Portugalid[Arte] #147
uma viagem com Afonso Cruz, a banda sonora da semana, três videoclipes, um poema, um episódio de podcast, Martim Sousa Tavares, sugestões culturais e o Era Uma Vez do mês
[estante cápsula]
A Cozinheira do Ditador, Afonso Cruz
Os meus dotes culinários não são propriamente dignos de nota, o que não invalida que as memórias mais bonitas envolvam comida e mesas redondas. Aliás, cá em casa, é um hábito recorrente mencionarmos os nossos pelas iguarias que eram/são quase imagem de marca: a minha avó materna e o seu arroz de tamboril (sem calda, por minha causa), o meu tio e as suas rabanadas de vinho, pelo Natal, e o meu pai e o seu arroz de forno. A forma como a comida nos agrega e estreita laços é poética e, até, uma manifestação de liberdade. Por isso, quando percebi que o mais recente livro de Afonso Cruz estaria a orbitar por este universo, trazendo sempre uma visão particular, fiquei entusiasmada.
Gatilhos: Linguagem Gráfica e Explícita
A Cozinheira do Ditador é uma receita que se prepara com astúcia, com atenção a todos os detalhes, porque uma pitada a mais ou a menos pode alterar um sabor que se espera no ponto. Nesta história, que vai apurando os nossos sentidos, a personagem feminina «tem lábios finos, olhos de águia e nariz adunco» e a masculina tem «lábios carnudos, olhos meigos e nariz pequeno». Dito assim, talvez fosse imediato o julgamento acerca da personalidade de cada um, talvez fosse fácil iludirmo-nos, mas, tal como um prato que saboreamos devagar, para descobrirmos cada condimento, vamos percebendo que as aparências enganam e que existem segredos obscuros por «entre tachos e panelas».
A tradição de partilharmos refeições em família — de sangue e de coração — serve de pano de fundo a este «tratado de culinária e da arte de bem comer», uma vez que existe algo a ser preparado com perversidade, enquanto refletimos sobre questões sociais e políticas; enquanto compreendemos que nenhum pormenor é introduzido ao acaso — seja pelas ações das personagens, seja por determinados episódios. Logo, existe uma série de referências históricas e humanas que identificamos e que nos comprovam que a literatura é, por um lado, uma ponte para decifrarmos o mundo que habitamos e, por outro, é um alerta para os acontecimentos que se podem repetir, condicionando-nos.
O traço camaleónico de Afonso Cruz é uma das características que mais me fascina na sua escrita, porque faz com que a sua arte se ramifique e nos guie por camadas menos óbvias. Neste livro, que oscila entre um tom mordaz e cómico, sinto que é impossível não nos identificarmos com a protagonista, não sentirmos as suas dores e a vontade de querer fazer justiça pelas próprias mãos. Isto porque, sem revelar em demasia, vive em condições que não a dignificam. Portanto, nesta situação extrema, há uma revolução a acontecer por dentro, mostrando-nos uma vingança que é literária, fria e metafórica.
Quis avançar no enredo sem pressas, porém, a minha missão não foi bem conseguida, já que fui inebriada pela voz da cozinheira. A maneira como orquestrou o seu plano, envolvendo-nos em cada etapa do processo, nas escolhas, nas alternativas, na ocasião mais indicada para concretizar a jogada final, deixou-me com a sensação de estar ao seu lado, a sentir na pele a angústia, o desconforto, o medo e o impacto deste jogo de poder doentio, quase absurdo. Através da sua lucidez, somos transportados para um mundo cada vez menos distópico, com regras assustadoras e valores questionáveis.
O humor negro do autor acaba por tornar a viagem um pouco mais suportável, ainda assim, quando paramos para refletir sobre tudo o que acontece nestas páginas, há algo que nos inquieta, sobretudo, por ser evidente a necessidade de sobreviver a um regime autoritário, a um ditador que, sem ter nome, conseguimos associar a rostos que tanto reconhecemos do passado, como vemos em imagens televisivas, no presente. Ademais, creio que a própria estrutura acrescenta alguma leveza a temas pesados, até porque os capítulos são sempre antecedidos por um detalhe que achei extraordinário, mostrando que a ironia é altamente recomendada para ser servida como se fosse o prato principal.
A Cozinheira do Ditador, embora tenha episódios caricatos, é credível o suficiente para não colocarmos em causa as motivações que norteiam aqueles que se querem libertar de cenários opressores e para termos sempre presente o lado humano das situações. É surpreendente como Afonso Cruz nos leva a descobrir tantos mundos dentro das suas narrativas, onde nada é uma só coisa — as entrelinhas florescem de teses. Com a dose certa de sarcasmo e estranheza, acedemos aos distintos tipos de ditadura e à maneira como cada um deles molda a nossa identidade, incitando-nos a lutar para (sobre)viver.
🎧 Banda Sonora: O Circo dos Fachos, GAC - Vozes na Luta | La Llorona, Carmen Goett
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Onde Andas, Capital da Bulgária | Enfeitiçado e Cartas na Mesa, Van Zee | O Amor Existe, Nena | Ora, Agir | Love Me Now, Richie Campbell & Chronic Law | Uma Vida a Menos, Ana Lua Caiano | Azeitona, Peculiar | Bonaparte, Luís Braz Teixeira | cola em mim, Valle | Anjo, Inês Monstro | Amar de Novo, Rita Santos | Mira, Alley.
Os álbuns e o EP: Quer Sequeira Quer Não, Luís Sequeira | Linguagem, Guga | unsent from london, Pipa | Será Que Lhe Descobres a Poesia?, Teresinha Landeiro | Relatos de Um Coração Confuso, Marisa Liz | De Corpo Inteiro, Matilda | Lusa: Ato II, Bárbara Bandeira.
[caixa mágica]
Três videoclipes
As sextas-feiras vêm à boleia de música nova e não é segredo o quanto adoro quando se fazem acompanhar pelos respetivos vídeos. Esta semana, partilho três convosco.
O meu favorito é, sem qualquer dúvida, o vídeo da Cartas na Mesa. Que belo regresso!
[gavetas]
Tinha acabado de passar uns poemas para o computador, quando entrei no instagram e vi uma partilha d’ O Poema Ensina a Cair. Curiosamente, as temáticas até se cruzam e dei por mim comovida com a beleza e sensibilidade deste poema da Maria do Rosário Pedreira, por esse motivo, não resisti a incluí-lo aqui. A poesia é um mundo poderoso.
[biblioteca sonora]
Recomendação para a semana
A Sónia Balacó esteve no Dona da Casa, por isso, fui acrescentar mais este episódio à lista de espera. Graças a um excerto que vi, a conversa pareceu-me promissora.
[cartaz]
Ponto de Fuga, Martim Sousa Tavares
Os últimos raios de sol cobriam a Casa da Música e, enquanto me deslocava para lá, a contemplar aquele horizonte, fui caminhando a pensar em quantos ângulos se divide — ou multiplica, dependendo da perspetiva — a nossa rotina; em quantos detalhes se evidenciam e quantos permanecem na sombra, como se a nossa vida fosse sempre este jogo de contrastes, de luz e de escuridão, e nós ajustássemos a lente de acordo com o momento, com o que nos parece mais urgente unir. E deixei-me só ficar neste espaço.
Um ponto de fuga cria uma noção de tridimensionalidade, de profundidade, onde há a certeza de uma interseção. Não sabemos em que lugar específico, porque não a vemos, supomos, no entanto, compreendemos que é esse o fim, que as nossas associações se cruzam, ainda que aparentem ser improváveis. Aquilo de que não estava à espera era de entrar na Sala Suggia e ficar completamente comovida com o Ponto de Fuga que o Martim Sousa Tavares concebeu e apresentou — com participação de João Barradas.
Admito que talvez não esteja a ser precisa o suficiente, porque, sendo honesta, espero sempre ficar espantada e sem palavras com as criações do Martim, uma vez que é um contador de histórias excelente, capaz de nos fazer viajar até às profundezas da nossa alma, dos nossos pensamentos, mas como não sabia o que esperar deste espetáculo, e decidi não procurar informações, tentei calibrar as expectativas para ser surpreendida, para sentir que cada instante tinha a capacidade de me levar para lugares recônditos.
Durante cinco atos, acho que o meu coração falhou algumas batidas, visto que o texto tocou em feridas que sei que nunca fecharão totalmente. Regresso com frequência ao quanto as memórias de quem não conhecemos nos moldam e creio que, ao longo dos anos, tenho feito as pazes com essa imagem, se calhar, por ter compreendido a beleza de olhar para cada uma delas não com o filtro da nostalgia, ficando refém do passado, mas com a génese certa da saudade: a que nos relembra que existiu um momento em que aquela(s) pessoa(s) fez(fizeram) parte da nossa vida, ainda que não nos lembremos, ainda que essa memória seja herdada. Eu sou todas essas pessoas que me chegam pelo olhar de terceiros, mas também sou o espaço entre elas e o que desconheço do futuro.
Este pensamento acompanhou-me enquanto decorria o espetáculo, atendendo a que é impressionante a quantidade de pormenores que abrem essa porta. Através de uma canção, de um filme, de um quadro, de versos específicos de um poema, conseguimos mergulhar dentro de nós e voltar àquela pessoa, àquela lembrança, àquele lugar. Isto talvez seja uma espécie de educação da tristeza, socorrendo-me de Valter Hugo Mãe, porque a dor começa a dar margem para que o foco se redirecione e nos seja luminoso. E, portanto, independentemente da rota, sabemos que estes fios invisíveis nos bordam.
Martim Sousa Tavares partiu das suas vivências, deu-nos a mão e levou-nos a visitar paragens especiais. Quando me sentei para escrever este texto, tentando traduzir por palavras o turbilhão de emoções que grita cá dentro, estava consciente da dificuldade, porque nenhuma faria justiça a tudo o que nos fez sentir, à sensibilidade, ao ritmo, à naturalidade com que transitou entre temas e, claro, ao humor sempre tão presente. É que houve ocasiões de comoção, mas também me ri com a sua faceta de comediante.
A beleza é o fio condutor e é fabuloso ver as suas ramificações, a sua subjetividade, o impacto que tem olhar para a vida através desse prisma, porque enriquece o caminho. Sinto que estive inteira no espetáculo, e há partes que se manterão muito próximas, no entanto, adorava que estivesse gravado e pudesse vê-lo mais tarde, para ir às camadas que não fui capaz de alcançar no momento; ou, então, que o texto ficasse eternizado num guião, para reler, sublinhar e ficar com uma memória visual desta experiência.
Num breve e inconfidente apontamento, tenho estado a escrever poemas a partir de um tema comum, porque senti necessidade de o exteriorizar e ressignificar. A ideia nasceu mais ou menos após ter partilhado este texto, porque acredito que a arte nos vai curando as feridas, já que dá voz a fragmentos que nem sempre somos capazes de racionalizar. E se o Educação da Tristeza e a Foguetes têm sido aliados nesse processo, o Ponto de Fuga veio completar a tríade e atribuir um novo fôlego àquela que creio ser a parte final do que tenho estado a escrever. É comovente como a arte nos inspira tanto e como nos relembra que existem sempre outras formas de percorrermos o caminho.
Ponto de Fuga embala-nos na sua liberdade, no seu tom cómico, emocional e grato. Foi um privilégio ocupar uma das cadeiras do coração da Casa da Música e assistir a este espetáculo que continuará a ecoar em mim. De facto, «não há vida sem histórias», por isso, estarei sempre disponível para escutar todas as que o Martim tiver para contar.
[bilheteira]
Lei da Paridade
Adriana, Leonor e Maria voltam aos palcos, hoje (segunda-feira), às 21h. O espetáculo acontece no Teatro Tivoli BBVA e os bilhetes variam entre os 13,42€ e os 19,33€.
Graças a Neno
Sérgio Fernandes — ou Pastor Serjão — atua nos dias 25 e 26 (terça-feira) de maio, às 21h, no Teatro Sá da Bandeira. Os bilhetes variam entre os 13€ e os 21€.
Arraial
Vítor Sá atua no dia 27 de maio (quarta-feira), às 21h, no Teatro Tivoli BBVA. Os bilhetes variam entre os 13,42€ e os 24,16€.
Leitura Integral de Penhasco
A autora Maria Brás Ferreira faz a leitura integral de Penhasco, dia 28 de maio (quinta-feira), às 18h30, na Livraria Térmita (Porto).
Elisa & Tiago Nogueira
Os artistas sobem ao palco do Teatro Municipal Baltazar Dias (Funchal), às 20h, no dia 29 de maio (sexta-feira). Os bilhetes têm o custo de 11,81€.
Concerto Rita Guerra
A artista atua na Casa de Artes e Cultura do Tejo (Castelo Branco), no dia 30 de maio (sábado), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 10,74€.
Em Sonhos, é Sabido, Não se Morre
O xtinto apresenta o seu mais recente álbum no Auditório CCOP (Porto), no dia 30 de maio, às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 15€.
[era uma vez: capítulo sete, em 2022]
A literatura «é a maneira mais agradável de ignorar a vida», já afirmava o heterónimo Bernardo Soares. Por esse motivo, e na tentativa de recuperar a celebração do Dia do Autor Português, a mergulhar entre histórias, proponho analisarmos o capítulo sete.
capítulo sete
A proposta é bastante simples: ir às estantes e selecionar livros de autores portugueses que admiremos e/ou que nos inspirem. Depois, abri-los, como o nome permite antever, no capítulo sete e transcrever frases que nos marcaram, emocionaram, fizerem refletir ou sonhar, em cada um deles, independentemente das motivações que estejam na base.
Em 2022, após deambular o olhar pelas prateleiras coloridas, escolhi as seguintes.






epílogo
A história termina, mas, quando se cola à nossa pele e nos transforma por dentro, há sempre o desejo de ver aparecer um capítulo extra, só para que adiemos a despedida. É por isso que procuro acrescentar um complemento às minhas iniciativas literárias: assim posso prolongar a conversa sobre livros um pouco mais e recordar mais títulos.
Um livro que dava pouco por ele, mas que me surpreendeu: O Vermelho e o Verde, José Jorge Letria;
Um livro que recomendo sempre a toda a gente: Filho da Mãe, Hugo Gonçalves;
Um livro onde gostava de viver durante 24 horas: Balada Para Sophie, Filipe Melo & Juan Cavia;
Um livro para ler perto do mar: Vem à Quinta-Feira, Filipa Leal;
Um livro com personagens marcantes: O Momento em Que nos Perdemos, Maria José Núncio;
Um livro para uma tarde de outono: Debaixo do Mesmo Céu, Nuno Camarneiro;
Um livro que podia virar filme/série: Pardalita, Joana Estrela.
☕ Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«não importa o que digas se tu não fazes (…) já mudei a chave com que abriste a minha porta/ ‘tão guarda-a pa’ te lembrares que o que vai não volta»
[in Não Dá, MUN]
![Portugalid[Arte]](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hFQh!,w_40,h_40,c_fill,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa31a334b-a9fb-4cd6-b8cc-4802dfd6b8d8_500x500.png)




