Portugalid[Arte] #152
uma viagem com Eça de Queiroz, Ricardo Peixoto, a banda sonora da semana, Violetta, Guilherme Duarte, Afonso Cruz, 6 concertos, A Poesia Está na Rua, sugestões culturais e o Era Uma Vez do mês
[estante cápsula]
O Primo Basílio, Eça de Queiroz
A porta do Ramalhete abriu-se, mas não me demorei na visita quando se fechou. Quer dizer, permaneci, descobri relações complexas, segredos e cicatrizes, só que o peso da obrigatoriedade e, sobretudo, a limitação temporal não permitiram que lesse Os Maias com a devida disposição. Anos mais tarde, fiz paragem n’ A Cidade e as Serras, que me mostrou a componente sagaz e irónica da escrita do autor, e, já com outra maturidade literária, voltei à propriedade e perdi-me de amores pela sua história, que oscila entre o esplender e a decadência. Portanto, andava há demasiado tempo a prometer voltar à obra do Eça e, por isso, decidi que seria um dos autores do meu desafio Alma Lusitana.
O Primo Basílio faz-nos recuar à Lisboa de finais do século XIX, para conhecermos um modelo de casal burguês: Luísa e Jorge. A dinâmica da casa sofre um revés, quando o marido se vê forçado a partir para o Alentejo, «durante algumas semanas», deixando a Luísa entediada, aborrecida «por estar sozinha em casa», até porque não seria de bom tom receber a sua grande amiga, com um rótulo da sociedade pouco favorável. É com a chegada de Basílio, «que antes de emigrar para o Brasil a cortejara», que tudo muda.
O desfecho é claro desde o início. Aliás, partimos para este enredo a saber tudo aquilo que precisamos sobre a parte central do arco narrativo, mas desconhecemos a maneira como tudo se processará e isso, para mim, é um dos traços mais entusiasmantes desta história, porque parece que estamos a transpor um jogo de sombras, onde tudo nos é dito e, mesmo assim, permanecemos à deriva, expectantes, a entrelaçar pontas soltas. E se existe algo que aprendemos é que as subtilezas escondem camadas profundas.
Inicialmente, há aspetos que vamos decifrando pelo facto de reconhecermos em Eça um olhar incisivo acerca da sociedade, a funcionar como uma denúncia de atitudes questionáveis e das diferenças entre grupos sociais. É importante não esquecermos a época em que se contextualiza a narrativa, com a burguesia a ser a voz mais audível, porque creio que, sem justificar, permite que compreendamos melhor a mentalidade. Além disso, torna ainda mais impressionante a leitura que o autor faz, uma vez que permanece atual e que, através de metáforas provocadoras, desmancha a mediocridade e a pobreza que não se limita à esfera financeira, que engloba valores e emoções. E, pouco a pouco, percebemos que as entrelinhas contam outras ramificações do enredo.
A escrita pareceu-me fácil de acompanhar, não só pelo traço visual, mas também pelo tom sarcástico, de quem observa por dentro e leva as incoerências para um lugar mais luminoso. Contudo, fiquei sempre com a impressão de que precisava de ter outra base para compreender os significados de certos detalhes, visto que é uma história cheia de simbolismos. Por esse motivo, decidi fazer a oficina da Bruna Martiolli sobre O Primo Basílio e, assim, chegar às camadas que não decifraria sem ter esta orientação literária.
Não pretendo que todas as minhas leituras sejam feitas nestes moldes, mas senti que esta beneficiaria se o fizesse, porque seria capaz de perceber a amplitude do texto de Eça. As minhas interpretações não estiveram muito longe do que foi abordado, mas é inegável que passaria ao lado de várias referências. Aliás, não teria sensibilidade para reconhecer que certas descrições não são inocentes, que há ali um propósito maior e isso permitiu-me desfrutar melhor da intertextualidade da obra e levantar questões que não me ocorreriam de outra forma. No fundo, desenvolver um olhar mais crítico.
É curioso como este texto se molda em contrastes, como segue diferentes transições e como nos faz pensar naquilo que consideramos natural e naquilo que nos incomoda. À semelhança das obras que influenciam O Primo Basílio, o autor foca-se no adultério, na decadência do casamento e no desejo, abrindo espaço para debatermos a hipocrisia e a fixação pela beleza. Em simultâneo, confronta-nos com a invisibilidade e o jogo de manipulação que vemos a formar-se em várias frentes. Sem querer entrar em detalhes que comprometam a leitura, permitam-me apenas realçar que é o tom de indiferença e a banalidade do quotidiano que mais interferem com a nossa perceção de humanidade.
As personagens, tão comuns, complexas e credíveis, deixaram-me sempre no limbo, já que não me parece fácil empatizar com as suas intenções. Até quando as suas atitudes aparentam vir de um lugar benigno, ficamos de pé atrás, porque são convenientes — e coniventes — com o seu egoísmo. Não obstante, é essa essência ambígua que as torna inebriantes. Irritei-me com o calculismo de Basílio, com a futilidade de Luísa, com o cinismo de Juliana, com o conservadorismo de Jorge e com a necessidade que tinham de se intrometerem na vida uns dos outros, mas elas não são só estas características: escondem camadas de solidão, de revolta, de procura por algo que lhes dê propósito, de tentativas, ainda que questionáveis, para conseguirem melhores condições de vida. Acredito que se ficasse somente pela minha leitura perderia a noção do quanto estas personagens possuem uma dimensão tridimensional, assim pude alargar horizontes.
Outra situação que me deixou apreensiva foi o final: pelo desfecho em si, pelo sufoco, pela obsessão e, uma vez mais, pela indiferença, que vem retirar todas as dúvidas que pudessem existir em relação às personagens — aqui, é como se as máscaras caíssem. Além disso, torna-se evidente o quanto este livro é feito de inúmeros simbolismos, já que Eça não deixa nada ao acaso, antes pelo contrário, tudo encaixa na medida certa.
O Primo Basílio é uma construção narrativa ficcional, sem que perca um traço real. Ao oscilar entre o luxo e a intimidade, entre o paraíso e o terror psicológico, agrega-nos a «uma teia de (…) chantagem e tragédia» e a um ambiente pensado para sentirmos tudo.
🎧 Banda Sonora: Valsa do Danúbio, Johann Strauss II, David Parry & London Philharmonic Orchestra | Chopin: The Nocturnes, Frédéric Chopin & Maria João Pires
Avós e Netos, Ricardo Peixoto
Os versos «as estrelas são avós/vogando em trenós de prata/lá em cima a velar por nós» povoaram o meu pensamento, assim que defini o livro da Fundação Francisco Manuel dos Santos para ler este mês. Uma vez que junho é, para mim, símbolo de família, quis descobrir mais sobre um vínculo tão especial e optei pelo retrato do Ricardo Peixoto.
Avós e Netos é construído a partir «das contradições de muitos estudos existentes sobre [esta] relação (…) para questionar as condições» em que têm sido realizados, bem como «os factores e variáveis privilegiados». Por esse motivo, encontramos o ensaio dividido em três capítulos: o primeiro, focado nas hipóteses que a literatura reconhece como as que mais influenciam esta relação; o segundo, dedicado à análise da perceção que avós e netos têm do seu vínculo familiar e afetivo; o terceiro, pensado para entender a razão pela qual «tantos estudos apresentam resultados tão diversos», quase sem consenso.
É interessante verificar que «os avós e os netos desenvolvem uma relação diferente de todas as outras existentes numa família», talvez por cruzarem uma noção de passado e de presente, talvez por entrelaçarem «juventude e experiência (…) realidade e fantasia», talvez por continuar a existir uma figura de referência que incute responsabilidades e rotinas, mas de um modo mais despreocupado, equilibrando regras e brincadeira. Foi neste último ponto que dei por mim a pensar no quanto isso pode ser uma benção ou um problema, caso não exista uma comunicação franca, sobretudo, entre pais e avós, porque é fácil quebrar o fio educativo que os progenitores tentam construir. O ditado «os pais educam e os avós deseducam» tem o seu tom cómico, mas se não for levado à letra, porque as crianças precisam de estrutura e de uma dinâmica complementar.
Não conheci os meus avôs (o paterno faleceu, salvo erro, quando eu tinha dez meses e o materno faleceu no dia em que fiz quatro anos), mas tive uma relação próxima com as minhas avós (mais com a materna, porque vivíamos com ela), por isso, é curioso ler este livro agora, enquanto adulta que já perdeu todas estas pessoas, e tentar enquadrar as nossas vivências em alguns dos dados apresentados. Além disso, é interessante ver a quantidade de variantes que, sem que nos apercebamos, influenciam estes elos e as repercussões que podem ter. Portanto, é natural que os estudos divirjam, porque nós próprios divergimos: as minhas avós tinham visões semelhantes sobre vários assuntos, mas a mesma situação desencadearia sempre reações diferentes — ainda que, visto de fora, até parecessem iguais. Herdei características distintas de cada uma delas e dei-lhes versões diferentes de mim, porque uma estava comigo todos os dias e a outra via-me quando a íamos visitar. E por mais que isso fosse frequente, «a proximidade física» implicava uma quebra (pouco visível) no que entregávamos a este estreitar de laços.
Os avós têm múltiplos papéis no decorrer do nosso crescimento, porque são mentores, cuidadores, parceiros de brincadeira, porto de abrigo e, até, almas gémeas e esta visão é fascinante pelo que deixa implícito: ao assumirem estas funções, despertam em nós um conjunto de valências afetivas e relacionais que tornaremos transversais noutras relações, independentemente da sua natureza. Esta «transmi[ssão] de ensinamentos», que pode ser mais ou menos consciente, talvez seja uma das heranças mais bonitas.
Avós e Netos é acerca de tudo aquilo que pode aproximar e afastar esta relação, durante várias fases de desenvolvimento, alertando-nos para o quanto esse vínculo é moldado pelas construções sociais, por mudanças pessoais e por dinâmicas particulares, uma vez que também nunca dissociamos o lado emocional do lado racional. Apesar de ter gostado deste retrato, senti que algumas ideias se tornaram um pouco repetitivas — ou que a justificação para determinado aspeto orbitava sempre nos mesmos padrões. Ademais, acho que a obra beneficiaria se trouxesse testemunhos na primeira pessoa.
🎧 Banda Sonora: A Explicação das Estrelas, Rui Veloso & JP Simões
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Ainda Tenho Mentiras Por Contar (Ao Vivo), Rapaz Ego | Amor Sem Pressa, David Fonseca | V’s, Rita Santos | Vem Mundial, Homens do Barco & Diogo Piçarra | não voltes a perguntar, SanJ | Desapegada, Ïnia.
Os álbuns: Jon, Isak, Zigarro & Armando Teles | Um Dia Vais Perceber, T-Rex.
[caixa mágica]
Violetta Behind The Scenes // Directed By Fabrice
Um ano desta obra de arte! No número 117 da newsletter, partilhei que uma das partes mais bonitas de ter feito morada no Violetta é a sensação de estar a navegar em terreno familiar, mas sem perder a capacidade de ficar espantada com as canções, quase como se as ouvisse pela primeira vez, quase como se regressasse a casa e percebesse que há qualquer coisa de diferente em cada uma destas divisões que já visitei inúmeras vezes.
Acredito que o melhor trabalho do Lhast será sempre o próximo, mas ter este álbum a guiar o caminho traz um aconchego que ainda hoje não sei traduzir. E eu sei que não perco uma oportunidade para partilhar/escrever sobre ele, mesmo assim, continuo a não ter palavras suficientes que lhe façam justiça — mas permanecerei deste lado da margem a viver todas as camadas que for descobrindo/desvendando pelo caminho.
Um ano depois, em jeito de celebração, temos acesso ao behind the scenes do Violetta, documentado e editado pelo Fabrice. Enquanto assistia, dei por mim a pensar que é sempre especial vermos o entusiasmo que os artistas que acompanhamos têm pelos seus projetos, mas que tudo se amplia quando, à sua volta, há um grupo de pessoas a partilhar esse mesmo entusiasmo, porque creio que dá outro alento, outro impulso. E, além disso, posso ou não ter ficado emocionada com uma parte acústica deste vídeo.
[biblioteca sonora]
É Para o Lado Que Eu Durmo Pior
A lista de podcasts em atraso continua caótica e, por isso, nada como acrescentar mais um à minha biblioteca — em algum momento equilibrará —, já que Guilherme Duarte decidiu avançar com uma ideia a solo. Assim, se também quiserem ampliar as opções, É Para o Lado Que Eu Durmo Pior já se encontra disponível e começou em grande, com temas ambíguos, que nos deixam sempre no limbo entre a decência e a imoralidade.
Vale a Pena Com Afonso Cruz
Os convidados influenciam sempre a regularidade com que ouço (ou não) o podcast da Mariana Alvim. Uma vez que Afonso Cruz encerrou a mais recente temporada, é claro que tinha de adicionar o episódio à lista e a conclusão não se altera: quanto mais vezes o ouço, mais fascinada fico com a sua forma de contar histórias/peripécias/memórias.
[cartaz]
Maia Fest Outdoor: Slow J
Os músicos talvez tenham sido a minha porta de entrada para a poesia, isto porque há canções que, mesmo sem a sua componente melódica, soam a poemas que poderíamos declamar e eternizar em avenidas, em eventos, em antologias. E o Slow J, para mim, é um dos casos mais evidentes que tenho para nomear, uma vez que me inspira sempre.
O Maia Fest Outdoor foi a oportunidade perfeita para o reencontrar ao vivo, já que só o tinha conseguido ver na Queima das Fitas do Porto, em 2024. Nessa ocasião, senti que levou uma proposta mais descontraída e confortável, talvez pelo contexto, e, desta vez, sinto que trouxe uma atuação mais interventiva. O que não deixa de ser fascinante, já que vários dos temas são transversais aos dois momentos: creio que isso comprova o quanto as músicas podem transformar-se com o tempo e, até, com o nosso propósito.
Sem esquecer a banda, que é absolutamente extraordinária, voltei a ficar sem palavras para a capacidade de nos fazer sentir cada verso, cada travessia, como se nos saíssem de dentro, como se aquela história fosse também a nossa — e, em parte, é. Além disso, acho mesmo comovente a forma como se entrega inteiro em palco, como é tão feito de verdade e como não deixa de ficar maravilhado com o que está a acontecer à sua volta.
Ele continua a lutar pelo seu sonho e a honrar, todos os dias, a sua escolha, sem a dar por garantida. Preciso que nos cruzemos mais vezes, porque é um privilégio ouvi-lo.
Solstício: S. Pedro & Os Quatro e Meia
Os doismileoito eram uma das minhas bandas favoritas e há alturas em que o Quinta-Feira paira no meu pensamento, com a voz inconfundível de Pedro Pode a embalar a melodia. Assim, quando entraram numa pausa por tempo indefinido e o Pedro seguiu a sua carreira a solo, só existia uma hipótese possível: acompanha-lo nessa aventura.
O S. Pedro é, para mim, um dos nossos melhores letristas, não só pela sensibilidade, mas também pela atenção ao detalhe e pela capacidade de bordar temas próximos a sonoridades um pouco mais leves, dançáveis, ainda que também os possa revestir de uma certa tristeza em todos as componentes, se for isso que pede. Portanto, vê-lo ao vivo encheu-me todas as medidas, porque pude ver todo o seu talento à minha frente.
Ficaria mais tempo a escutá-lo, a viajar nas suas músicas que contam histórias que nos parecem ler por dentro. Não obstante, o Solstício tinha outro nome de peso no cartaz.
Os Quatro e Meia, sem querer exagerar, talvez sejam a banda que mais vezes vi ao vivo e não há um concerto que me tenha desiludido. Para além do talento inesgotável, são a alma da festa e deixam-me sempre impressionada com as camadas que acrescentam às canções: podemos ouvi-las inúmeras vezes e sabê-las de cor, no entanto, a próxima vez terá um toque diferente, permitindo-nos traçar — até debater — outras interpretações.
É impossível ficarmos quietos durante o concerto, quando a energia nos contagia, mas também tenho de reconhecer que lacrimejei com a Quem Me Vê, porque a letra mexeu cá dentro. E este é um dos aspetos que mais admiro neles: a destreza de nos levarem a sentir o sol ou a pairar na neblina de uma forma tão natural, tão transversal e poética.
Se a noite já estava perfeita, melhorou quando convidaram o S. Pedro para cantar um tema com eles — creio que precisamos de uma colaboração. Não há baile como este!
BABELL: GNR, Pedro Abrunhosa & Rui Veloso
A memória tem as suas oscilações, ainda assim, as primeiras referências musicais não perdem um lugar cativo: são elas que, à sua maneira, nos formam e nos predispõem a escutar diferentes géneros, diferentes composições. À medida que vamos crescendo, podemos desvincular-nos dessas preferências, mas o contacto inicial é imprescindível para encontrarmos o nosso lugar, o que nos fala ao coração e, depois, levantarmos voo.
O impacto que tiveram em mim diverge, mas é inegável que Rui Veloso, GNR e Pedro Abrunhosa, provavelmente por esta ordem, abriram portas para que me tornasse tão curiosa em relação à música portuguesa. Perdi conta à quantidade de vezes que cantei Lado Lunar, Ana Lee e Tudo o Que Eu te Dou, o quanto me comovi com a Pronúncia do Norte e a Porto Sentido e como estava convicta de querer a Nunca Me Esqueci de Ti para a entrada do meu casamento — hoje, casar já não entra nos planos, contudo, a música continua a ser uma das minhas favoritas. Por esse motivo, saber que partilhariam, pela primeira vez, o mesmo palco revelou-se um ensejo demasiado precioso para perder.
A Avenida dos Aliados já se revestiu de magia em diversos momentos, só que este teve um toque diferente: não só pelas atuações individuais, mas também por darem «forma a uma celebração da música, da literatura e da identidade cultural portuguesa». Aliás, os artistas foram desafiados pelo BABELL a criar uma composição inédita, a partir «da obra de três grandes poetas portugueses profundamente ligados ao Porto». Assim, os GNR apresentaram Castigo, «inspirado na obra de Pedro Homem de Mello», o Pedro Abrunhosa estreou Fado do Amor Perfeito, inspirado na obra de Vasco Graça Moura «e interpretado com a participação especial de Mayra Andrade», e Rui Veloso deu voz a Respiro o Teu Corpo, de Eugénio de Andrade — a minha composição favorita da noite.
O espetáculo foi feito de uma enorme partilha e generosidade, algo visível nos temas que tocaram em duplas — Efetivamente por GNR e Pedro Abrunhosa, Eu Não Sei Quem Te Perdeu por Pedro Abrunhosa e Rui Reininho —, mais ainda quando se reuniram os três em palco para interpretarem o emblemático Chico Fininho. Valeu muito por isto!
Ninguém me pergunta, mas se algum dia tiverem necessidade de questionar as razões que me levam a ser tão apaixonada por música portuguesa, acho que lhes falarei desta noite e do quanto me permitiram viajar no tempo e redescobrir um período da minha vida em que, sem ter maturidade suficiente para o entender, foram meus confidentes.
A Poesia Está na Rua & Poesia ao Poder
O Porto continua a ser o meu poema favorito, por isso, vê-lo tomado pela poesia é um estreitar de laços que me garante que esta cidade terá sempre um pretexto para florir, para usar a palavra como manifesto de resistência: podemos cair, mas não quebramos.
A propósito do BABELL, alinhei-me para fazer parte de um percurso poético, no qual «doze diseurs e dezenas de voluntários, especialmente preparados em seis workshops gratuitos de leitura poética», se reuniram «para uma intervenção». Assim, partimos da Praça da Batalha, fomos à Rua de Santa Catarina, ao Mercado do Bolhão, à Praça Dom João, à Avenida dos Aliados e desaguamos nos Paços do Conselho. Nesta versão única de A Poesia Está na Rua, ecoamos palavras de ordem por entre os versos de seis poetas.
Já nos Paços do Concelho, poetas portuenses elevaram «A Poesia ao Poder, subindo à varanda da Câmara Municipal do Porto para ler os seus poemas sobre a cidade», num simbolismo que acho curioso e interessante, porque houve alturas na minha vida que me fizeram acreditar que a poesia era uma arte acessível a poucos, só a quem parecia intelectualmente superior, mas a poesia é democrática, eclética e próxima, o que, na atualidade, aparenta ser um convite para a diminuir, como se fosse menor. Porém, a poesia não se encolhe — acolhe — e ver os poetas naquele lugar de destaque deu-me uma certa esperança, «mesmo que por instantes», de a saber a «governar o mundo».
Participar nestas iniciativas reforçou a certeza de querer que a poesia me defina.


[bilheteira]
Grande Entre os Assassinos
Eduardo Madeira apresenta o seu «espectáculo mais confessional, pessoal e duro», dia 29 de junho (hoje), no Teatro Tivoli BBVA, às 21h. Há bilhetes entre os 14€ e os 22€.
Festival Raya
Do dia 2 ao dia 4 de julho (quinta a sábado), o Parque de Estacionamento das Piscinas Municipais de Campo Maior recebe o Festival Raya. Há duas modalidades de bilhetes: diários (7€) e passe para os três dias (18€). O recinto abre às 21h.
Porto Comedy Room
O Porto Comedy Room «é a noite certa para quem gosta de rir sem pedir licença». No dia 2 de julho, há uma sessão no Pinguim Café, às 21h30, com bilhetes a 8€; no dia 3 de julho (sexta-feira), há uma sessão no City Club, às 22h, com bilhetes entre os 8€ e os 60€ (o último valor inclui entrada e jantar para 2 pessoas).
Maria João, André Mehmari e Carlos Bica
O espetáculo que reúne «três dos mais destacados músicos do panorama jazzístico lusófono» está marcado para o dia 3 de julho, às 19h, no Convento de São Francisco. Integrado no programa das Festas da Cidade de Coimbra, os bilhetes variam entre os 8€ e os 10€.
Os Quatro e Meia em Notas de Mimo
No dia 3 de julho, Os Quatro e Meia sobem ao palco do Anfiteatro de Seia, para um concerto solidário, às 21h. Existem duas modalidades de bilhetes: só de entrada (20€) ou de entrada e Meet & Greet (125€). É, também, possível fazer apenas donativos.
Joana Almeirante e S. Pedro
No dia 4 de julho, Joana Almeirante e S. Pedro atuam na Casa das Artes de Miranda do Corvo. O concerto da Joana está marcado para as 21h30, enquanto o do S. Pedro está marcado para as 22h30. Os bilhetes variam entre os 10€ e os 15€.
[era uma vez, em 2023: livros inspirados e/ou passados no porto]
A «mui nobre e sempre leal» cidade Invicta é feita de poesia no seu nevoeiro cerrado e nas fachadas cinzentas, antigas, em decadência, que nunca perdem a memória daquilo que foram, nem a identidade moderna que a faz renascer. Por isso, «não é um lugar, é um sentimento», como declarou Agustina Bessa-Luís — palavras que nunca esqueci.
Manuel António Pina, por seu lado, escreveu muito sobre o Porto, afirmando que esta relação era «do tipo conjugal, um ato de conhecimento», era como «dois corpos que se foram conformando um com o outro, uma relação tranquila, serena. Já nada se receia, já nada se espera, mas está-se sempre disponível para tudo». E eu continuo disponível para acolher cada um dos seus recantos, que têm essência a casa, a família e a abraço.
No mês em que se celebra a noite mais bonita do ano, o São João, decidi recuperar um texto de 2023. Assim, com o coração entre margens, desde a não ficção à ficção, reuni dez livros inspirados e/ou passados no Porto, colocando a minha Invicta em evidência.
era uma vez o porto, raquel patriarca
«Aventura pela História de uma cidade, desde o tempo remoto em que primeiros povos escolheram este espaço como seu, para ocupar e viver, até aos dias de hoje em que o mesmo lugar é agora nosso, para viver e partilhar. É uma viagem no tempo dentro do espaço da cidade do Porto, com paragens em muitas estações de datas diferentes, de onde se pode ver como tudo cresce e muda, conhecer algumas personagens históricas que vieram habitar e transformar a cidade e saber das coisas importantes que fizeram. Não é exagero dizer que nesta História nada foi esquecido, o que faz deste livro uma ferramenta fundamental para quem quer desvendar os «segredos» da cidade Invicta».
lendas do porto, joel cleto
«Uma viagem pela História e Património da região do Porto a pretexto de perto de duas dezenas de lendas. Episódios fabulosos, transmitidos durante séculos através da oralidade, as lendas não deixam de encerrar pistas preciosas (por vezes as únicas que chegaram aos nossos dias) para a compreensão de muitos episódios históricos e para a génese de muitas localidades e seus monumentos. Mas, para lá de lenda, o leitor encontrará também as respostas que, entretanto, a História e a Arqueologia encontraram para as dúvidas e questões que motivaram os nossos antepassados para as suas explicações lendárias».
porto nos recantos do passado, germano silva
«Através destas novas crónicas de Germano Silva, redescubra as histórias de um Porto do passado que tão vivo se mantém nos seus recantos, nas suas ruas e nas suas gentes».
uma vida assim-assim, cláudia araújo teixeira
«Às 21h08 do dia 13 de Abril de 1970, enquanto a missão espacial Apollo 13 deixa o mundo em suspenso ao anunciar Houston, we’ve had a problem, Cristina Maria nasce num bairro social do Porto. A coincidência escapa por completo aos seus pais, que perdem assim a oportunidade de juntar uma boa história à já sobrelotada mitologia familiar».
meia-noite ou o princípio do mundo, richard zimler
«Portugal, início do século XIX: John Zarco Stewart, filho de uma judia portuguesa e de um escocês, é uma criança endiabrada, sensível e profundamente curiosa, herdeira sem o saber de uma fé amortalhada em três séculos de secretismo. Mas um período de perda e amargas revelações põe um fim abrupto à sua inocência, e só a misteriosa intervenção de um carismático curandeiro, trazido de África para o Porto pelo pai, consegue salvá-lo. Profundo conhecedor da sabedoria milenar do seu povo e antigo escravo, Meia-Noite tornar-se-á o maior amigo de John e determinará o curso do seu destino».
skyline, carlos costa
«Situado num futuro próximo, este romance constitui-se como um autêntico thriller social que atravessa instituições políticas, empresariais e desportivas da cidade do Porto, uma urbe distópica do século XXI perdida na recolocação de uma obra pública do século XIX com que se pretende projetar à escala mundial. O título da obra toma uma expressão inglesa, referindo-se à linha que construções humanas e natureza formam no horizonte, e alterar este perfil numa cidade - tantas vezes usado para a identificar - implicará sempre uma transformação no modo como esta se pensa a si própria».
morte no estádio, francisco josé viegas
«Um famoso futebolista do FC Porto é assassinado num bar irlandês em plena Foz. Para Jaime Ramos, inspetor da Polícia Judiciária do Porto, e Filipe Castanheira, que interrompe um exílio autoimposto nos Açores, há vários implicados no crime: Alexandra, a mulher da vítima, Susana, casada com outro futebolista e amante do morto, Serafim, o amante da amante, e outras figuras mais ou menos sombrias que evocam as relações obscuras do mundo do futebol. Enquanto as investigações decorrem, vão emergindo as muitas paixões que envolvem todas as personagens — a de Jaime Ramos e de Filipe Castanheira pela comida; a de Jorge Alonso, o dono do bar irlandês, pela Irlanda, e de quase todos pelo futebol – suposto móbil do livro. São essas paixões que acabam por dar sentido à falta de sentido da vida».
uma aventura no porto, ana maria magalhães, isabel alçada
«As gémeas, mais os seus amigos Pedro, Chico e João, desta vez foram para o Porto passar umas férias. Como não podia deixar de ser, levaram consigo o Faial e o Caracol. No comboio tiveram imensa sorte, pois conheceram a Rita e o seu cão Boxie. A Rita tinha um grupo enorme de primos e amigos com quem costumava organizar montes de programas. Juntos, acabaram por viver uma aventura empolgante. Tudo começou com a descoberta de um túnel. Onde iria dar? Seria perigoso explorá-lo? Passaria de facto por baixo do Douro, como afirmavam as lendas? Uma noite, às escondidas, decidiram tentar a sorte...Mas alguém tinha de ficar cá fora, de vigia...O que viram uns, o que adivinharam outros, foi o princípio da história».
porto, memória e esquecimento, helder pacheco
«Helder Pacheco é autor de algumas das mais importantes obras sobre a cidade do Porto, além de escrever regularmente em jornais e revistas. Aliás, alguns dos textos deste livro são repescados das crónicas que assiduamente publicava no jornal Público. Correspondem, segundo o autor, a “cinco anos de textos sobre o que eu penso da cidade e do seu património” e concretizam-se como “uma obra muito bela, inteligente e nostálgica sobre o Porto e os lugares das pessoas com a memória que (ainda) nos habita”, como a caracterizou o jornalista José Gomes Bandeira. O livro conta com dezenas de fotografias e reconstitui ambientes portuenses, sinais e recordações que tornaram vivos os lugares que quer ver preservados».
três mulheres no beiral, susana piedade
«Em plena Baixa do Porto há uma rua icónica com uma fiada de prédios, onde os modos tripeiros convivem com a música dos artistas, a sinfonia das obras, a vozearia dos bares e os bandos de turistas curiosos. É numa dessas casas que vive a octogenária Piedade desde que se lembra e onde tem amigas de longa data. Mas o terror instala-se quando - ofuscados pelo potencial deste Porto Antigo - os proprietários e investidores não olham a meios para se livrarem dos velhos inquilinos, que vão resistindo às suas ameaças como podem, mas começam a sentir na pele as represálias».
☕ Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«Não é o silêncio é o que o silêncio faz ouvir»
[in Erros Meus - Poesia Incompleta, Nuno Artur Silva]
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