Portugalid[Arte] #153
uma viagem com Alex Couto, a banda sonora da semana, o Som do Eclipse, Dengaz (no Camarim), Mundo Segundo (no Triplo Duplo), Rent e sugestões culturais
[estante cápsula]
Sinais de Fumo, Alex Couto
Os últimos dias de junho estavam a pedir uma leitura menos densa, até porque vinha de algumas dentro do mesmo tema — luto — e precisava de uma narrativa diferente. Por esse motivo, arrisquei no livro do Alex Couto, que já queria ter lido o ano passado.
Gatilhos: Linguagem Gráfica e Explícita
Sinais de Fumo leva-nos para «um dos bairros mais problemáticos de Setúbal», o Bairro do Viso, durante o tempo da Troika, quando este «se vê sem fornecimento de cannabis e derivados». O que parece ser uma situação complexa, revela-se, pelo contrário, uma oportunidade de negócio, isto porque um grupo de amigos decide criar a startup Green, com o intuito de ser ele a fornecer a erva que estava na iminência de não chegar. Esta visão empreendedora, ainda assim, teve de enfrentar complicações e dilemas morais.
O enredo acompanha os protagonistas, mas fascina-me que um lugar seja capaz de ser tão central nas ações, como se fosse uma personagem e a sua identidade fosse uma voz de comando. Aliás, acredito que uma das reflexões mais pertinentes da obra é sobre o impacto que o sítio onde nascemos tem no nosso futuro, na pessoa que nos tornamos. As nossas decisões também se moldam nessas circunstâncias, mesmo que não seja de um modo consciente, uma vez que fazemos parte daquele contexto. Isso não significa que não seja possível alcançar novos horizontes, porém, há marcas que permanecem.
Admito que estava um pouco reticente com a abordagem, porque sinto que é fácil cair em descrições estereotipadas, redutoras, mas a construção inicial da narrativa e, até, a linguagem utilizada desfizeram esse receio: sem a revestir de lugares comuns, o autor tornou a história próxima, facilmente reconhecida, mas sem dar a entender que só há aquele caminho, aquele fim. É certo que algumas vivências se repetem, pelo contexto ou apesar dele, mas não é algo que se verifique como linear, muito menos inflexível.
Outro aspeto valioso é o tom crítico que o texto assume. Através destes protagonistas, a debaterem-se com questões de identidade, relacionamentos disfuncionais, dúvidas e períodos de solidão, mostra-nos que existem movimentações duvidosas, de profundo aproveitamento político, porque nem sempre há sentido de honra e o grupo acabará por perceber isso no meio de todo o fumo que lhes tolda o discernimento — mas que, de certa maneira, os deixa alerta para certos detalhes e jogadas turvas. Portanto, este livro é feito de simbolismos, sobretudo, quando nos parece que há partilhas inocentes.
Sinais de Fumo, apesar do seu caráter próximo e de trazer temas tão importantes para a discussão, não me prendeu totalmente, talvez por ter sentido que se alongou em partes menos relevantes e pela reta final da narrativa um pouco confusa. Não obstante, vale por todas as reflexões e por nos fazer pensar na necessidade de termos um propósito. Via este enredo a sair do papel para o ecrã, porque a escrita do autor é muito visual.
🎧 Banda Sonora: Jon, Isak, Zigarro & Armando Teles (álbum) | Sad Girl, Lana del Rey | Não Me Toca, Anselmo Ralph | Bairro, Ex-Peão
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Não Entendo, Espama Trincana | Os Dias do Nada, Benjamim | Se Tiver Que Doer, Criss Calisto | Rosas, Morais | Tokyo, Carl Karlsson | Chora Por Mim, Sara Megre | Não Canto Porque Sonho, Pedro Branco, Noiserv & Tipo.
O álbum: Purppworld Vol.1, Sippinpurpp.
[caixa mágica]
Som do Eclipse
O eclipse total é um «fenómeno que não ocorria em Portugal há mais de um século» e a Sumol, para celebrar o feito — a acontecer no próximo dia 12 de agosto —, lançou a campanha Som do Eclipse, que também assinala «a edição limitada Sumol Eclipse».
Assim, desafiaram sete astros da música, «de diferentes gerações e estilos musicais», para criarem um tema inédito inspirado neste fenómeno astronómico. E, durante sete episódios, numa websérie pensada para vermos fragmentos do processo criativo desta ideia, podemos assistir ao percurso «de cada músico e aos bastidores da produção».
Pedro da Linha, xtinto e Kalu foram os três primeiros passos desta viagem musical.
[biblioteca sonora]
A lista da semana inclui duas conversas, com dois artistas que admiro: uma focada nos bastidores, nas inseguranças, na necessidade de reencontrar o seu lugar na música e de ser capaz de equilibrar o lado profissional e o lado familiar; outra que cruza o hip hop e o basquetebol, os ídolos da juventude, criatividade e competitividade. Sinto que, em ambas, há espaço para descobrir o Dengaz e o Mundo Segundo noutros contextos.
Os próximos episódios na lista de espera são o da Sara Correia no Vocês Sabem Lá, o da Capicua no Prazer é Todo Meu e o do xtinto no Seja Como For.
[cartaz]
Rent
O musical Rent, um dos maiores sucessos da Broadway, numa «adaptação moderna da ópera “La Bohème”, de Puccini», regressou aos palcos portugueses e conquistou-me.
A acompanhar um grupo de amigos, durante um ano, «no auge dos boémios anos 90», transmite-nos a importância de aproveitarmos o tempo com aqueles que amamos. Por esse motivo, vemos os protagonistas a lutarem pela sua sobrevivência, a celebrarem os laços que os unem, a esforçarem-se para superar dificuldades, reverberando condições precárias, os malefícios do consumo de drogas e vários problemas de comunicação.
Os contextos e as circunstâncias são diferentes, mas dei por mim a pensar no grupo de amigos de Sinais de Fumo, porque há muito das suas histórias que se cruzam; a pensar na força necessária para não sucumbir, para não desistir, perante tantas adversidades. Nem sempre a vontade é motor suficiente para avançar, contudo, haver um propósito pode ser o impulso que precisamos para valorizar «cada momento» e vermos além da desesperança, do orgulho, dos constantes entraves que se colocam no caminho — por mais que isso seja difícil, porque não existe, aqui, qualquer tentativa de romantização.
A homossexualidade, a SIDA, a dependência, os parcos apoios para o meio artístico e a crise da habitação são temas explorados na peça, estabelecendo uma ponte «entre a sociedade de há 30 anos e a de hoje». Felizmente, evoluímos em muitos aspetos, mas é fascinante como, tanto tempo depois, ainda conseguimos elencar tantas semelhanças.
O texto original não é português, no entanto, não poderia deixar de trazer Rent para a newsletter, porque a interpretação dos nossos atores é soberba! Fiquei completamente rendida ao talento e à forma como me fizeram sentir cada fragmento. Tenho pena que a qualidade do som interfira com experiência (dependendo o local, pode não ser fácil distinguir tudo o que está a ser dito), ainda assim, arrepiei-me em vários momentos.
[bilheteira]
Primeira Box
O Coliseu e a Câmara Municipal do Porto lançam «um novo ciclo de música dedicado a bandas e artistas emergentes» da cidade. A estreia está marcada para o dia 6 de julho (hoje), às 22h, no Coliseu Box, e conta com três nomes: Astra Vaga, Calcutá e Evaya. Os bilhetes têm o custo de 5€.
A Bola de Cristal 13, Um, Três
Peça em cena dia 8 de julho (quarta-feira), às 21h, no Teatro Municipal de Bragança. Os bilhetes têm o custo de 6€.
Concerto Peixe
O artista sobe ao palco do Quartel das Artes (Oliveira do Bairro), dia 10 de julho (sexta-feira), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 5€.
Os Maias - Bailado
A Companhia Nacional de Bailado apresenta um bailado em três atos, dia 12 de julho (domingo), às 21h, no Convento São Francisco (Grande Auditório). Os bilhetes têm o custo de 35€.
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«Tenho fé em quem nunca me deixou faltar nada
Levo comigo quem sempre me fez sonhar»[in Fé, Yang]
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