Portugalid[Arte] #134
uma viagem com Sofia Gomes, a banda sonora da semana, A Impossibilidade de Estar Só, duas entrevistas, um sortido de conversas, Afonso Reis Cabral, Dealema, sugestões culturais e o Era Uma Vez do mês
[estante cápsula]
O Sono dos Portugueses, Sofia Gomes
Os propósitos para 2026 foram surgindo sem pressas, com ponderação e margem para albergar diferentes áreas, a começar pela necessidade de cuidar melhor do meu sono e do meu descanso. Sinto que nunca precisei de dormir imenso, mas tinha de parar com o ritmo constante de me deitar tarde e acordar muito cedo, por isso, comprometi-me a fazer pequenos ajustes nos meus hábitos diários. Motivada por esta decisão, resolvi ir ler o retrato que Sofia Gomes escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
O Sono dos Portugueses, em traços gerais, pretende explicar-nos «o que é o sono, como se organiza, evolui e modifica», desde o nascimento até à velhice, explanando quais os distúrbios que podem afetá-lo e consciencializando-nos para a «relevância do sono e do impacto das suas perturbações». Ademais, inclui estratégias para o melhorarmos.
Uma vez que o sono é «uma fonte basilar de saúde física e mental», foi interessante ver a abordagem e o cruzamento de informações. Embora seja um livro mais técnico, nada aqui é incompreensível, porque a autora tem uma comunicação clara e sustentada não só em detalhes concretos, mas também em curiosidades — e sempre com um objetivo.
Fiquei satisfeita por perceber que não estava assim tão por fora do tema e de todas as suas especificidades, e que talvez fosse uma questão de aplicar os conhecimentos que já tinha adquirido. Ainda assim, não deixei de ser surpreendida com a quantidade de pontos que parecem independentes, mas que estão intimamente relacionados com a qualidade do nosso sono e com o facto de o priorizarmos — ou não — na nossa vida.
O Sono dos Portugueses potencia inúmeras reflexões e incentiva-nos a explorar outras referências, visto que, tal como reconheceram, ficaram pela superfície deste tema tão vasto. Apesar disso, fartei-me de sublinhar o livro: por um lado, porque achei os dados interessantes e, por outro, porque creio que me relembrarão do meu propósito inicial. Além disso, achei útil que incluíssem ideias chave no final de cada um dos capítulos.
🎧 Banda Sonora: Sono Profundo (playlist)
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Livro Aberto, MAR & Kasha | Natura, Yang | Cidade, Bluay & Buba Espinho | que me encontres, Latte | Alta Cultura - Dangerous, Jimmy P | Backseat, Mun | Preço Certo, SleepyThePrince, Kroa & YeezYuri | Conversar, Elisa | Soamos Todas Iguais, Joana Almeirante | Juro, Eu Caí, Mallina | Não Há Volta a Dar, 10/16 & Padua | colo, Victoria Leuca & Inês Apenas | Carrossel, Feira Popular & Femme Falafel.
Os álbuns: Éter, BUH BUH | Saudade, Kura | Em Sonhos, é Sabido, Não Se Morre, xtinto.
[caixa mágica]
A Impossibilidade de Estar Só
Um acaso cruzou-me com o filme de Sérgio Graciano e, uma vez que a premissa me transportou para um tema que tem tanto de intrigante como de angustiante (mais do segundo do que do primeiro), decidi dedicar-me à sétima arte para o ir descobrir.
Alice tem vinte anos e uma imunodeficiência grave, que a impede de sair de casa. Portanto, «a sua vida reduz-se às quatro paredes da habitação e a um punhado de pessoas com quem está autorizada a conviver». Nessa lista, encontramos Fred, que acaba por ser a sua ponte «com as coisas do mundo real». Além disso, Alice conhece um rapaz da sua idade, online, por quem se apaixona. Ele «desafia-a a encontrarem-se na praia de Porto Covo» e, aqui, a protagonista sente-se em conflito, porque quer fazê-lo, mas, ao mesmo tempo, a situação «está fora dos limites que conhece». Num ataque de coragem, decide aceitar e Fred acompanha-a, porque está sempre do seu lado.
A Impossibilidade de Estar Só tinha tudo para ser uma ode à grandeza da amizade, visto que achei interessante a reflexão subtil sobre o peso de vivermos através de alguém e de como isso interfere com ambos os lados, possibilitando dois cenários: ou o estreitar de laços ou a quebra do relacionamento, sem espaço para amadurecer. Alice precisava desse vínculo, desse estímulo, para não se sentir um peixe dentro de um aquário, para experienciar uma promessa de liberdade. Fred, no entanto, teve de aprender a cuidar mesmo quando a sua vida estava um caco. Ainda que isso não seja logo percetível, há um abismo silencioso, remendos, omissões, para que, no meio de tanta solitude, exista uma certa leveza. O problema, para mim, é que a concretização fragmentada, de ideias isoladas, por vezes com um fio condutor forçado, trouxe um lado artificial ao enredo.
Houve, ainda assim, breves momentos de intensidade, sobretudo quando se sentiu a honestidade no discurso, quando as protagonistas se viram numa espécie de ponto de rutura que as obrigou a perder alguns filtros. E foi nessas alturas que fiquei a pensar em duas coisas: por um lado, que a curiosidade será maior do que o impacto do risco quando pretendemos que a vida não esteja apenas a passar por nós; por outro, que os nossos problemas nos consomem de tal maneira que tudo nos parece menos doloroso do que aquilo que estamos a passar — mesmo que isso signifique viver numa bolha.
O que me estava a entusiasmar era esta dicotomia, era esta oscilação por uma área tão cinzenta, já que parece óbvio que a vida de Fred, apesar dos dias cinzentos, é melhor do que a de Alice só pela possibilidade de sair, mas será justo fazer esta comparação? Não será injusto medir sofrimentos e diminuir dores só porque não está presa dentro de quatro paredes? Não estarão ambas a tentar encontrar o seu caminho, a procurar afeto, a tentar respirar livremente? A balança demonstra desiquilíbrios desde o início, porque Alice tem uma doença que a condiciona e Fred não, contudo, a vida de Fred também não é perfeita. A premissa acolhe todas estas questões, mas a forma como as entrega perde força por causa de escolhas previsíveis e cenas demasiado arrastadas.
A Impossibilidade de Estar Só também me deixou a pensar em tudo o que não sabemos das pessoas que conhecemos, na urgência de aprendermos a comunicar sem cobrar, bem como no facto de quase nunca termos a responsabilidade de aliviar a culpa do outro. Neste terreno tão propenso a reflexões e a viagens que ultrapassam qualquer destino externo, tenho pena que a proposta não tenha passado de uma promessa.
[gavetas]
Rimas e Batidas: Dengaz e Dealema
O Dengaz e os Dealema têm percursos distintos dentro do meio musical, porém, sem que algo o fizesse prever, acabaram a partilhar um pormenor curioso: ficarem mais de uma década sem lançarem trabalhos novos (no formato de longa duração). Além disso, tanto o artista de Cascais como o grupo formado entre Gaia e Porto, foram invertendo a narrativa, no ano anterior, ao lançarem músicas que prometiam o regresso há muito ansiado. Com a chegada dos mais recentes álbuns, saídos este mês, Dengaz e Dealema concederam, cada um deles, uma entrevista ao Rimas e Batidas — que convido a lerem.
Dengaz: Mais de uma década depois, chegou O Que Não Se Vê É Eterno.
Dealema: Uma entrevista especial sobre 30 anos de carreira, um novo disco e o concerto no Coliseu do Porto.
[biblioteca sonora]
Um sortido de conversas
Há semanas em que tenho necessidade de diminuir o tempo que passo na companhia de canções para ficar a ouvir as conversas que vou acumulando. A que passou foi um desses casos e, por esse motivo, quis compilar os episódios de podcast onde parei e que me trouxeram ângulos diferentes e interessantes sobre comédia, música, moda, saúde mental e literatura, e numa simbiose que me entusiasma: aliar conhecimento e entretenimento, enquanto alguns abrem a porta para vermos o lado dos bastidores.
[cartaz]
Em Nome Próprio: Afonso Reis Cabral
O reencontro com a Livraria Lello Porto andava a pairar no meu pensamento, porque não a visitava há quase quatro anos. Sem ter uma data concreta em mente para tal, não contava que acontecesse já em fevereiro, mas um programa de última hora com a Sofia foi a oportunidade perfeita para regressar e participar num dos seus eventos culturais.
Em Nome Próprio é uma rubrica que propõe um encontro com um autor, «convidando-o a falar na primeira pessoa» acerca do seu percurso, do seu processo criativo e, até, do que «acontece por trás do livro». O convidado deste mês foi Afonso Reis Cabral que, a partir do seu romance O Último Avô, uniu recordações, obsessões de infância e escrita.
Foi a primeira vez que estivesse na presença do autor e, como já tinha lido o livro em questão, gostei muito de compreender aquilo que o motivou a escrever a história e os momentos pelos quais se foi transformando até chegar ao resultado final. No entanto, como a conversa teve outras ramificações antes de pararmos nesse assunto, senti que foi mesmo agradável ouvi-lo a partilhar fragmentos intimistas da sua vida através de fotografias e que isso, subtilmente, tivesse contribuído para acolhermos aquela obra com outra predisposição: não porque seja inspirada na sua história, apenas porque o seu olhar sobre o mundo e os seus interesses parecem tê-lo encaminhado para ali.
A sessão começou e terminou com uma atuação musical de Rui David e foi moderada por Maria Bochicchio, estabelecendo uma ponte entre todas as partes. De facto, este é um espaço «de escuta e de revelação», que nos permite descobrir «o autor para lá das páginas». E a conversa foi fluindo com naturalidade e com uma boa dose de humor.
Afonso Reis Cabral é um ótimo contador de histórias e muito generoso com o público.


96 ao Infinito: Ou Como o Legado do Passado Abre Portas ao Futuro
O Expresso do Submundo fez a sua primeira viagem em 1996, quando o Pentágono — DJ Guze, Expeão, Fuse, Maze e Mundo Segundo — gravou o EP de estreia, em cassete, e «o foi distribuir de mão em mão pelas ruas de Vila Nova de Gaia e do Porto», cidades de onde são naturais. E eu tenho a forte convicção de que o meu fascínio por margens, por estas margens em concreto, e pela escrita poética despertou graças a este vínculo.
Perdi a hora da partida, porque em 1996 tinha quatro anos, mas os Dealema deixaram a porta aberta para quem os quisesse acompanhar e, já mais velha, enraizada por uma passagem de testemunho silenciosa, tal como partilhei aqui, apanhei boleia e passei a falar no mesmo dialeto, a sentir na pele o contexto e o impacto de cada referência.
A minha definição de arte começou a ser moldada com e pelos cinco. Entre o Bloco 24, em Ramalde, e o Segundo Piso, em Gaia, unidos pelo amor à cultura Hip Hop, foram a voz do que se passava no mundo nos anos 90, nos planos tecnológico, social e político. Portanto, o «grupo de amigos» criou «sintonia com o [n]osso coração» e traduziu muito daquilo que nos ia por dentro, evidenciando as raízes, os lugares que os formaram, as pessoas que lhes deram a mão, enquanto espelhavam sonhos, medos e metamorfoses.
Trinta anos depois, há mudanças inegáveis, mas a alquimia permaneceu inquebrável, até porque o legado do passado, que foram cultivando a pulso, abre portas ao futuro.
96 ao Infinito
O nome do álbum remete-nos para o dos Soul Of Mischief, 93 ‘Til Infinity, atendendo a que, como confidenciaram em entrevista, é um conceito que representa não só aquilo que criaram, mas também continuidade. E esse sempre foi um dos propósitos maiores do grupo: reinventar-se, firmando a identidade que lhes permite explorar novas rotas.
Quando escutei 96 ao Infinito, num misto de entusiasmo e nervosismo, afinal, o último longa duração tinha sido lançado em 2013, reconheci esse diálogo íntimo, consistente, como se entre este disco e o Alvorada da Alma não existisse uma história de treze anos, como se o silêncio pertencesse apenas à ocasião em que a última nota ecoa e fazemos um compasso de espera para avançarmos para a seguinte. O regresso trouxe a magia de soar ao abrigo de sempre, mas revestido com uma energia fresca, atual e irreverente.
Assumindo-o como espinha dorsal dos Dealema, este álbum interliga, por um lado, os temas mais urderground, sustentados em melodias orquestrais e sombrias, na rima e na técnica, e, por outro, temas mais emocionais, mais introspetivos. Esta força e atenção encontram impulso na atualidade, na forma como observam o mundo e o comunicam e na consciência de que o lado pessoal, construído entre quedas e conquistas, lhes foi afiando a caneta. Numa entrevista recente, o Maze referiu algo que, creio, resume este pensamento: embora estejamos perante o mesmo grupo de 1996, «não estamos perante o mesmo grupo de 1996». Reconhecemos-lhe as origens, as raízes, a linguagem inicial, mas o Pentágono tem «mais horas de estrada, mais cicatrizes e mais coisas a dizer» — e há uma geração inteira que continua a querer escutar tudo aquilo que têm a partilhar.
A ponte entre passado, presente e futuro não só foi conseguida através da produção do Menfis, que entendeu «a energia dos primeiros discos» e a elevou a outros patamares, mas também graças às colaborações que integram 96 ao Infinito: ACE e Manel Cruz já pertencem à história do grupo, estreitando os laços entre diferentes géneros artísticos, reforçando que é possível cruzar visões com elementos de bandas que chegaram antes, sem margem para alimentar competições; Bezegol, Zacky Man e David Cruz, por seu lado, marcam um novo capítulo, que há muito queriam levar para as canções. O mais fascinante é ouvir o resultado e perceber que existe harmonia, que a essência artística e criativa de cada um encaixou na perfeição, fazendo com que tudo soasse a poesia.
Diretamente da escola dos 90, há aspetos que continuam a ser a imagem de marca dos Dealema, razão pela qual preservam relevância: as letras incisivas, cheias de camadas, que nos obrigam a ir ao lado mais profundo da mensagem. Além disso, a componente lírica, que não cedeu à pressão do imediatismo, fomenta a pluralidade da intervenção, sempre com verdade, alicerçada à consciência social e política que nunca perderam.
96 ao Infinito tem, no meu parecer, uma das entradas mais incríveis, revestindo-se de nostalgia, maturidade e resistência. Esta assinatura embalou as músicas do álbum e marcou o tom para a celebração da «terceira década seguida sem descer da primeira».
o pentágono reunido num coliseu esgotado
Uma das salas mais emblemáticas da cidade Invicta abriu os portões para receber um dos nomes maiores do Hip Hop português. Este reconhecimento de parte a parte é a prova inequívoca do quanto a consistência promove a permanência e a lembrança, do quanto a continuidade permite escrever memórias tão bonitas. Se dúvidas existissem, ter um Coliseu do Porto esgotado para pertencer a este momento dissipou-as a todas.
Não o verbalizei, mas houve alguma inquietação a pontuar as horas que antecederam o concerto, não porque temesse que ficasse aquém das expectativas, mas por saber que seria para revisitar uma parte da minha história, de recordações muito particulares e, como isto não é sobre mim, para comemorar o culminar de 30 anos de carreira de um dos meus grupos favoritos. Portanto, apesar de estar igualmente entusiasmada, sabia que eram bastante fortes as probabilidades de me comover nesta viagem intemporal.
As lágrimas ficaram recolhidas, posso sossegar-vos, porém, o coração falhou algumas batidas, a pele eriçou e voltei ao passado, só para embarcar numa travessia épica pela obra tão vasta dos Dealema e comprovar, na primeira pessoa, que as raízes são fortes, mas que nunca os impediram de voar. Aliás, a simbiose entre passado e presente é tão cirúrgica que qualquer uma das músicas podia integrar qualquer álbum sem destoar, mostrando que estão constantemente a reinventar o modo como constroem as rimas.
O concerto foi escalando, com recursos audiovisuais, espontaneidade e, muito graças ao Expeão, dinâmicas cómicas. Apesar de ter acusado um certo cansaço (porque foram quase três horas de espetáculo, depois de um dia de trabalho), parte de mim até queria que fosse tudo em câmara lenta, como na canção, para parar o tempo, para não ter de me despedir, para continuar comovida com a energia da sala, na qual as nossas vozes se uniram como se fossemos parte do coletivo e permanecêssemos, juntos, na Sala 101.
As colaborações saíram do álbum para o palco, o quinteto trouxe as suas ramificações a solo e apresentaram formas distintas para recordarmos os temas que compõem o seu património musical. De alma e coração, além da arte que lhes corre no sangue, aquilo que sobressai é a amizade e a chama que se mantém acesa desde o primeiro dia. Já que entre amigos não há filtros, absorvemos cada extensão de cumplicidade, essa semente que floresce num terreno que procuraram trabalhar e cuidar para que se tornasse fértil.
Os Dealema cantam que «nada dura para sempre, ninguém vive eternamente», mas «já são 30 anos a enganar a morte», por isso, tendo em conta a história escrita no Coliseu, creio que são a exceção. O Expresso do Submundo ainda tem muitas viagens pela frente.


[bilheteira]
Amiga, Faz Parte
As conversas da Mariana Ribeiro têm uma versão ao vivo no dia 24 de fevereiro (terça-feira), às 21h, no Teatro Maria Matos. Os bilhetes têm o custo de 18€.
Paraíso
O filme de Daniel Mota «retrata a génese e evolução da cultura rave portuguesa, bem como o seu impacto duradouro na música eletrónica a nível mundial» e é exibido dia 24 de fevereiro, às 21h30, no Teatro de Vila Real (Pequeno Auditório). Bilhetes a 3€.
Mizzy Miles and Friends
O concerto está marcado para dia 27 de fevereiro (sexta-feira), no Sagres Campo Pequeno, às 21h. Os bilhetes variam entre os 22€ e os 33€.
Feliz(Mente) Triste Tour
Carolina de Deus atua dia 27 de fevereiro, no Espaço Multiusos de Almeirim, às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 10€. Já no dia 28 de fevereiro (sábado), atua no Teatro Sá da Bandeira, às 21h. Os bilhetes variam entre os 10€ e os 25€.
Arraial
Vítor Sá atua dia 27 de fevereiro, no São Mamede CAE & Tribuna (Guimarães), às 21h30. Os bilhetes variam entre os 15€ e os 16€.
[era uma vez: o poder das ilustrações]
As histórias podem ser contadas de inúmeras maneiras. Por isso, acredito que, quanto maior for o número de possibilidades, mais o nosso imaginário será estimulado, já que seremos incentivados a explorar diferentes níveis de interpretação. Portanto, quando abro um livro, permaneço atenta a cada detalhe e à mensagem que ultrapassa o texto.
O primeiro contacto com a literatura, ainda antes de sabermos ler, ocorre através das ilustrações e entristece-me a desvalorização feita a esta manifestação artística. E como voltei a ouvir comentários sobre estar a ler novelas gráficas, fez-me sentido recuperar esta reflexão, porque é impressionante como o mundo avança, mas existem ideias pré-concebidas que não somos capazes de largar, que temos necessidade de verbalizar.
Quando uma criança observa as ilustrações, quando investe o seu tempo para observar as cores, as formas, a composição de cada elemento, ela está a ler: está a ler as imagens e a atribuir-lhes um significado, um propósito, uma narrativa. Aliás, está a aprimorar a sua capacidade para imaginar e construir outros enredos, problemáticas e, inclusive, personagens, porque não tem a palavra a orientar a sua construção, proporcionando-lhes uma liberdade maior. Da mesma forma que, a partir de uma certa altura da nossa vida, preferimos não ver a adaptação cinematográfica de um livro, porque elaboramos uma imagem do contexto/ambiente, dos protagonistas, enquanto pequenos leitores, ficamos fascinados com as infinitas portas que podemos abrir a partir do desenho — ali, entendemos que não há apenas uma interpretação. Questiono-me, então, sobre a altura em que se tornou incomportável para um adulto preferir ler novelas gráficas.
Naturalmente, nos períodos basilares da nossa formação, em que aprendemos as letras e a magia associada à sua combinação, vendo florescer palavras, frases, textos longos, é crucial potenciar o contacto com diferentes géneros narrativos, visto que também é algo que promove a aquisição de vocabulário novo, diversificado. No entanto, isso não significa, obrigatoriamente, descartar certos géneros literários. Pode acontecer, claro, porque vamos limando as nossas arestas e compreendendo quais nos servem melhor, apenas não me parece nada justo julgar e/ou diminuir as preferências de cada leitor.
As ilustrações são uma arte valiosa, que vale por si só, mas que consegue levar-nos a outros lugares quando conjugada com o texto (e vice-versa). Apesar de nem sempre estarem presentes, sinto que fazem toda a diferença. Assim, quais são os seus poderes?
o universo imaginativo
A criança vê as imagens antes de ver as letras e, uma vez que o pensamento abstrato ainda está em formação, é importante garantir-lhes mecanismos que as permitam explorar a leitura por processos semióticos. Deste modo, serão capazes de passar da leitura pictórica para a verbal, gradualmente, aprendendo a articular ambas. Tendo em conta que as imagens conversam com a sua plateia — crianças, adolescentes e adultos —, são um excelente ponto de partida para o mundo encantado da imaginação.
outro ponto de vista
Há exceções, como em tudo, mas é natural que texto e ilustrações sejam criados por autores diferentes. Portanto, a mancha gráfica dependerá sempre da visão criativa do artista, da sua interpretação acerca do que leu, podendo revelar outro ponto de vista sobre o enredo. Uma vez que representa elementos explícitos ou intuídos, também é capaz de apelar ao nosso sentido crítico, ao mesmo tempo que nos leva a questionar.
a orientação
Transportando-nos para pequenos contos, o ilustrador aumentará os significados que a mensagem nos reserva. Por esse motivo, é fundamental que ambas as partes façam sentido, que se estabeleçam pontes entre elas, no entanto, há uma certa magia quando o artista inclui elementos extra, porque são eles que nos orientam para novas camadas.
captar a mensagem
As imagens têm um peso incalculável e podem colar-se à nossa pele. Não obstante, as ilustrações conseguem funcionar como um guia, já que nos encaminham para onde o autor nos quer de um modo, talvez, mais imediato. Apesar de ser maravilhoso termos margem para imaginarmos as personagens, as situações e os espaços como quisermos, sinto que a componente visual os mantém na nossa memória por muito mais tempo.
a carga afetiva e emocional
As ilustrações despertam sensações, porque há movimento, silhuetas, contextos. Nós lemos e imaginamos determinado cenário e, depois, vemo-lo exposto através de cores, técnicas e perspetivas próprias, o que contribui para criarmos um vínculo afetivo e emocional com a história. De repente, vemos (quase) tudo a acontecer à nossa frente e não temos forma de ignorar, de diminuir a curiosidade, de desligar o que sentimos. As linhas do desenho entrelaçam-se a nós e, sem darmos por isso, mergulhamos no texto.
As ilustrações alimentam novos sentidos e, embora leia mais livros sem elas, perco-me sempre nas entrelinhas dos seus traços, naquilo que traduzem. Ao darem forma ao que não vemos através das palavras, estabelecem conexões, estruturam pensamentos e vão concedendo espaço para que o leitor seja capaz de tornar as histórias à sua imagem.
☕ Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«o que faz falta a esta cidade são os teus olhos sobre ela»
[in Cidade, xtinto]
![Portugalid[Arte]](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hFQh!,w_40,h_40,c_fill,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa31a334b-a9fb-4cd6-b8cc-4802dfd6b8d8_500x500.png)



Estas publicações que trazes têm tanta cultura que me é impossível não ler