Portugalid[Arte] #146
uma viagem com Margarida Vaqueiro Lopes, a banda sonora da semana, Manel Rosa, Mário Cotrim e Rui Unas, xtinto no Brilhantes Diamantes e sugestões culturais
[estante cápsula]
Marcas Que Fazem Portugal, Margarida Vaqueiro Lopes
As memórias de infância parecem aflorar com referências concretas. Neste caso, ao ler o nome do jogo que fomentou um certo lado competitivo entre amigos, o STOP. Aliás, com o papel à frente, foram horas a enumerar palavras que encaixassem em categorias fixas, sendo uma delas as marcas. E é curioso como temos algumas na ponta da língua.
Quando existe uma espécie de nuvem a pairar, costumo dizer que «estou um caquinho, mas não é Vista Alegre». Embora não compre os seus artigos, é inegável que o nome da fábrica de porcelana não me é indiferente, quase como se me tivesse sido passado num legado geracional. Fascina-me, portanto, a transversalidade, a durabilidade e a aptidão para, no meio de mercados com tanta concorrência, sobressaírem ao ponto de terem a sua designação a sobrepor-se às peças que vendem — acabamos por reduzi-las (sem as diminuirmos) ao nome da marca. Assim, quis ir ler o retrato que a Margarida Vaqueiro Lopes escreveu para a Fundação Francisco Marques dos Santos e saber mais do tema.
Marcas Que Fazem Portugal foca-se no «que de melhor se faz em Portugal», até porque é «um exercício muito mais fácil do que pode parecer». Além do mais, enquanto um dos países que, nas últimas duas décadas, teve um avultado número de pedidos de registos de marcas, nota-se que esse investimento conta uma história que ultrapassa a vertente do negócio. E, neste livro, pretende-se traçar a referência em que se transformaram.
Sinto que o mais entusiasmante destes retratos é a possibilidade de conhecermos as marcas para além do sucesso, da formalidade, das questões burocráticas que também influenciam o processo, visto que nos mostram as pessoas, os valores, os desafios e a identidade que as sustentam. No fundo, colocam em evidência o lado humano que as faz funcionar, resistir e reinventar o propósito, adaptando-se à passagem do tempo e às próprias exigências/necessidades do mercado e dos seus públicos-alvo. Nasceram e cimentaram os seus alicerces e, agora, têm o nome bem entrelaçado na história global.
Outro aspeto interessante desta obra prende-se com a diversidade: conforme a autora mencionou na introdução, procurou abranger diferentes setores, o que me parece uma estratégia excelente, porque assim conseguimos ter uma noção mais ampla e perceber o impacto em realidades distintas. Após abordar o conceito de marca e a componente publicitária, agrega essa contextualização a um traço emocional, já que as marcas são, também elas, uma maneira de nos posicionarmos, de mostrarmos, até, quem somos.
Marcas Que Fazem Portugal é uma porta aberta, no entanto, não nos conta tudo. É certo nem todos os nomes aqui referenciados me suscitaram o mesmo interesse, mas gostei de ter acesso a estas histórias, sobretudo, porque sinto que permitem elevar o diálogo a outros debates: por um lado, desmistificando a tendência muito portuguesa de não valorizarmos devidamente o que é nacional, quando há tanto talento cá dentro, e, por outro, servindo de alerta para quem se quiser aventurar a criar os seus negócios — o objetivo não é desmotivar, muito menos demover, apenas deixa claro as várias fases.
🎧 Banda Sonora: Uma Casa Portuguesa, Amália Rodrigues | Corolla, João Couto
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Maré Cheia, Marta Lima | Segura Firme, Filipe Karlsson & Mike El Nite | Dá-me a Mão, Mia Benita & Murta | Aprender, Gonçalo Gomes & Kika | Como Tu, Guga | Jammim’, Mundo Secreto | Mãe, Margarida Vasconcelos | Olinda, Tatanka & Bateu Matou | Pretend, Carl Karlsson | Um Só Final, Margarida Campelo | Dança Comigo na Ilusão, Afonso Cabral | Suave, Tito & Trista | antes de mais, Malva & Beatriz Madruga | Dias Raros, oputovitor.
Os álbuns: Transparente, Velhote do Carmo | LSD, ProfJam | ID, Nenny | Vendavais, Picas | Hormonal, Bárbara Tinoco | Já Não Posso Ficar Aqui, Trêsporcento.
[caixa mágica]
Manel Rosa: Masculinidade Frágil
A cozinha pode não ser o forte do Manel Rosa, contudo, bordou muito bem este set de stand-up. Já andava curiosa com a comédia dele e aproveitei que disponibilizou o vídeo para a satisfazer, e a verdade é que me deixou com vontade de ver algo mais extenso.
Mário Cotrim e Rui Unas
A nota de esclarecimento que o Rui Unas faz no início do vídeo espelha algo que me é próximo, uma vez que também não sou a maior consumidora da obra do ProfJam. Vou ouvindo temas esporádicos, sem a lealdade que vinculei a outros artistas, mas com um Sozinho que me cativou ao primeiro acorde e que me predispôs a descobrir o seu novo álbum novo, LSD, sinto que desbloqueei uma vontade de estar atenta ao seu percurso.
Nesta conversa, tenho plena consciência de que estive longe de vários pensamentos e crenças que o Prof partilhou e pelos quais se rege, porque temos visões diferentes. No entanto, fascinou-me a sua eloquência, a capacidade de, sem qualquer receio, expor a falha. Podemos não estar no mesmo comprimento de onda em relação a determinados temas, mas é tão honesto no discurso que ouviria mais tempo, porque existe margem para o debate e porque é importante contactarmos com perspetivas diferentes. Se há respeito na comunicação, se o outro não tenta impor a sua verdade, isso acaba sempre por nos acrescentar. No final do dia, podemos continuar a divergir, mas sabemos que o mundo é feito de todas estas extremidades e que é possível coabitarem em harmonia.
Além disso, achei particularmente interessante que esta troca, embora motivada pelo álbum novo, abrisse portas ao passado e a camadas menos óbvias, por isso é que houve espaço para desconstruir o limbo entre o artista e a pessoa por trás desse artista, todas as influências que recebemos do que nos rodeiam, a relação com Deus, a presença nas redes sociais e o consumo de drogas. Neste último ponto, acredito que potenciou uma discussão muito relevante sobre os malefícios evidentes e o dilema que cresce quando se consome e isso aparenta trazer um lado positivo à arte. Como é que aquilo pode ser mau, se ajuda a criar? Fazer essa análise permite entender o que se perde no processo.
Estou curiosa para compreender como é que LSD cruza estes mundos do ProfJam.
Brilhantes Diamantes: xtinto
A noite foi caindo em Lisboa, acompanhando uma conversa entre a Beatriz Freitas e o xtinto, neste episódio que marca o retorno do artista de Ourém ao Brilhantes Diamantes.
Numa viagem pelas músicas do novo álbum — Em sonhos, é sabido, não se morre —, deu para aprofundar um pouco mais o significado das mesmas (sem revelar em demasia) e de as entrelaçar a trabalhos anteriores, traçando uma espécie de arco evolutivo, já que as metamorfoses do seu percurso são evidentes, mantendo o nó firme da caneta afiada.
Gostei muito do escalar desta partilha, porque deu para recordar histórias de estrada, analisar sonhos, falar sobre choro, gastronomia e casas de fado. E se a conversa ainda vai recuperar referências a apanhados portugueses não tem com falhar. Brincadeiras à parte, a conversa fluiu com naturalidade e descontração e, embora existissem questões estruturadas, criando um fio condutor, em nenhum momento soou a entrevista. Aliás, sinto que facilmente poderia acontecer fora das câmaras e essa proximidade é incrível.
Queria perguntar-vos se têm um segundo para ouvir palavra de xtinto, mas precisarão de um pouco mais de tempo, já que a conversa passa das duas horas. Apesar disso, vão à confiança, mesmo que seja suspeita, porque vale a pena ouvir o que tem para contar e navegar entre diversão, vulnerabilidade, possíveis colaborações para o futuro (há um nome que me deixou entusiasmada, tenho de confessar), medos e processos de escrita.
[bilheteira]
Gentil
António Azevedo Coutinho atua, hoje (18 de maio), no Teatro Maria Matos, às 21h. Os bilhetes variam entre os 16€ e os 21€.
Podia Ter Esperado Por Agosto
O filme é exibido dia 19 de maio (terça-feira), no Centro Cultural de Carregal do Sal, às 16h. O bilhete tem o custo de 2,15€.
Agora Noutro Lugar
Tiago Castro sobe ao palco do Teatro Cinema de Fafe, dia 22 de maio (sexta-feira), às 21h30. Os bilhetes variam entre os 4€ e os 8,10€.
Já Não Posso Ficar Aqui
Os Trêsporcento apresentam o seu quarto álbum de originais dia 23 de maio (sábado), na Sala 2 do República da Música (Lisboa), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 17,18€.
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«Mas agora não preciso de aceitar,
se sinto que é fora já nem saio do lugar
estou capaz de ir a
todos os sítios que me prometi
quando a minha maior fraqueza
era deixar-me ficar por ti»[in Amanheça, Rita Vian]
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