familiares, portanto, quando não existe esse vínculo e nós não encaixamos na leitura, existe uma forte probabilidade de termos perdido simbolismos.
Em parte, creio que foi isso que me aconteceu com A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, já que sinto que cheguei ao texto sem a maturidade emocional necessária para perceber o que se esconde nos silêncios, na ação demorada, na postura daquela mulher que se tornou figura de prestígio. Com o tempo, também passei a apreciar narrativas que não apresentam uma sequência linear e um problema evidente. Aqui, a caminhada é mais monocórdica, transmitindo a sensação de vivermos o quotidiano de Quina, e eu tenho sentido vontade de regressar a este retrato, no qual, de uma forma lenta e melancólica, as fatalidades se sucedem numa desigual luta por poder. No entanto, enquanto não o faço através do livro, aproveitei para assistir à sua adaptação, disponível na RTP Play.
Este argumento, para além de representar Portugal rural, é um espelho de afetos crus, quase inexistentes, como se se descartassem de qualquer utilidade, visto que tudo tem de ter um propósito. É no centro dessa ausência que conhecemos Quina — paradoxal e tão irónica — e a sua família. Aliás, é a sua sobrinha Germa, na Casa da Vessada, em Amarante, quem nos relata a história da protagonista, conhecida como a Sibilia desde «a sua infância», uma vez que é «possuidora de todo o puro enigma do ser humano» e orbita entre a «profecia e a malvadez», sobretudo, por ter aprendido a ser o centro das atenções, a ludibriar-nos em função das suas necessidades e dos seus pressentimentos.
O filme, como afirmou Eduardo Brito, contém a matriz do romance de Agustina, mas não procura «ter a sua sombra» e talvez por esse motivo haja uma imagem um pouco mais exacerbada da personalidade de cada uma destas mulheres — tia e sobrinha —, uma convivência marcada por «sentimentos de ciúme, admiração e magnetismo» nem sempre imediatos, mas que identificamos em movimentos, olhares, pensamentos que nunca chegam a ser verbalizados: provocam, sim, uma reação física subtil. Para mim, o mais curioso foi ver como «cresceu para dentro de si», porque o mistério de Quina prende-se com essa interioridade, com aquilo que viveu em criança e transformou na sua identidade. Apaixonada «por corrigir, comandar, ser notável», viu em Germa uma continuação do seu legado e isso deixou bem claro o contraste entre o ser e o possuir.
Já não me recordo do que li, devo confessar, apenas da sensação pesada de avançar as páginas, porque havia uma carga sombria densa. Também a encontrei no argumento, mas ter um rosto para associar permitiu-me humanizar a história e manter presente que, apesar do cinismo e da frieza, nenhum daqueles comportamentos era gratuito. É certo que podemos questionar a intenção, a moralidade, mas percebemos que vêm em consequência de algo passado. Além disso, achei fascinante a conveniência do afeto, a dureza do caráter a contrastar com a generosidade do cuidado e a noção de abandono.
A Sibila sustenta-se nos silêncios e na trajetória de duas «mulheres que contrariam o destino e transcendem a sua condição». As palavras parecem vir contadas e há tanto que fica suspenso, ainda assim, paira a sensação de eternidade. Talvez encontre uma energia diferente quando regressar à obra de Agustina Bessa-Luís, porém, o filme de Eduardo Brito abriu uma janela naquelas paredes amarelas e, por isso, valeu a pena.
[gavetas]
são todas as horas
A Marta Gouveia escreveu um poema maravilhoso sobre todas aquelas horas que não chegamos a contar e tudo o que floresce pelo meio. Há uma aparente simplicidade que nos enlaça, não só pela proximidade do que descreve, mas também pelo traço visual e, por esse motivo, deambulamos nestes versos com urgência, para que nada se esgote.
[biblioteca sonora]
Um episódio para ouvir durante a semana
O Agir foi o mais recente convidado da Catarina Marques Rodrigues no Dona da Casa. Ainda não consegui ouvir o episódio, mas é uma conversa à qual pretendo ir em breve.
[bilheteira]
Correr o Fado
O telefilme baseado no conto homónimo de Alberto S. Santos é exibido hoje (27 de julho), às 22h30, na RTP e na RTP Play.
Desassossego Parte II
Um espetáculo que «propõe uma reflexão sobre o lugar de cada um na construção de uma sociedade mais consciente, empática e humana», dia 29 de julho (quarta-feira), às 20h30, no Centro Cultural Olga Cadaval. Os bilhetes variam entre os 13,50€ e os 15€.
Clube de Leitura da Arquivo
Dia 29 de julho, às 18h30, acontece mais um encontro do clube de leitura da Arquivo, desta vez, sobre o livro O Século dos Imbecis, de Valter Hugo Mãe. A moderação é feita por Paulo Kellerman.
[era uma vez, em 2019: bairro da ponte]
O conceito de ponte é um dos que mais me fascina: pela aproximação, pela segurança, pelo estreitar de vínculos e pela infinidade de travessias — internas e externas — que podemos realizar. E as diferenças tornam-se ínfimas, quando se desconstroem certos muros e se desmistificam certezas inflexíveis. Isto é válido para a vida, no geral, e para determinadas componentes, em particular. Por isso, atravessar uma ponte nunca nos deixou tão perto como agora, mesmo quando não o constatamos num sentido literal.
A música, a par de outras manifestações artísticas, é capaz de proporcionar esse elo de fusão e sinto que é aquela em que mais se verifica a praticabilidade desta simbiose de registos e de identidades. Entre letras e melodias, aproxima aquilo que parece distante e, enquanto admiradora desta dinâmica, considero que é uma mais valia cultural, não só pelo desafio, mas também pelo lado imprevisível, surpreendente e potenciador de uma abordagem singular. Ademais, prova que a música preserva uma transversalidade muito maior do que aquela que consideramos, visto que não promove barreiras. Pelo contrário, vemos artistas a comunicarem emoções comuns, que não se restringem ao género musical que abraçaram, e a entrelaçarem perspetivas que se complementam.
Bairro da Ponte, do DJ e produtor Stereossauro, é um espelho desse cruzamento, já que mistura fado com hip-hop e eletrónica e combina tradição com modernidade. Para tal, convidou 20 músicos brilhantes e inspiradores, de áreas distintas, o que proporcionou uma troca intimista e cúmplice, alimentando uma aliança revestida de talento. Juntos, transformaram cada uma destas canções numa autêntica viagem explosiva, emocional.
A partir de «masters originais de Amália e Carlos Paredes», Stereossauro desenvolveu um projeto com «uma linguagem muito própria», relacionando estilos, gerações e, até, personalidades, ao mesmo tempo que construiu uma sonoridade familiar, facilmente identificável, sem perder originalidade. Qual, então, a razão para se denominar Bairro da Ponte? Porque «bairro significa pertença. É a nossa identidade, o nosso lugar […] e a ponte é o elemento de ligação entre duas margens, entre o antigo e o novo, o acústico e o digital». E eu apaixonei-me pelo disco no primeiro segundo, porque cada detalhe é precioso e a mensagem derruba muros — e torna a música portuguesa mais generosa. Nesta simbiose de mundos, aparentemente, distintos, a qualidade parece-me inegável.
Se formos à procura de um bairro de fado, acabaremos por ficar perdidos, isto porque na «tasquinha da esquina, as raízes da música portuguesa cantam ao som do hip-hop e nunca se faz silêncio». Em simultâneo, entendemos que «é numa desgarrada ensaiada que a guitarra portuguesa se junta ao rock com uma batida eletrónica». Alicerçado a 19 temas, este bairro cheio de artistas encurta vários tipos de distância e convida-nos a escutar sem pressas. Por isso é que o Bairro da Ponte não é apenas um álbum: «é a nova voz de uma velha cidade que pede para ser ouvida», porque ainda há recantos ocultos.
☕ Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas
[…]
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto:
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo»[in Antologia Poética, Natália Correia]
![Portugalid[Arte]](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hFQh!,w_40,h_40,c_fill,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa31a334b-a9fb-4cd6-b8cc-4802dfd6b8d8_500x500.png)



