Portugalid[Arte] #135
uma viagem com André Tecedeiro, a banda sonora da semana, Principado, Imperfeita Repetição com xtinto, Porta de Papel, dois episódios de podcast e sugestões culturais
[estante cápsula]
A Axila de Egon Schiele, André Tecedeiro
O livro de André Tecedeiro, cujo título despertou sempre um certo fascínio em mim, veio morar cá para casa sem data para ser descoberto. Contudo, com a última semana de fevereiro a ser um pequeno caos de cansaço, precisei de recuperar energias no meio da poesia e estes versos foram, sem qualquer margem para dúvida, um grande amparo.
A Axila de Egon Schiele remete-nos para um pintor austríaco e para o expressionismo, ao qual está ligado. Esta referência, como se vai percebendo ao longo da obra, não é inocente, até porque o movimento caracteriza-se, em traços gerais, por se focar numa componente subjetiva das emoções, no sentir do artista. Para além de termos poemas que parecem saídos de um quadro — ou que dão vontade de ser emoldurados num —, é notório que o autor mergulha no lado mais humano e mais íntimo das nossas almas.
Como Tecedeiro escreveu, «cada um lê no poema/o poema que traz em si» e este verso talvez seja tudo o que esbate a fronteira entre a leitura e a sensação de nos estarmos a ver ao espelho. Aliás, houve vários momentos em que divaguei para longe, quer por ter representados pensamentos e estados de espírito recorrentes, quer por ter encontrado e revisitado situações cravadas no meu peito — desde a urgência da escrita ao luto. É capaz de ser egocêntrico querer tanto este vínculo entre a palavra escrita e as nossas emoções, mas foi impossível passar por estes poemas sem me sentir neles, sem sentir que são, eles próprios, uma travessia de crescimento, de descoberta, de transformação.
Ao colocar-se a nu nestas linhas que vão muito além do que é visível, cujas entrelinhas trazem tantas camadas desarmantes, incentiva-nos a fazer o mesmo, mas sem que haja desconforto. Aqui, somos todos vulneráveis, observadores, curiosos; aqui, todos temos de aprender a escutar, a cuidar, a lidar com perdas, dificuldades, dúvidas e solidão. Sou capaz de ter mentido ao afirmar que não há desconforto, porque ele existe, no sentido em que o autor imprime em nós parecer crítico, uma necessidade de levantar a cabeça para ver aquilo que nos rodeia. A realidade nem sempre apazigua as nossas dores, nem sempre atenua a culpa e o desencanto, no entanto, entranha-se em cada poro, por isso, reconhecê-la pode quebrar a nossa bolha, impulsionando-nos a sentir. Assim, sem «ter medo de mexer nas zonas que outros evitam», mostra-nos que não há temas interditos.
Nesta obra, que compila seis capítulos, André Tecedeiro brinca com as palavras, fá-las oscilar entre a intimidade e a exposição, entre o corpo e a casa, entre o ir e o ficar (ou entre a fuga e a permanência), entre a desilusão e o querer, mas nem sempre neste laço de contrastes, muitas vezes como se fossem sequências de um mesmo passo, rituais a ocuparem o seu espaço neste palco mundano, onde há sempre algo a florescer. Sinto que o que mais me cativou na escrita do autor, para além da proximidade e do quanto consegue ser visual, foi mesmo o modo cirúrgico com que plantou cada palavra em cada um dos poemas, construindo-os de várias formas, ora breves, ora longas, sempre na medida certa para provocar reações, para retirarmos o que, de facto, precisamos.
Foi, igualmente, bonito perceber que a sua profundidade não larga a mão de uma certa utopia: ainda que consciente das sombras, não perde a oportunidade de se deslumbrar e convida-nos a fazer o mesmo, mas, não nos iludamos, basta um verso para nos puxar o tapete e deixar aquela mensagem a ressoar por tempo indefinido. Além disso, ao dar voz a um corpo que se habita e que se modifica, que se molda, como uma plasticina, às nossas múltiplas identidades, creio que formula um retrato precioso sobre diversidade.
A Axila de Egon Schiele, cujo último capítulo integra uma conversa notável entre André Tecedeiro e Laura Falé, ramifica-se, adapta-se e transforma-se. Sem o querer reduzir, é um livro sobre cuidar, nutrir e ser lar; é sobre ser o que nos veste de dentro para fora.
🎧 Banda Sonora: Nada Dura Para Sempre, Dealema | Praia de Tinto, Mallina | Origami, VSP AST | Pode Alguém Ser Quem Não É?, Sérgio Godinho
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: abelha, Lour | Controlado, Velhote do Carmo | Alta Cultura - A Sós, Jimmy P & Deezy | Pressinhas, Chico da Tina | Dói, Mariana Pereira & Rafaell Dior | Actividade, Kappa Jotta | Palma da Mão, Os Azeitonas | Gandaia, Pedro Mafama & Petty | O Barco, Tatanka | vai e volta, Rita Onofre | Ai Quem Me Dera, Beatriz Pessoa & Femme Falafel | Back Again, Gui Aly | kumbaya, nastyfactor | Futuro, Inês de Vasconcellos & Paulo de Carvalho | Oxalá Cante Com Tempo, Pedro Ricardo & Ana Margarida Prado.
O EP e os álbuns: Juro, Eu Caí, Mallina | 8/80, Rita Rocha | Tempestade, Sara Correia | Um Brinde ao Agora, Mas e Agora? (Deluxe), Nena.
[caixa mágica]
Principado: Uma ideia de António Azevedo Coutinho
A epopeia maior da literatura portuguesa, Os Lusíadas, ainda que impressionante, fica bastante aquém do caminho que estes quatro jovens heróis estão prestes a desbravar.
Não sei se conhecem a história do Principado da Pontinha, porém, em traços gerais, é «uma autoproclamada micronação, localizada numa rocha de 178 metros quadrados, a 70 metros da costa do Funchal, na ilha da Madeira». O dono do Ilhéu, que se intitulou como Príncipe D. Renato Barros II, ao que tudo indica, «foi forçado a deixar o [antigo] Forte São José», porque foi vendido «a emigrantes num processo de falência». Ora, o que é que António Azevedo Coutinho pensou? Obviamente, conquistar o principado.
A missão conta, ainda, com a preciosa contribuição de Bolinha Nunes, Vasco Elvas e Carlos Contente. Juntos, estes quatro cavaleiros aventuram-se por águas nunca antes navegadas (acreditemos), com uma boa dose de insanidade, humor e alguma estupidez. No Primeiro Canto, temos a possibilidade de assistir ao plano, à preparação e, claro, ao início desta travessia. Não sei o que nos reserva o futuro, contudo, estou muito curiosa.
Imperfeita Repetição: xtinto
O xtinto não deixou morrer o seu sonho e, recentemente, lançou Em sonhos, é sabido, não se morre, título inspirado num verso de Sérgio Godinho. A propósito do álbum, foi o mais recente convidado do programa Imperfeita Repetição, no qual conversou com o Alexandre Guimarães e tocou ao vivo Dividir e Nunca Mais, dois temas deste trabalho.
É percetível o quanto Em sonhos, é sabido, não se morre é «profundamente pessoal», mas esta conversa leva-nos para camadas ainda mais profundas. E é bom ouvir os artistas a falarem abertamente sobre temas que podem não ser assim tão fáceis de abordar. Se já estava completamente rendida ao álbum, ainda fiquei mais, porque é fascinante como ele observa o mundo, como se envolve com a música, como se coloca em cada letra.
Foi uma partilha muito honesta, com espaço para falar sobre música, desde o processo criativo até inspirações, e sobre como nem sempre estamos num bom lugar e, por isso, precisamos de nos voltar a apaixonar por aquilo que fazemos. Aconselho a ouvirem.
[gavetas]
Porta de Papel
O Executivo da Junta de Freguesia do Bonfim criou o Porta de Papel, cujo propósito é funcionar como «espaço de troca de livros, onde cada pessoa pode levar uma história e deixar outra para alguém descobrir». Desta forma, os livros não ficam parados, viajam.
[biblioteca sonora]
Margarida Vila-Nova no A Beleza das Pequenas Coisas
A Margarida Vila-Nova esteve à conversa com o Bernardo Mendonça, no A Beleza das Pequenas Coisas. Como tenho tentado acompanhá-la mais fora do ecrã, fui logo ouvir a primeira parte e render-me mais um pouco à inspiração que é esta mulher. Enérgica, a transbordar de sensibilidade, sensatez e inteligência (a vários níveis), nota-se que não há filtro na sua partilha, que é muito generosa nos pensamentos que entrega — gostei de saber mais acerca do monólogo. Entretanto, tenho de avançar para a segunda parte.
Recomendação para ouvir durante a semana: Estimular o Lado Criativo, com Maze.
[bilheteira]
Baião D’Oxigénio
João Baião está de regresso ao Teatro Tivoli BBVA para a terceira temporada do seu espetáculo e com várias sessões marcadas: dia 4 de março (quarta-feira), às 16h; dia 5 de março (quinta-feira), às 21h; dia 6 de março (sexta-feira), às 21h; dia 7 de março (sábado), às 15h30 e às 21h; dia 8 de março (domingo), às 15h30. Os bilhetes variam entre os 15€ e os 30€ em todas as datas.
Próxima Paragem
Mónica Vale de Gato sobe ao palco do Teatro Sá da Bandeira, dia 4 de março, às 21h, com o seu segundo solo de stand-up. Os bilhetes variam entre os 10€ e os 16€.
Quartas Perfeitas: Rita Vian
A artista atua no dia 4 de março, no Auditório Municipal Beatriz Costa (Mafra), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 5€.
Concerto Ricardo Ribeiro
O fadista atua no Teatro Aveirense, dia 5 de março, às 21h30. Bilhetes a 15€.
Elas Convidam
Diana Vilarinho convida Kátia Guerreiro «para um encontro artístico raro», dia 7 de março, às 21h30, no CAE da Figueira da Foz. Os bilhetes têm o custo de 15€.
Exposição de Camélias
O Porto é a cidade das camélias e, com o propósito de celebrar esta flor centenária, o Palácio da Bolsa abre as suas portas, transformando-se num jardim. No dia 7 (das 14h às 19h) e no dia 8 (das 10h às 18h) de março, para além da exposição, o programa inclui oficinas e momentos musicais. A entrada é livre em ambas as datas.
Palavras de Amor
Inês Castel-Branco e Jorge Baptista da Silva atuam no Centro Cultural Olga Cadaval (Auditório Acácio Barreiros), dia 8 de março, às 16h. Os bilhetes para este recital de poesia e fado-canção custam 10€.
☕ Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«A fuga é o exacto ponto em que tudo se transformar
ainda que nada tenha mudado»
[in A Axila de Egon Schiele, André Tecedeiro]
![Portugalid[Arte]](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hFQh!,w_40,h_40,c_fill,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa31a334b-a9fb-4cd6-b8cc-4802dfd6b8d8_500x500.png)



