Portugalid[Arte] #151
uma viagem com Susana Moreira Marques, a banda sonora da semana, Vocês Sabem Lá, BABELL, episódios de podcast guardados e sugestões culturais
[estante cápsula]
Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro
O passado permanece inalterável, mas tem impacto no presente. E que o digam todas as mulheres anónimas que figuram no livro de Maria Lamas, As Mulheres do Meu País, que serve de guia para o livro de Susana Moreira Marques. Aliás, que o digam todas as mulheres que, sem nome, sem rosto, reconhecemos para lá destas palavras, porque há tanto que mudou com o tempo e muito mais que aparenta continuar no mesmo lugar.
Gatilhos: Referência a Violência, Luto e Morte
Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro apresenta-se plural, uma vez que é um relato, um ensaio e uma autobiografia. É um livro múltiplo de uma travessia que leva a autora a «aldeias ruidosas do passado» e a «aldeias-museu do presente», passando por hotéis modernos e pela voz de mulheres que «ainda vivem no silêncio de antigamente».
É através desta imagem antagónica que percebemos o impacto de figuras como Maria Lamas, tão central no ativismo político em Portugal, do que poderia ter sido vivido e de todas as visões condicionadas que poderiam ter modificado o curso histórico — ou, pelo menos, determinados períodos. Além disso, torna evidente que conhecer o nosso passado é crucial, não só para nos edificarmos enquanto seres humanos, mas também para recuperarmos raízes, alicerces, memórias e termos contexto da nossa condição.
Ler esta obra deixou-me a pensar nas mulheres da minha família, em tudo aquilo que não fiquei a saber sobre cada uma delas e no que sou por causa delas, mesmo que não seja capaz de reconhecer todos esses fragmentos em mim. Por esse motivo, fiquei com vontade de voltar a observar os álbuns de família e de questionar, para tentar decifrar a bagagem que escondem. No fundo, acredito que fiquei com vontade de lhes dar voz.
Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro convida-nos a embarcar numa viagem intimista, atenta, transformadora, na qual Susana Moreira Marques reúne lembranças, observações, divagações e uma necessidade pessoal de entender a sua história, sempre com uma grande sensibilidade. Em simultâneo, estabelece uma ponte com a sua avó e, juntos, encaixamos certos passos. Já me tinha rendido à sua forma de contar histórias em Agora e na Hora da Nossa Morte e voltei a reforçar o fascínio, isto porque há poesia na maneira como interliga as diferentes componentes narrativas e como, preenchendo silêncios e pausas, nos mostra um mundo de possibilidades, cheio de camadas novas.
🎧 Banda Sonora: Maria, Beatriz Rosário | Medusa, Capicua & Valete
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Fé, Yang | Bisou, Satiro | Cor Lá Fora, Janeiro & Valter Lobo | Sortudo, NAPA | Vertigens, Zarko | Outra Viagem, Os Relíquia | Balsa, Santos, Só | Quem Me Vê, Os Quatro e Meia & Luís Trigacheiro.
O álbum: Porto Baby, Tiago Mob.
[caixa mágica]
Vocês Sabem Lá: Rita Vian
A Rita Vian lançou Liga Dura, o seu mais recente álbum, e conversou com a Mariana Oliveira, no Vocês Sabem Lá: um programa semanal, aos domingos, na Antena 3, que promove «o encontro com figuras das artes, em Portugal», espreitando os bastidores.
Inicialmente, confesso, fiquei com a impressão de que não seria um trabalho que fosse ouvir muitas vezes de seguida, porque precisa do estado de espírito certo, mas o disco tem crescido em mim, até porque a Rita borda canções com assertividade e parece que nada lhe escapa. Talvez por esse motivo não tenha sido fácil de entrar nestas canções, porque nos retiram o tapete, porque nos obrigam a sair da nossa zona de conforto e a sermos críticos com as nossas incoerências e o estado do que nos rodeia. E a verdade é que tem sido maravilhoso perceber como a artista usa a palavra como arma, colo, casa, e como transforma todos estes poemas através de melodias que misturam eletrónica com «canto tradicional português e urbano», de um modo visceral, lúcido e empático.
Esta conversa permitiu, portanto, entender ainda melhor o processo de construção do Liga Dura, enquanto recordaram «as letras que ficaram da infância», o encontro com o Manel Cruz, o jornalismo que ficou para trás, a ligação à música que vem do berço, a especialidade de brincar com as palavras, a importância de seguir em frente e todos os caminhos paralelos inevitáveis, porque nunca sabemos o que vem depois. Além disso, houve margem para pensar sobre cultura, riscos e os espaços que podiam ser criados para que existisse um amparo maior para os artistas e para os profissionais envolvidos.
Achei a partilha muito franca e inspiradora, até porque se percebe que a Rita não está a tentar romantizar, a tentar passar uma imagem idílica do percurso, está, isso sim, a abrir a porta para aquilo que é a sua experiência, sem qualquer imposição. Ela pisou o medo, «mesmo assumindo que o medo é o chão da sala toda», e isso é extraordinário.
[gavetas]
BABELL: um breve guia de sugestões a duas vozes
O Porto tem uma identidade literária, enquanto «berço e casa de muitos dos maiores escritores portugueses», ramificando-se entre o poético e o romanesco. Sustentando-se nesta virtude, não só procura reafirmá-la, como também abrir as portas para que se transforme, se reinvente e se viva essa essência em comunidade, em histórias plurais.
É nesta margem que vemos a florir, como se de uma camélia se tratasse, uma Cidade-Livro que «mapeia livrarias, alfarrabistas e espaços culturais» e que exibe a «cidade, a cultura e a identidade portuense a partir da literatura». E como a Invicta sabe receber, idealizou-se uma iniciativa pensada para acolher moradores, visitantes e apaixonados pela sua mística, unidos pelo fascínio às palavras e aos recantos onde nos levam, com a particularidade de cada ponto de ação não distar mais de 15 minutos a pé dos outros.
Escrita com dois LL, fazendo lembrar «o mito bíblico da Torre de Babel, para afirmar a diversidade cultural e linguística como riqueza maior da humanidade» e inspirando-se «no conceito de biblioteca infinita, criado por Jorge Luis Borges», assim é BABELL.
babell: conceito, durabilidade e acesso
BABELL é um evento literário e cultural, estruturado para acontecer, sobretudo, em «espaço público, em praças e ruas da cidade». Idealizado e produzido pela Fundação Livraria Lello, em coprodução com a Câmara Municipal do Porto, este festival «visa valorizar o território a partir do investimento na cultura», usando o livro como motor.
O «corpo central da programação é internacional, mas a alma é de cá», isto porque as sessões trazem figuras artísticas reconhecidas «a nível mundial», ao mesmo tempo que inclui «sessões e iniciativas protagonizadas por escritores e outros artistas portuenses e portugueses», entre conversas, exposições, performances, concertos e colóquios.
A acontecer de 24 a 29 de junho, a organização de BABELL «não cobra pela entrada em nenhuma das sessões», mas o acesso às mesmas é feito mediante a aquisição de um livro, independentemente do preço. Tem, isso sim, de ser comprado numa das livrarias aderentes da cidade, para nos ser fornecida uma senha alfanumérica «que possibilita a reserva para uma sessão». Importa referir que devemos «comprar tantos livros quantas as sessões a que quiser[mos] assistir». Além disso, para além do bilhete, devemos levar sempre um livro connosco, para «encher a cidade de livros» e contagiá-la pela leitura.
babell: seis sugestões
A Sofia perguntou-me se estava a pensar escrever sobre este evento e, inicialmente, só tinha idealizado incluí-lo na parte da bilheteira — e fazer uma breve contextualização, quando escrevesse sobre um dos concertos. A conversa escalou e acabei por desafiá-la para uma perspetiva partilhada. Assim, cada uma de nós escolheu três sessões às quais gostaria de assistir, sem repetições, para tornar a experiência ainda mais diversificada.
as escolhas da Sofia
Motivada por aquelas que considera ser as que mostram melhor a importância do evento, por trazerem vozes tão diferentes à cidade, eis as três escolhas da Sofia:
27 de junho - Conversas com Escritores: Margaret Atwood, com moderação de Tânia Ganho, às 16h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório;
28 de junho - Conversas com Escritores: Salman Rushdie com Alberto Manguel, às 21h30, no Coliseu do Porto. Livro-Bilhete obrigatório;
29 de junho - Conversas com Escritores: Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge, com moderação de Francisco Sena Santos, às 17h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório.
as minhas escolhas
Motivada pela poesia que a cidade respira, as minhas escolhas só podiam revestir-se dessa energia (e uma delas pode ser vista noutras datas), mas abri uma exceção:
25 de junho - Inauguração da Exposição Poesia Imersiva: Cego Som, de João Habitualmente, às 16h, no Mosteiro de São Bento da Vitória. Entrada livre;
27 de junho - A Poesia Está na Rua: Intervenções Poéticas Simultâneas Rumo aos Paços do Concelho, com curadoria de Rui Spranger, a começar às 10h30, num percurso poético pelo centro da cidade;
29 de junho - Lançamento do Novo Romance de Valter Hugo Mãe, O século dos imbecis, com o autor e Héctor Abad Faciolince, às 19h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório.
Reduzir a lista apenas a três eventos foi complexo, até porque ambas acreditamos no potencial de BABELL e consideramos que, para o primeiro ano, trouxe um dinamismo e uma proposta muito interessantes. Se vos interessar, escrevemos listas mais extensas nos nossos respetivos blogues, que podem ler no daylight e no entre margens.
[biblioteca sonora]
A minha recolha de episódios de podcast semanal resultou nestas três propostas. Se sei quando os conseguirei ouvir? Nem por isso, mas ficam guardados na biblioteca.
[bilheteira]
Nunca Mates o Arraial
A convite do Ágora Porto, os Nunca Mates o Mandarim assumiram a curadoria «de um dos spots da noite mais longa do ano», no Porto. Assim, dia 23 de junho (terça-feira), no Palco Casa da Música, com os hosts Beatriz Gosta e David Bruno, acontece Nunca Mates o Arraial, que contará com a presença de Bar Dançante (Mike El Nite e João Não), Vitória Vermelho e Luís Lucas, Rapaz Ego, Nunca Mates o Mandarim, Más Influências e convidados surpresa. A entrada é gratuita.
Facit 2026
A Feira Agrícola Comercial e Industrial de Tábua acontece de 24 (quarta-feira) a 28 (domingo) de junho, no Pavilhão Multiusos de Tábua (Coimbra). É possível comprar passe geral, a 12€, ou adquirir bilhetes diários, a 4€. Os concertos começam às 21h45.
Concerto Blind Zero
O grupo atua no dia 26 de junho (sexta-feira), na Casa das Artes de Mirando do Corvo, às 21h30. Os bilhetes variam entre os 16€ e os 19€.
Feira dos Sabores do Tejo
A Feira dos Sabores do Tejo regressa a Vila Velha de Ródão nos dias 26, 27 (sábado) e 28 de junho. Este ano, «o evento assume um cariz solidário, já que o acesso ao recinto estará sujeito a um contributo simbólico», revertendo para a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila Velha de Ródão (Castelo Branco). O cartaz conta com nomes como Dillaz, Diogo Piçarra e Xutos & Pontapés, mas haverá outro tipo de atividades. As portas abrem às 12h e é possível comprar passe geral, a 11€, ou bilhete diário, a 5,37€.
☕ Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«- Pensa numa flor
- Também não duram a vida inteira
- Duram sim. Não vais nunca pensar numa flor e imaginá-la morta, será sempre uma imagem viva.»[in Deserto, Corte Diálogo, Milhanas]
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A parte sobre o livro da Susana Moreira Marques... essa vontade de voltar aos álbuns de família a seguir a uma leitura é muito reconhecível.