Portugalid[Arte] #154
uma viagem com Fernando Sobral, Teresa Veiga, a banda sonora da semana, na saúde e na doença, xtinto na bapcave, O Candidato Perfeito e sugestões culturais
[estante cápsula]
Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral
A Seleção Portuguesa perdeu com a Espanha, nos oitavos de final, sendo eliminada do Mundial. Por esse motivo, começar a ler o ensaio que Fernando Sobral escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos logo no dia a seguir é capaz de não ter sido o ideal. Contudo, indo à boleia de um desporto que me fascina desde miúda, não resisti.
Futebol, o Estádio Global parte de uma paixão universal. Ainda que não existam estudos que corroborem este facto, «em 10 milhões de portugueses, não será arriscado afirmar que 10 milhões já viram um jogo». Inclusive, talvez seja possível afirmar que temos um pouco de treinador de bancada em nós, que sobressai em ocasiões concretas: há quem passe a época sem estar atento a resultados, no entanto, a energia modifica-se quando o assunto é a seleção nacional. Enquanto elemento que tem a capacidade de agregar a comunidade, acho maravilhoso ver como as pessoas se unem por uma equipa comum, pondo de parte qualquer barreira. Por isso é que o futebol é de todos. Ou será que não?
O livro, que se assume como «o retrato que faltava da grande paixão nacional», propõe-se a traçar a evolução deste desporto, desde a essência de espetáculo até à componente de negócio: o que começou como um jogo amigável, para divertir os trabalhadores das fábricas, escalou para algo sério, profissional e sujeito a pressões externas. Isso fez-me questionar se a profissionalização foi a responsável por essa mudança ou se, por outro lado, foi a necessidade de tornar o futebol numa fonte financeira rentável que alterou a maneira como o encaramos. Sem apresentar uma resposta inflexível, é inegável que a «transformação fora das quatro linhas» acaba por influenciar a sua estrutura interna.
Compreendo, portanto, quando o autor afirma que este desporto se transformou numa poderosa indústria, já que «tem adeptos, mas também accionistas», já que se joga num estádio, mas a televisão permite que possa ser visto em todo o mundo, em simultâneo. O futebol expandiu, modificou-se, abriu portas e isto não deixa de ser uma resposta a essas alterações, com tudo o que têm de positivo e negativo — mas este cenário não é exclusivo do mundo desportivo, acontece na música, na literatura, nos nossos hobbies.
Tal como na arte, existem momentos em que parece que o futebol pelo futebol já não é suficiente, que é sempre preciso um pouco mais para que subsista. Numa visão idílica, acho que qualquer adepto gostava de sentir que o futebol continua a ser uma forma de entreter quem o vê, sem escândalos, sem fronteiras, sem desigualdades. No fundo, que fosse simples e não um jogo de poder político, que desvirtua a sua verdadeira essência. Ainda assim, por mais que possa ser uma observação ingénua, não creio que se passou de um extremo ao outro, ainda acredito que a magia deste desporto está em campo, na equipa, nas jogadas imprevisíveis, na euforia de um golo que é marcado ao minuto 92.
Por oposição, não me revi no tom fatalista, por vezes condescendente e contraditório, do autor, tão centrado nos números (mais comerciais do que estatísticos). Uma vez que assume a nostalgia do «jogo bonito», de dribles e fintas, em vez de um «sistema táctico rígido e defensivo», esperava um discurso mais emotivo, ainda que não perdesse o lado racional, do jornalista que analisa os factos. Aliás, sinto que seria mais interessante se se tivesse desvinculado dos extremos, visto que os interesses económicos não mudam, por si só, aquilo que é o futebol, visto que apresentar um sistema tático sólido não tem de impedir que exista poesia nas jogadas. Hoje, focamo-nos em aspetos que não eram uma prioridade e, não nos iludamos, há situações que nos desagradam e revoltam, mas nem todas as mudanças implicaram uma perda de identidade: a essência ainda resiste.
Futebol, o Estádio Global foi-se perdendo no seu propósito a partir do momento em que Fernando Sobral afunilou o tema central. Embora crítico do espetáculo de massas, não alargou o debate e teria sido interessante trazer realidades distintas, porque os clubes não lidam todos com o mesmo tipo de adversidades. As vitórias são fundamentais, no entanto, reduzir o futebol a esse fim parece-me distanciá-lo daquilo que é suposto ser: «uma linguagem comum», o espetáculo que faz vibrar multidões. Quando recordamos um jogo, o resultado até pode surgir, mas não sei se essa será a primeira memória ou a que guardamos com fervor: os números acabarão por ficar turvos, com o tempo, mas o voo sobre os centrais, a defesa impossível, os cânticos partilhados com desconhecidos não e isso, sim, é a definição de estádio global, porque há emoções universais, para lá do emblema que apoiamos, que nos deixam apaixonados por aquilo que não se explica.
🎧 Banda Sonora: Waka Waka (This Time For Africa), Shakira & Freshlyground
Cidade Infecta, Teresa Veiga
As personagens comuns, que se confundem com a trivialidade do quotidiano, cativam-me, porque transportam uma essência mais próxima da realidade. Não pretendo que a literatura seja apenas uma representação fiel do que presencio dentro e fora da minha bolha, mas, como sinto que escrever a normalidade não é assim tão simples e intuitivo, gosto de me perder em narrativas que a façam sobressair e que nos permitam reparar noutros ângulos. Era isso que estava à espera de encontrar neste livro de Teresa Veiga.
Gatilhos: Referência a Violência e Morte
Cidade Infecta leva-nos para uma cidade do interior, na qual «a vida segue os trilhos da tradição» e cuja tranquilidade dos seus moradores «é violentamente interrompida pelo assassínio de uma mulher». Este cenário sombrio e suspeito povoa as ruas de Oliveira, onde Raquel e Anabela se conhecem num curso de informática. Aparentemente, nada têm em comum, mas a amizade é imediata, movida «por uma determinação férrea em conduzir a vida familiar». Cada vez mais unidas, é quando «estão prestes a desvendar uma à outra os seus segredos mais inconfessáveis» que acontece uma nova tragédia.
A premissa intriga, não só pelo mistério, mas também pelos elementos transversais à vida das protagonistas, o que me deixou a pensar no facto de nenhuma experiência ser individual: podem mudar o contexto e os contornos, no entanto, existem situações que se repetem dentro de várias casas, em simultâneo, sem que nos ocorra. Dito assim, sei que parece que estou apenas a constatar o óbvio, porque nós sabemos a multiplicidade dos casos, podemos não ter o número da porta, mas reconhecemos que não é isolado, só que não ser verbalizado faz com que permaneça invisível. Quando identificamos os mesmos comportamentos, os mesmos padrões, isso pode ajudar a despertar vínculos.
Esta aproximação pelo trauma é capaz de, por um lado, contribuir para ver o problema com clareza, mas, por outro, talvez contribua para que se torne algo maior e sufocante, pela impossibilidade de sair do abismo. E eu fui ficando presa neste limbo, a assistir à mesquinhez dos casamentos, por causa de descrições e não tanto pela narrativa em si, atendendo a que a senti demasiado à superfície, como se não nos pudéssemos demorar.
A leitura avança a bom ritmo, ainda assim, confesso, tive dificuldade em compreender para onde a autora nos queria levar. Creio que Raquel e Anabela espelham a angústia de viver relacionamentos construídos na base da conveniência, da violência, da ofensa, por esse motivo, achei que a amizade entre elas fosse um gatilho de mudança, mas até este ponto central se perdeu, ficando a sensação de que foi somente um pretexto, uma frincha de sol num dia cinzento, para nos iludir. Além disso, não consegui entender a pertinência do assassínio da mulher, porque não tem um impacto substancial na ação.
Parece, inclusive, que o livro é só um conjunto de acontecimentos suspensos, como se a qualquer momento a história fosse começar e adiassem o seu início. Tendo em conta as temáticas e toda a sua potencialidade, há um sabor agridoce a pairar, visto que teria sido mais interessante se tivesse mexido com as nossas emoções de um modo visceral, se tivesse aprofundado as situações e a carga sombria, para não ficarmos dormentes.
Cidade Infecta talvez pretenda demonstrar a sobrevivência, as vidas geridas através dos danos e tudo o que fica pendente perante dilemas diários, que nos obrigam a recuar, a ceder, a desistir, até que tudo se esqueça e fique em silêncio. A história é interessante, mas a concretização não resultou comigo, porque gostava de ter sentido inquietação.
🎧 Banda Sonora: I Will Survive, Gloria Gaynor
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: História, LEO2745 | Serei Alguém, Cláudia Pascoal & Cláudinhas | Desassossego, Bezegol | Sei de Cor, Pedro do Vale.
[caixa mágica]
na saúde e na doença
A dupla que faltava aventurou-se num projeto comum e isso deixou-me entusiasmada, já que acompanho o Guilherme Geirinhas e a Margarida Santos em separado, nas suas vertentes profissionais tão distintas, mas que eles interligam na perfeição. Aliás, adoro como a Margarida conversa sobre saúde de uma forma tão descomplicada e acessível e como o Geirinhas é tão ágil a dinamizar conteúdos que, não sendo sobre comédia, têm sempre um caráter cómico. E acho que é no humor que encontram o meio do caminho.
Na saúde e na doença conquistou-me logo na introdução, porque sinto que estabelece o tom do que podemos encontrar ao longo do episódio: num misto de ironia, provocação e brincadeira, porque há coisas que são sérias, mas não é necessário encarar tudo com formalidade. Através de temas que os inquietam — ou que, pelo menos, lhes suscitam algum tipo de debate —, encontraram espaço para conversarem sobre tudo com leveza e sem que um dos lados tivesse de diminuir a sua voz. Gostei bastante da dinâmica, do facto de combinarem dúvidas, curiosidades e estatísticas e de serem tão sinceros nas suas intervenções. Claro que há planeamento no modo como conduzem os segmentos, no entanto, sinto que teriam o mesmo discurso caso as câmaras estivessem desligadas.
O primeiro episódio, sob o mote vale a pena ter filhos?, contou com as irmãs Patrocínio. Embora não tenha adorado a intervenção do quarteto, se calhar por não me identificar com a sua forma de estar/pensar, creio que é uma dinâmica final interessante, uma vez que os leva a refletir sobre o assunto central a partir de novos ângulos, mesmo quando não é abordado diretamente. É curioso como o tema escala e se encontra nos detalhes.
xtinto na bapcave
O xtinto perdeu as notas do telemóvel, mas, como alguém referiu num comentário, «as notas não se perderam dele», o que fica comprovado pela sua capacidade de improviso e pela forma como brinca com as palavras, construindo a narrativa sem pontas soltas.
O artista de Ourém foi o convidado mais recente das bapcave sessions, «um projeto que recebe mensalmente artistas para uma sessão de estúdio», cujo objetivo é documentar «todo o processo de criação, desde a ideia inicial até à gravação final». Vê-los aos dois a bordar a parte melódica e a letra transmite a ilusão de ser algo simples, porque lhes é natural, porque existe um olhar distinto em relação ao que criam e ao que pretendem incluir na música, compreendendo qual a sua identidade, contudo, é evidente que essa simplicidade é um dialeto falacioso — mesmo para os artistas, que avançam, recuam e repetem para limar cada camada, até soar àquilo que procuram. Essa, creio, é a magia.
Quando dois criativos unem forças, o resultado só pode ficar extraordinário. E ficou!
[biblioteca sonora]
O Candidato Perfeito
O empresário Vicente Valbom candidata-se à presidência da Câmara de Lisboa e fará tudo o que estiver ao seu alcance para ganhar as eleições. Um pormenor importante: a candidatura acontece ao mesmo tempo que vive um drama familiar, porque o filho «foi raptado e está desaparecido há quase um mês». Assim, enquanto João Durães e Teresa Machado, inspetores da Polícia Judiciária, procuram desvendar o caso e a irmã de Zé, Margarida Valbom, investiga por conta própria», a calculista assessora Sofia Rito «não vai olhar a meios para eleger Vicente Valbom», mantendo o mistério em movimento.
O Candidato Perfeito é a sequela de O Zé Faz 25 e sai um episódio todas as semanas.
[bilheteira]
Mas Ele Hoje Trouxe-me Flores
A peça, inserida no festival 9º Amorada Mostra, está em cena dia 15 de julho (quarta-feira), às 21h, no Recreios da Amadora. Os bilhetes têm o custo de 5€.
Era Com H
Os Lavoisier sobem ao palco do Teatro Municipal de Bragança, dia 15 de julho, às 21h, para apresentarem o seu novo longa duração. Os bilhetes têm o custo de 6€.
Água e Tudo o Que Ressoa
Ana Santos apresenta o seu disco de estreia, dia 17 de julho (sexta-feira), às 21h30, no MACAM - àCapela Live Arts&Bar (Lisboa). Os bilhetes variam entre os 14€ e os 16€.
Alvorada Comedy Club
O evento junta «gargalhadas e comida boa e barata», dia 17 de julho, às 21h30, na Casa do Concelho de Ponte de Lima. Os bilhetes têm o custo de 8€.
Festival Alquimia
O projeto Alquimia «transforma todos os espaços do Coliseu e abre-se à cidade», entre os dias 17 e 18 (sábado) de julho, para a primeira edição do seu festival, denominada A Grande Árvore. Num total de 20 horas, inclui «dezenas de atividades de teatro, música, dança, performance, instalação, pintura, fotografia, vídeo, poesia», entre várias outras. A entrada é livre, mas existem atividades com vagas limitadas, preenchidas por ordem de chegada. Podem consultar o programa do Festival Alquimia aqui.
Concerto Carolina de Deus
A artista atua no Teatro Cinema de Fafe, dia 18 de julho, às 21h30. Os bilhetes variam entre os 7,50€ e os 15€.
Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir
Carminho apresenta o seu mais recente álbum, dia 18 de julho, às 21h30, no Convento São Francisco (Grande Auditório). Os bilhetes variam entre os 28€ e os 30€.
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«a noite pousa na pele à espera de estrelas
para não parecermos tão sozinhos
parados entre a cidade e a casa fechadaprocuramos palavras
até que as palavras recomecem
como súbitas árvores de silêncio»[in Mulher Ilustrada, Maria de Sousa]
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