Portugalid[Arte] #150
uma viagem com Susana Piedade, a banda sonora da semana, Novas Narrativas de Caça, Não Mandas em Mim de Diogo Batáguas e Manuel Cardoso e sugestões culturais
[estante cápsula]
Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno, Susana Piedade
As noites que nos caem por dentro são invisíveis. No máximo, vamos deixando breves indícios dessa escuridão sem, no entanto, revelar o quanto nos podem levar para uma zona de abismo irreversível. No seu mais recente livro, Susana Piedade espelha várias versões destes fragmentos, através de uma narrativa dura, que nos dilacera sem filtros.
Gatilhos: Linguagem Gráfica e Explícita
Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno leva-nos para a Praceta das Tílias, «onde as pessoas mal se veem na azáfama dos dias». Ali, perdidas nos seus próprios problemas, as personagens aparentam estar desligadas, mas é curioso como as histórias se cruzam mais do que aquilo que imaginam: Esmeralda esforça-se por ser «a mãe que lhe faltou em criança» e Teresa, a sua filha, «parece ter tudo para ser uma adolescente feliz»; Ana Lurdes cresce «numa casa onde o amor não entra», Sebastião e Olívia, pai e filha, são o espelho de um luto recente, amparando-se na saudade, e Lúcia vê a sua vida do avesso, quando confrontada com a certeza de «o maior perigo [vir] de onde menos esperava».
É, portanto, dentro de quatro paredes que a narrativa nasce, até porque «ninguém sabe o que acontece na porta ao lado», mas, perante cenários tão turbulentos, cada uma das personagens vai revelando as cicatrizes e os segredos que escondem, incluindo-nos no processo, nos momentos mais delicados e transformadores, que colocam em causa os vínculos afetivos e nos fazem questionar a sua resistência, a sua resiliência. E, uma vez que há perguntas que são caminhos, procuramos percorrê-los com cautela, atendendo a que existe sempre um prenúncio de algo mais, de outra camada sombria a espreitar.
A porta é aberta devagar, afinal, ainda não criamos intimidade, contudo, começamos a sentir o peso daquilo que não vemos à superfície, daquilo que vamos intuindo através de meias palavras, de ações incoerentes, de silêncios prolongados. De um modo subtil, as feridas vão-se insinuando, colando-se à nossa pele, inquietando-nos pela leveza de um início idealizado para nos fazer oscilar, para nos colocar ao lado dos protagonistas, mesmo que não sejamos capazes de entender todas as suas motivações e as suas dores. E, assim, ampliam-se as dúvidas e os receios, visto que não sabemos o que nos espera.
Quando dei por isso, já estava completamente entrelaçada na realidade de Esmeralda, de Teresa, de Ana Lurdes, de Sebastião, de Olívia e de Lúcia, consciente de que cada um despertou, em mim, um lado emocional singular. Dentro das suas imperfeições, é percetível a sua humanidade. Aliás, se há algo a que a autora já nos habituou foi à sua forma de narrar assuntos que a apoquentam, resgatando retratos que poderiam ser de pessoas que nos rodeiam — ou, até, nossos. Felizmente, sei que não me revi na maior parte das situações, mas foi impossível ficar indiferente às marcas que (me) deixaram.
À medida que fui avançando na leitura, atando os fios invisíveis que Susana Piedade fez florescer, dei por mim a pensar em Tudo na Natureza Apenas Continua, de Yiyun Li, sobretudo, por causa de uma frase em específico. Num livro tão marcado pela relação entre pais e filhos (em ambos, na realidade), torna-se evidente que existem alturas em que podemos fazer tudo o que é humanamente possível para protegermos os nossos e, ainda assim, haver limites intransponíveis, muros que não conseguimos derrubar. Isso dilacera pela certeza de sermos habitados por um sentimento de impotência, por uma sensação de falha constante. E nenhum rasgo de luz parece ser capaz de o apaziguar.
A fragilidade das personagens, tão exposta no modo como enfrentam os seus traumas, as consequências de escolhas passadas, as expectativas que depositam em si e nos que as rodeiam, encontra colo na escrita da autora, sensível, poética nas passagens certas, sem floreados que desvirtuem o verdadeiro impacto das situações, porque o propósito é fazer-nos sentir, mas sem ter necessidade de enveredar por um tom melodramático. Ademais, sem passos apressados, faz-nos ouvir os silêncios que pairam nas conversas.
Precisei de respirar fundo em vários momentos, porque é ténue a linha que separa a lucidez da autodestruição, porque aquilo que nos mantém à tona consegue ser frágil, porque nem sempre compreendemos o abismo das nossas pessoas e o quão difícil é chegarmos até elas. Se decidirem abraçar esta obra, que aconselho vivamente, façam-no se estiverem num bom espaço mental e emocional, porque é uma história dura e há gatilhos aqui que podem mexer com situações pendentes ou desbloquear inseguranças que julgávamos resolvidas. A Susana Piedade não é gratuita na abordagem, antes pelo contrário, explora os assuntos com o máximo de respeito, mas não suaviza os cenários.
Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno reveste-se de sinais, de diferentes tipos de perda e de desencontros. Num meio onde ninguém se conhece realmente, ficamos a saber de casos de alienação parental, de doença prolongada, de abuso e de violência. Por esse motivo, este livro é plural nas suas dores, quer nas do passado que acabam a condicionar o presente, quer nas do presente que nos acompanham sem data para nos libertarem. Ao refletirmos acerca da possibilidade de nos reconstruirmos ao longo do tempo, torna-se inequívoco que uma simples descoberta estilhaça a nossa harmonia, deixando entreaberta esta porta que nos mantém equidistantes da paz e do precipício.
🎧 Banda Sonora: Iris, Goo Goo Dolls | This Is Me Trying, Taylor Swift | Matilda, Harry Styles | em porta trancada, Maro
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: beijing freestyle, nastyfactor | Novidades?, ATJ | On Est Là, Mizzy Miles & Wet Bed Gang | Maré, Danni Gato & Diogo Piçarra | Batota, bapcat, Isak, Zigarro & Armando Teles | Põe-te a Milhas, PZ & Margarida Campelo | Good Time, Carl Karlsson | Ovo - Ao Vivo, Manel Cruz | Socorro, Gonçalo Malafaya | Diz-me Só, Elli Maze.
Os álbuns e o EP: eclipse, MUN | A Beleza do Erro, Tayob J. | Para Onde Vão as Coisas Perdidas, Maria Leitão | It All Leads Back South, Carla Prata.
[caixa mágica]
Novas Narrativas de Caça
As histórias nunca têm apenas uma versão, no entanto, se só escutarmos um dos lados da narrativa, naturalmente, será esse a prevalecer. Assim, «até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça» e é este provérbio africano que dá mote e acompanha a nova aposta audiovisual da RTP.
Novas Narrativas de Caça pretende ser um espaço de conversa, que rejeita os habituais lugares comuns associados à comunidade afrodescendente em Portugal e evidencia o racismo estrutural existente em situações mundanas. Nas palavras de Luís Almeida, o autor da ideia da série, cada episódio é um lugar de fala, por isso, encontramos temas como identidade, pertença e opressão, a partir da escrita de diferentes argumentistas. Ademais — ou por causa disso —, contactamos com «histórias que partem de dentro», edificando pontes para realidades da nossa sociedade que necessitamos de reavaliar.
A falácia de existir apenas «uma experiência negra» é desconstruída desde o começo, até porque, ao longo de sete episódios independentes, percebemos como é que várias situações afetam as personagens, como é que cada uma delas as encara e gere. Podem existir elementos transversais, ainda assim, acabam por nos mostrar distintos pontos de vista, distintas camadas da luta «para fazer parte de uma sociedade que as ignora».
É, portanto, na diversidade que as narrativas florescem e nos implicam, confrontando-nos com comportamentos inadequados, que se escudam na ausência de maldade, mas que não deixam de ser parte do problema: a intenção pode não ser diminuir, subjugar, só que o resultado contribui precisamente para cimentar a sensação de isolamento, de exclusão. No final, talvez não sejamos capazes de calçar estes sapatos, mas creio que ficamos um pouco mais conscientes de como podemos agir para ir quebrando o ciclo.
Outro aspeto valioso desta série, para mim, é a representatividade, sobretudo, porque nos mostra que, se lutarmos pela igualdade de oportunidades, tornamos o mundo num lugar mais justo; porque, se formos mais empáticos na forma como tratamos o outro e não fecharmos portas por causa da sua cor de pele (ou de outro fator diferenciador), há patamares que se tornam acessíveis e não só uma miragem para muitos que querem lá chegar. Neste manifesto cultural, o tom é claro: tirar o filtro da invisibilidade, destacar os preconceitos tão enraizados e combater a segregação de dentro para fora dos ecrãs.
Com humor e crueza, levantando questões sociopolíticas, emocionais e de ética, Novas Narrativas de Caça é plural até nos géneros que explora, proporcionando uma boa dose de entretenimento, mas sem perder a sua componente reflexiva e de «literacia cívica».
episódio um: moamba
Leandro conhece os pais da namorada branca pela primeira vez, o que protagoniza um momento confrangedor, «fruto de comentários e mal entendidos». Apesar de ter raízes africanas, o protagonista é português e este cenário remete-nos, de imediato, para algo recorrente: a nacionalidade ser questionada devido à cor de pele. Em simultâneo, paira uma discussão pertinente sobre herança cultural, gastronomia, tradições e escravidão, sem que exista violência no diálogo ou no tratamento. Aliás, acho que a maior valência do episódio reside na não violência, no facto de a simpatia das personagens camuflar o quanto certas observações não deixam de ser manifestações racistas. A maneira como o humor é utilizado nestas cenas evidencia, por um lado, a cegueira do que tentamos justificar como curiosidade e, por outro, a necessidade de diminuir o desconforto, de o desvalorizar, porque, deste modo, talvez cause menos cicatrizes e danos emocionais.
episódio dois: recursos humanos
A irmã de Taís, Maya, desapareceu misteriosamente, há cinco anos. As perguntas sem resposta não atenuam a angústia e, a tentar descobrir alguma pista que explique o que aconteceu, Taís acaba por conseguir emprego no mesmo local onde Maya trabalhou. A energia daquele lugar não lhe inspira confiança, não só pelas interações forçadas, mas também por uma questão que fica a ecoar: a rotatividade dos funcionários negros, sem que exista justificação. Este segundo episódio, confesso, foi o que mais me perturbou, porque é impressionante a discriminação laboral, o peso do silêncio, o que se cala por medo. Além disso, choca pela consciência de que «a carne mais barata do mercado é a carne negra», como eternizou Elza Soares, não restando qualquer dúvida sobre o quão pouco mudaram certas práticas com o tempo. Ainda assim, também é o meu favorito.
episódio três: once you go black
As palavras pesam e, neste caso, uma expressão aclamada como elogio, que mais não é do que a propagação de um estereótipo, foi o ponto final de uma relação interracial. A história de Salomé serve de mote para debatermos se é possível «desejarmos e sermos desejados despojados de construção social», convidando-nos a mergulhar mais fundo, porque isso traz, também, um olhar crítico sobre fetichização e intimidade. Ao ter um encontro inesperado com alguém do passado, a protagonista embarca numa conversa «intelectual sobre existencialismo, amor e raça», o que nos ajuda a ter noção de todas as vezes em que parece ter de se justificar, quase pedir licença para existir. Há, aqui, um retrato de vulnerabilidade muito bem construído e que nos tira o tapete no final.
episódio quatro: limbo
Nuno é filho de cabo-verdianos, mas teve um educação portuguesa. A atravessar as oscilações da adolescência, há uma fragilidade identitária que parece ocupar os seus pensamentos, sentindo-se um pouco perdido. É quando marca presença numa festa que, pela primeira vez, a sua cor de pele lhe pesa tanto. Achei mesmo interessante a interação entre Nuno e Artur, pela honestidade, pela credibilidade e por representar uma rede de apoio nem sempre visível. E, depois, impressionou-me a fragilidade da alegria, a facilidade com que os acontecimentos escalam e a violência assume todo o protagonismo. Com uma crítica evidente ao abuso de poder e às narrativas que não controlamos, porque alguém o decidiu, é impossível não questionar a quantidade de casos semelhantes ao que é retratado e o sentimento de impotência que nos reveste.
episódio cinco: sobrevivente
Portugal mergulha numa guerra civil e a «elite conhecida como Os Vanguardas cria a Nova Capital, um território seguro longe do conflito». Os olhares focam-se em Shakali, uma ex-militar da Nova Capital, que foi violada por um Vanguarda e engravida. Perante este cenário de horror, torna-se imperativo lutar pela sua sobrevivência e essa luta é, sem margem para dúvida, um profundo «ato de resistência». O que mais me fascinou neste episódio foi o vínculo que um inimigo comum pode desencadear, pesando em diferentes momentos, e o facto de termos uma mulher a mudar o curso da revolução — o brilho que isso provocou em quem o menciona é a prova que a representatividade influencia a maneira como nos vemos e como acreditamos nas nossas capacidades.
episódio seis: undeu
Isaac é acusado de roubar o supermercado onde trabalha, por isso, sem algo a perder, agride o patrão. Entretanto, a namorada conta-lhe que está grávida e este escalar de acontecimentos precipita o desespero, a sensação de ficar sem rumo e de assistir, na fila da frente, à morte de um sonho. As nossas escolhas têm consequências e, mais do que isso, vêm sempre de um lugar, mesmo que não o identifiquemos logo. Ao longo do episódio, vai ficando claro que os fantasmas do passado se transformaram em revolta e que são um gatilho silencioso para várias atitudes. Naturalmente, isso não pode ser justificação para tudo, mas ajuda a contextualizar, a perceber que existem situações pendentes. Neste episódio, as personagens tentam construir um futuro diferente, mas torna-se angustiante constatar que as barreiras sociais podem ser um muro gigante.
episódio sete: codé
Cíntia decide voltar sozinha para a Guiné-Bissau, ainda que o seu desejo fosse levar o pai consigo. No entanto, ele é peremptório a recusar, o que a entristece, talvez por não compreender a resistência de Augusto. Enquanto ela sente necessidade de conhecer as suas raízes, o pai parece não querer voltar a um lugar que já não é aquele que, um dia, teve de deixar para trás. É neste limbo entre o passado e o presente, entre a herança e a memória, que a protagonista deambula e se descobre. A comoção por encontrar a sua família e um pedaço da sua história torna-se um impulso para estar mais em paz com o seu lugar no mundo, como se estivesse a encaixar as peças de um puzzle. Por um lado, gostava que Augusto tivesse ido com a filha e redescobrisse a sua terra natal, porque sinto que isso o ajudaria a sarar algumas feridas, mas, por outro lado, acho que ela precisava de ir sozinha e trilhar esse caminho sem interferências. A par de Recursos Humanos, este episódio tornou-se um dos favoritos, porque é humano e comovente.
[biblioteca sonora]
Não Mandas em Mim: Diogo Batáguas e Manuel Cardoso
A energia caótica do Diogo Batáguas e do Manuel Cardoso não está escrita, mas, se me permitem, é muito necessária, porque ajudam a relativizar várias questões e não só pelo facto de serem ambos humoristas. Creio, inclusive, que é pela forma como veem o mundo e como, sem darem as coisas por garantidas, não se levam demasiado a sério. Por mais que discordem em quase tudo, foi excelente fazer esta viagem por aquilo que os consome e os liberta, porque tivemos direito a ouvir muitas peripécias entre eles.
[bilheteira]
A Gorda
O monólogo interpretado por Maria Rueff pode ser visto, esta semana, nos dias 15 (hoje), 16 (terça-feira) e 17 (quarta-feira) de junho, no Teatro Maria Matos. Todas as sessões estão marcadas para as 21h e os bilhetes têm o custo de 23,62€.
Dar Letra à Música
Ricardo Ribeiro «é o convidado no regresso das noites de conversa, canções e boa disposição» ao Auditório Fernando Sardoeira Pinto, no Museu Futebol Clube do Porto. A iniciativa está marcada para dia 17 de junho, às 21h30, e os bilhetes têm o custo de 13,50€.
Miguel Marôco apresenta Desgraça
O artista atua no dia 18 de junho (quinta-feira), no B.Leza, às 21h30. Bilhetes a 12,89€.
Maia Fest Outdoor 2026
A Câmara Municipal da Maia realiza, pelo terceiro ano consecutivo, «um festival que celebra a música contemporânea», ao ar livre e de acesso gratuito. No dia 19 de junho (sexta-feira), atuam os NAPA e os Amália Hoje; no dia 20 de junho (sábado), atuam David Bruno e Slow J. Os concertos ocorrem no Parque da Cidade Desportiva da Maia e começam às 21h, em ambas as datas.
Concerto Homem em Catarse
O artista atua dia 20 de junho, às 21h30, na Casa da Cultura César Oliveira (Coimbra). Os bilhetes têm o custo de 5,37€.
Solstício - Festival de Verão
Pelo segundo ano consecutivo, no Parque da Cidade Desportiva da Maia, acontece o Solstício, uma iniciativa que pretende assinalar «o dia mais longo do ano e a chegada do verão». No dia 21 de junho (domingo), atua S. Pedro e, logo de seguida, Os Quatro e Meia. O evento é de acesso gratuito e começa às 21h.
☕ Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«Sabes que a situação complica quando eu subo
Quando decido entrar no teu mundo
A situação complica quando eu surjo
Não quis estragar o teu mood»[in Não Confundas, Van Zee]
![Portugalid[Arte]](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hFQh!,w_40,h_40,c_fill,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa31a334b-a9fb-4cd6-b8cc-4802dfd6b8d8_500x500.png)



