Portugalid[Arte] #155
uma viagem com Ana Freitas Reis, a banda sonora da semana, Hotel Amor e sugestões culturais
[estante cápsula]
Cordão, Ana Freitas Reis
A poesia entrelaça-nos de um modo mais ou menos umbilical, por isso, voltar ao livro de Ana Freitas Reis foi reconhecer que, nesse processo de proximidade, tudo pode ser um recomeço, uma vontade de ir e de explorar a imensidão do que nos é desconhecido.
Referência a Morte
Cordão manifesta a encenação do ato de nascer, uma vez que é um evento inacabado e um (re)início constante da travessia. Assim, concede «espaço à fatalidade da condição de recém-nascida» e estende a fundamental paisagem «a partir da dolorosa viagem do corpo que a há-de desenhar». Nestas páginas, coabitam inquietações e silêncio, entre múltiplas respirações que «suscitam deformação [e o] desdobramento dos percursos».
A palavra vai-se renovando, neste fio que interliga encontros e pulsões, e encaixando diferentes sensações, como se, por nos movimentarmos ao mesmo tempo que a autora, pisássemos territórios amplos, ambíguos e imprevistos; como se, nesta simbiose, nos descobríssemos enquanto a pessoa «que acolhe o mundo» e a pessoa «que o habita». É por esse motivo que «cada verso vai tateando os obstáculos e as alegrias» do processo.
Voltar aqui renovou-me a certeza de que existe um olhar que nos transcende. Através de anseios, memórias e um interessante jogo de palavras, que planta imagens na nossa interpretação, evidencia a liberdade, o assombro de estar viva, o desejo, a melancolia e a necessidade de nos moldarmos àquilo que nos rodeia. Ademais, com um tom quase minimalista, que camufla emoções profundas e as faz ecoar em momentos específicos, expõe as «condicionantes da poesia no feminino» e todas as transformações da mulher.
Parafraseando uma etapa da sua vida, influenciada pelo nascimento da filha, leva-nos para um universo onde oscilamos entre o que é dito e o que continua oculto, se calhar, para nos fazer refletir sobre a quantidade de sombras presas aos nossos passos, sobre o que não somos capazes de controlar e sobre as sucessivas perdas que sofremos e que podem (ou não) renascer noutras concretizações, dependendo das nossas escolhas ou das circunstâncias. Relacionei-me muito mais com esta segunda leitura, uma vez que entendi que Ana Freitas Reis borda «um estado de alma a um estado de observação».
Cordão intercala poemas mais curtos e mais extensos, mostrando-nos que não existem medidas estanques quando pensamos sobre mudanças, afetos e vivências. Neste «livro-ponto-de-escuta» e caminho, creio que encontramos versos feitos de pessoas: as que o sujeito poético imaginou, as que persistem nas suas lembranças e as que homenageia.
🎧 Banda Sonora: Suzanne, Leonard Cohen | Parto Sem Dor, Capicua
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Ressaca, bapcat & xtinto | Saudade Bateu, Margarida Vasconcelos | Dança Comigo, Tomás Rocha | Sou Daquela Rua, Maria João | Na Raiz, Xico Gaiato & Bia Maria | Viver outra vez, Djenga, Luís Braz Teixeira & COZY | Ela Queria (Acústico), Virgem Suta | imaculada, Ella Nor & Treze.
[caixa mágica]
Hotel Amor
A minha intenção era assistir a Hotel Amor no cinema, mas não aconteceu. Já sem ter o filme em exibição, restava-me aguardar que pudesse ser transmitido em canal aberto e parece que a RTP ouviu esse pedido. Assim, aproveitando que o disponibilizou na sua plataforma, num final de dia em que apenas queria ver algo cómico, que me permitisse desligar, fui descobrir a quantidade de peripécias que podem ocorrer no mesmo lugar.
Uma vez que o hotel foi vendido, Catarina, a gerente, viu-se «obrigada a provar a sua competência enquanto lida com funcionários desastrados, hóspedes excêntricos e um fantasma do passado que ressurge com a visita de um antigo amigo». Para melhorar a situação, um elemento da nova administração apareceu para passar o dia com a equipa e a questão que se coloca é se Catarina equilibrará tudo e conseguirá manter o cargo.
Com um ritmo aparentemente frenético, entre o limiar da normalidade e a propensão para a falha, vemos os efeitos de algo/alguém a colapsar, não só por existir sempre um ponto de rutura, mas também por ser difícil prosperar quando se aponta para direções opostas. Em simultâneo, torna-se evidente que dedicar a vida toda ao emprego implica perder várias coisas pelo caminho. Embora tenha ficado a refletir sobre estes aspetos, confesso que não me rendi à cadência e construção do argumento, porque parece que a única preocupação era apresentar situações aleatórias e bizarras, sem que houvesse margem para criar um fio condutor lógico e para que a ação tivesse um arco evolutivo.
A minha experiência em hotéis não é vasta e, naturalmente, é condicionada pelo olhar de visitante, portanto, não me surpreende que exista uma forte pressão para que tudo funcione em condições, da mesma maneira que não acharia estranho se as ocorrências deste filme fossem inspiradas em casos reais. Ainda assim, tive alguma dificuldade em acreditar que pudessem acontecer todas ao mesmo tempo, considerando o modo como foram encadeadas e defendidas pelas personagens. Além disso, foi tudo tão rápido que não houve bem espaço para que absorvêssemos o verdadeiro impacto das situações.
Hotel Amor conseguiu entreter em cenas pontuais, mais pelo seu lado insólito, porém, deixou-me com uma sensação agridoce, porque tinha potencial para explorar questões importantes com nexo, sem pontas soltas e sem perder a sua componente humorística.
[bilheteira]
Sophia Setembro de 1963
Sophia de Mello Breyner, no verão de 1963, parte numa viagem de carro para a Grécia, com Agustina Bessa-Luís e o marido Alberto Luís. Sessenta anos depois, «um par de cineastas decide seguir os seus passos, percorrendo as várias Grécias: a imaginada, a estilhaçada, a de Sophia, a deles, a de Odisseu, a de ninguém». O filme é exibido no dia 21 de julho (terça-feira), às 21h, n’ A Moagem - Auditório do Fundão. Bilhetes a 2€.
Um Abraço ou Um Beijinho
Este projeto de dança «investiga a construção da masculinidade através do fenómeno musical pimba, combinando a pesquisa dramatúrgica e coreográfica e a música», nos dias 24 (sexta-feira) e 25 (sábado) de julho, às 21h, na Sala Estúdio Valentim de Barros - Jardins do Bombarda. Os bilhetes têm o custo de 12€.
Rui Veloso Trio
O artista apresenta-se «num formato intimista de Trio de Guitarras, acompanhado por Alexandre Manaia e Eduardo Espinho», no dia 24 de julho, às 21h. Os bilhetes variam entre os 25€ e os 35€.
Jantar de Idiotas
A peça está em cena no Centro de Artes e Espetáculo da Figueira da Foz, no dia 25 de julho, às 21h30. Os bilhetes variam entre os 20€ e os 25€.
Festival Internacional de Poesia do Porto
Nos dias 25 e 26 (domingo) de julho, o Festival Internacional de Poesia do Porto está de volta à cidade, com entrada gratuita no Museu Nacional Soares dos Reis, na Poetria e nos Caminhos do Romântico. A programação completa sairá nos próximos dias — podem acompanhar por aqui.
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«Sonhei com outra morada...
A porta nem sempre abriu.
Cantei primaveras mais livres,
A historia que nunca se ouviu»[in Na Raiz, Xico Gaiato & Bia Maria]
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