Portugalid[Arte] #140
uma viagem com Patrícia Reis, Matilde Campilho, a banda sonora da semana, Papillon, Lhast, dois episódios de podcast para ouvir e sugestões culturais
[estante cápsula]
A Desobediente, Patrícia Reis
A figura de Maria Teresa Horta é incontornável. Primeiro, conheci-a através do olhar de terceiros e das lutas que a moviam — e das quais, enquanto mulher, eu acabava por beneficiar — e não tanto pela sua obra. Isso fi-lo depois, fascinada pela possibilidade que as suas palavras pareciam acolher. Mas parti nessa missão de um modo comedido, porque ainda acalento a esperança de ver a sua poesia compilada num único exemplar.
Não tenho o hábito de ler biografias, no entanto, prefiro lê-las com um pouco mais de conhecimento acerca dos livros do respetivo autor antes de mergulhar na sua vida, nos traços de personalidade que podem não ser tão evidentes. Só que, neste caso, senti que não seria possível adiar mais e o livro da Patrícia Reis veio comigo da última edição da Feira do Livro do Porto, com o propósito de o deixar para março: tendo em conta tudo o que se celebra este mês, pareceu-me adequado — mas abril também assentaria bem.
A Desobediente, mais do que construir um retrato sobre Maria Teresa Horta, permite-nos conhecer Teresinha, filha de um prestigiado médico de Lisboa e de uma mulher «descendente dos marqueses de Alorna». E esta referência é importante, porque fica claro que a infância e a adolescência da poetisa são peças centrais da sua história, «à beira do abismo», marcada pelas cicatrizes da dor e do abandono. Assim, avancei na leitura consciente de que essas duas partes seriam as mais desenvolvidas: por um lado, achei interessante, já que permitem compreender os ideais que começou a cimentar desde muito nova, mas, por outro, fiquei com uma sensação agridoce, uma vez que gostava de ter acesso a uma abordagem mais sólida da idade adulta e de determinados acontecimentos — pessoais, sociais e profissionais — que se revelaram formadores.
A menina que encontrou nas palavras uma forma de se expressar, de se encontrar, de fazer prevalecer as suas lutas floresceu, ainda que tivesse havido alturas em que não podia fazer mais do que sobreviver. Porém, um aspeto que achei fascinante é que em nenhum momento se tornou amarga. Talvez tenha perdido a esperança, talvez tenha olhado em frente com dúvidas e hesitações, como todos nós, em alguma ocasião, mas há uma inocência e uma generosidade que parecem ter quebrado a inevitabilidade de um coração pouco disponível. Quis abraçar Maria Teresa Horta em várias passagens destas conversas, porque foi demasiado sofrimento para uma pessoa só, mas também sorri pela força com que defendeu cada uma das suas decisões, pela capacidade de se manter fiel aos seus princípios, apesar dos dissabores que isso lhe possa ter trazido.
É neste ritmo oscilante, por vezes frenético, de uma vida tão cheia de acontecimentos, de convívios, de interações com pessoas do meio literário e político, que vemos a sua voz ativista cada vez mais audível, rejeitando qualquer tipo de submissão. Deste modo, em simultâneo, é impressionante como a história desta mulher agrega a vida de tantos de nós e, acima de tudo, permite traçar um retrato esclarecedor do que se passava em Portugal, sobretudo no que diz respeito aos anos da ditadura, às perseguições da PIDE e ao 25 de abril. A sua história não é indissociável do contexto histórico do país, até porque as suas movimentações contribuíram, e muito, para influenciar o seu curso.
Assim, não deixa de ser curioso que alguém com tanta expressão na sociedade tenha ficado, gradualmente, invisível, que os prémios e as menções tenham chegado tarde, que o seu feminismo tenha provocado tanta inquietação e, por isso mesmo, tenham encontrado uma forma subtil de a ir afastando. De facto, a arte — e a arte criada por mulheres — pode ser perigosa para aqueles que nos pretendem calados, a colaborar.
Já me tinham alertado que esta biografia se lia como um romance e acredito que, em parte, isso se deve à intimidade entre a poetisa e Patrícia Reis, porque é uma partilha franca, sem pruídos, onde só acedem aqueles em quem confiamos. Gostei muito deste tom, porque acho que humaniza as vivências, aproximando-nos do seu real impacto. Não obstante, devo confessar que não adorei a maneira como alguns capítulos foram construídos, porque senti que o fio condutor foi quebrado em partes chave, nas quais seria necessário abrandar e explorar melhor a situação, em vez de haver repetições ou um foco em detalhes que não me pareceram relevantes. Se isso interfere com a fluidez da leitura? Não creio, contudo, o texto beneficiaria mais com essa coesão e equilíbrio.
A Desobediente abre-nos a porta para um lugar íntimo, sem que haja, aqui, qualquer tentativa de esmiuçar a sua vida de forma gratuita. Pelo contrário, evidencia toda a dignidade que guiou o percurso de Maria Teresa Horta, a sua arte, as suas causas. E o mais interessante é perceber que, apesar de conhecermos tanto da mulher e da obra, há partes que permanecem ocultas. A poetisa abraçou diferentes facetas, tão únicas e tão complementares, mas talvez a liberdade seja o elo que as interliga a todas, porque a reivindicou sempre, mesmo quando tentaram impedir que a plantasse em todos nós.
🎧 Banda Sonora: Tous Les Garçons et Les Filles, Françoise Hardy | A Solidão da Mulher e Mulheres Guerrilheiras, Tereza Paula Brito
Jóquei, Matilde Campilho
As histórias que permitem caracterizar a nossa pegada literária assumem propósitos e identidades distintos, isto porque podem ser tudo aquilo que pretenderem, desafiando a nossa sensibilidade, como se florescessem em microclimas emocionais. Por isso, fui reler o livro de estreia da Matilde Campilho, para descobrir se o compreendi melhor.
Jóquei, nas palavras de Pedro Mexia, é um álbum de verão, associação que sou capaz de compreender, já que existe um toque quente nas suas palavras: não só pelas temáticas, mas também por nos aproximar da temperatura do Rio de Janeiro, construindo pontes entre Lisboa e o Brasil. Socorrendo-se da transversalidade da língua portuguesa, a sua poesia e prosa (não tão) poética encaminham-nos pelos enigmas e vivências comuns.
Tive alguma dificuldade em relacionar-me com todas as propostas, o que fez com que não fosse completamente arrebatada ao deambular pelos retalhos do quotidiano e pela fugacidade das situações. Confesso que não adorei a inclusão de versos em inglês, nem das partes em prosa, talvez por, neste contexto, não me fazerem assim tanto sentido e não ser capaz de estabelecer uma relação coesa entre elas. Honestamente, acredito que ofuscam os fragmentos que nos podiam comover, sobretudo quando se despe de filtros e pende para o (des)amor, o desnorte, a dúvida, as saudades e as viagens. Além disso, o sujeito poético parece conversar com alguém, sem que nos seja revelada a identidade, mas, ao contrário da primeira leitura, não me senti envolvida nesse diálogo unilateral, no qual era suposto sobressair uma autêntica travessia de vulnerabilidade, intimidade.
Jóquei pretende aproximar-nos de questões nem sempre óbvias, que nos demonstram que até nas ruínas é possível amar, mas estes mundos caleidoscópicos afastaram-me.
🎧 Banda Sonora: Céu da Tua Boca, Icaro | Purple Rain, Prince
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Bon Vivan & Malandrim, Lhast | Bubbaloo, Firgun | Perigo, Gama WNTD & Syro | Espaço Para Nós, André Mousinho & Rita Santos | Incerto, Smile & Raptruista | Tubarão Azul, Apollo G & Plutonio | A Missa a Quem, Prodígio & Slow J.
Os álbuns: Capotar, Francisco Fontes | Dobermann, Ella Nor & Mogno.
[caixa mágica]
Papillon no Imperfeita Repetição
O risco não compensa sempre, no entanto, quando as coisas são feitas com o coração no sítio certo, é provável que se desbloqueiem possibilidades maravilhosas. Embora não acompanhe o percurso do Papillon desde o início, de um modo regular, tem sido fascinante ver a sua evolução enquanto artista — e entre álbuns — e saber que isso culminou num Coliseu dos Recreios esgotado, porque a dedicação acaba a dar frutos.
No Imperfeita Repetição, o Alexandre Guimarães conversou com o Papillon antes e depois dessa noite, creio eu, memorável e o que mais se destacou para mim, além do talento óbvio, foi a falta de deslumbramento, a gratidão agregada às suas palavras, a vontade de desfrutar de cada momento e, apesar disso, sentir que ainda há tanto para explorar. A vontade de o ver ao vivo já era imensa e esta conversa só a aumentou.
Bon Vivan & Malandrim
A semana foi santa, mas o Lhast chegou sem inocência ao lançar duas músicas novas, Bon Vivan e Malandrim: «pensados como duas peças complementares, os dois temas exploram diferentes estados e atmosferas, refletindo contrastes que fazem parte da [sua] identidade artística». Além disso, vieram acompanhados por um videoclipe que evidencia bem essa dualidade na sua forma de criar, interligando passado e presente.
Sei que sou bastante suspeita ao falar do Lhast, mas adoro a sua versatilidade e o facto de nunca sabermos qual é o seu próximo passo. Depois de um Violetta que explora um lado mais intimista, estava curiosa para descobrir a que outros horizontes apontaria e foi interessante perceber que estes dois temas, apesar de terem uma energia própria e independente, conseguem funcionar como uma extensão de projetos anteriores. Aliás, Bon Vivan é azul, enquanto Malandrim é vermelho e essa combinação resulta num tom violeta, o que me deixa com a sensação de que se estas canções tivessem sido incluídas no álbum não destoariam. Depois, pela associação das cores e de partes das melodias, foi impossível não regressar ao AMOR’FATI e ao ALK — e, até, ao EP com o Chaylan.
Já estou a divagar, mas acho mesmo fascinante como consegue cruzar estes contrastes, como é capaz de estabelecer tantas pontes e, no entanto, levar-nos até novas paragens. É o Lhast a elevar a fasquia uma música de cada vez: sorte a nossa por virem aos pares.
[biblioteca sonora]
David Fonseca no A Beleza das Pequenas Coisas
A vida dá voltas curiosas, por isso, passei de não acompanhar o percurso artístico do David Fonseca, para estar atenta aos seus lançamentos musicais e aos programas onde participa, isto porque, de facto, é sempre ótimo escutá-lo. Ainda não consegui ouvir as duas partes da conversa com o Bernardo Mendonça, no entanto, sinto que prometem.
[bilheteira]
Apontar o Dedo
Pedro Sousa e Pedro Correia conduzem um espetáculo de comédia interativo, no qual o público «não é apenas espectador», já que é convidado a participar, reagir, confessar e apontar o dedo «a coisas, pessoas e situações». No dia 7 de abril (terça-feira), atuam no Anexxo, em Sintra, às 21h. Os bilhetes têm o custo de 12€.
Entroncamento
O filme de Pedro Cabeleira é exibido no Centro Cultural Gil Vicente (Santarém), no dia 8 de abril (quarta-feira), às 21h30, e conta com a presença do realizador. O bilhete tem o custo de 4,60€.
Diogo Batáguas
O humorista atua dia 10 de abril (sexta-feira), às 21h30, no Cineteatro Municipal João Mota (Sesimbra). Os bilhetes têm o custo de 5€.
Rita, Põe-te em Guarda
O musical a partir das canções de Sérgio Godinho está de regresso aos palcos: no dia 11 de abril (sábado), há sessão às 17h e sessão às 21h; no dia 12 de abril (domingo), há sessão às 17h. Todos os espetáculos ocorrem no Auditório do Liceu Camões (Lisboa), com os bilhetes a variarem entre os 16€ e os 17,50€.
Cara de Espelho
O grupo atua no dia 11 de abril, às 21h30, na Sala Principal do Teatro Aveirense, para apresentar o seu segundo álbum de estúdio. Os bilhetes têm o custo de 10€.
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«Mas basta olhares por mim a dentro para veres que moro só»
[in Fora d’Horas, xtinto]
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Que maravilha de colectânea. Obrigado, Andreia!