Portugalid[Arte] #132
uma viagem com Duarte Scott, a banda sonora da semana, O Grito, Capitão Fausto, uma publicação, um episódio de podcast e sugestões culturais
[estante cápsula]
Exposição. Poesia e Prosímetros, Duarte Scott
As emoções toldam os nossos passos, por mais que procuremos ser racionais, por mais que tentemos afugentá-las do pensamento para o protegermos de um sentir profundo. É neste limbo que Duarte Scott se movimenta na sua obra, que li para o Alma Lusitana e, ainda, para o desafio literário da minha amiga Sofia — 12 meses, 12 livros de poesia.
Gatilhos: Linguagem explícita
Exposição. Poesia e Prosímetros combina inúmeras referências: «algum hermetismo de 1960», D. H. Lawrence, referências italianas e alegorias eróticas. Maioritariamente em verso, mas com espaço para combinar prosa e poesia (e dois poemas em inglês), sente-se que é uma escrita com antagonismos e com um jogo constante de sombras e de luz.
Assim como refere Pedro Mexia, o curador da coleção poética na qual se insere o livro, a construção demonstra muita inteligência e sensibilidade, partilhas auto-conscientes e, acrescento eu, um certo tom de censura a povoar alguns poemas, não porque o autor se policie nas suas observações, mas porque evidencia um sentido crítico nos assuntos que vai analisando — na primeira pessoa ou à distância. Além disso, com as palavras de Mexia a contextualizar partes da génese da obra, foi interessante perceber quais as propostas que «cultiva[m] o sentido de forma, a centralidade dos sentidos» e o «sentido das coisas» e como é que, com muita subtileza, todos esses conceitos se entrelaçam.
Senti a escrita próxima e visual, o que me agradou, pois acho maravilhoso quando os poemas têm esta capacidade de se moldarem aos nossos olhos, como se, por um lado, lhes pertencêssemos e, por outro, fossem um filme a explorar uma realidade alinhada com a nossa ou completamente distante. Em simultâneo, gostei bastante do contraste entre o que é escondido e o que é exposto e que usasse a escrita para trespassar, «para provocar algo no Outro». Simplesmente, não senti que os poemas me arrebatassem de um modo equilibrado (mas fiquei com vontade de ir ao livro mais recente do autor).
Exposição. Poemas e Prosímetros dança com a escuta atenta e a palavra, fala-nos de luto e de sedução, unindo-os num plano que nem sempre nos parece possível, e mostra-nos que nem tudo contém ensinamentos, mas que acabamos a aprender algo com todos os conteúdos que cruzamos. Sem filtros, centrando-se nos desejos, no sexo e na ausência, também retrata um «processo íntimo de construção de identidade». Avesso foi o poema que ficou com o meu coração, seguido de Abertura, Flor da Pele e Ouvido de Fora, o Sino.
🎧 Banda Sonora: Lua, Lhast | Avesso, peixe : avião
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: 4 de Fevereiro, Slow J & Prodígio | Relento, Edmundo Inácio & Peculiar | Essência, Agir & Mizzy Miles | Guardei-te Um Lugar e Diz-me na Cara, Nena | Mal Vestido e Deixar-te, Ganso | Alta Cultura - Babygirl, Jimmy P | Meu amor quando eu morrer, Bela Noia.
Os álbuns: O Que Não Se Vê é Eterno, Dengaz | Retorno, Mário Laginha | Livre, Alex D’Alva | Existencisensual, Mike El Nite | Canto Para Espantar, Manel Steel.
[caixa mágica]
O Grito
As fragilidades humanas podem ser profundas e, nesta série, são retratadas ao detalhe. Apesar de parecer que se divide por temas várias vezes abordados (o que não invalida a pertinência dos mesmos), é a forma como a narrativa se constrói que nos envolve no desenrolar dos acontecimentos e nos leva a questionar a integridade das personagens.
O suicídio de Vitória é o pretexto para vermos tudo aquilo que tem sido ignorado, é o gatilho para questionarmos, para lutarmos, para estarmos atentos aos sinais, por mais subtis que eles sejam. Nem todos os finais serão como o da professora, felizmente, no entanto, a sensação de uma dor tão profunda que não pode ser calada de outra forma é uma realidade bastante mais frequente do que seria desejado. E, depois, escala na sua complexidade porque nos mostra a quantidade de pormenores obscenos que esconde.
Intercalando o passado e o presente, o que nos permite traçar o retrato de cada um dos intervenientes e conhecer as suas bagagens sociais e emocionais, confesso que houve algo a fazer-me desconfiar de uma das personagens, embora a sua construção nos desperte pareceres ambíguos: por um lado, podia ser só uma impressão errada, uma má interpretação dos factos, mas, por outro, havia qualquer coisa na sua postura que era inconsistente, havia um certo desfasamento a traí-la. E este pensamento ficou a ecoar até à revelação final, sem que, contudo, prejudicasse a experiência. Aliás, creio que a forma como foram introduzindo pequenos indícios desde o início ajudou a que a dúvida aumentasse, confrontando-nos com a nossa capacidade de interpretar pessoas.
Se o contexto deste suicídio já era, por si só, uma fonte de inquietação e de revolta, dei por mim muitas vezes a replicá-las em relação ao contexto educativo, pois a figura da diretora espelha tudo aquilo que abomino e que considero errado na profissão: agir de acordo com aparências, manipular, inverter prioridades, focar-se mais nos rankings do que nas necessidades da comunidade estudantil. Como é que o futuro da educação fica assegurado se tentam que sejam estes os seus pilares? Como é que alunos, professores e funcionários podem manter a esperança se são estes os valores que veem replicados? Embora pareçam tópicos isolados, estes desafios profissionais interferem no contexto familiar e, de repente, tudo se transforma em esforço acrescido, desgaste e angústia.
As narrativas paralelas levam-nos sempre de volta ao ponto de partida: à tentativa de perceber o que levou Vitória a terminar com a sua vida. Esta procura por respostas vai levar-nos até lugares sombrios, porque não fazemos ideia do que se passa na vida das pessoas que nos rodeiam, porque aquilo que nos mostram é apenas a superfície de um mundo desconhecido. Entre negligência, desvalorização e indisciplina, a série mostra-nos como existem tantas frentes ativas quando um problema nos bate à porta, porque os problemas dos outros não desaparecem, porque uma situação tão extrema como a morte de alguém próximo não anula a precariedade, o bullying, a carência de afeto, o alcoolismo, o consumo e a venda de droga. O tempo não para quando se tenta unir as pontas soltas, muito menos diminui o sofrimento daqueles que só querem esquecer.
Achei mesmo interessantes as ramificações desta série, atendendo que nos permitem refletir sobre vulnerabilidade, perda e presença, e sobre como é possível reconstruir vínculos afetivos no meio de dias tão ambíguos e dolorosos. Além disso, terminei cada um dos episódios a pensar em situações concretas (tentarei não revelar demasiado):
episódio um: até onde podemos ir para ajudar alguém? Qual é o limite?;
episódio dois: há sempre alguém a impor um caminho, a coagir, a manipular, a fazer prevalecer um jogo de interesses desonesto;
episódio três: a falta de comunicação pode ser extremamente violenta e ampliar remorsos e um sentimento de culpa. Por outro lado, é inqualificável a dor de não se ser capaz de perceber o que estava a acontecer, procurando prevenir;
episódio quatro: há quem aparente ter tudo o que precisa, mas a sua vida está tão vazia do que é o mais importante, como o amor e a atenção dos que ama, que tudo serve se sentir menos só. No fundo, é como se já não existisse algo a perder;
episódio cinco: como é que não se perde o encanto pela profissão se o futuro é tão incerto, se a desonestidade parece não ter limites? Como é que se segue em frente quando há tantas perguntas sem resposta e todas as pistas parecem levar a lugar nenhum? O luto parece sempre mais difícil de processar nestes termos;
episódio seis: a dormência, a revolta, a alienação turvam o discernimento e é importante sabermos acolher a dor do outro, mas também fico a pensar que não é justo aguentar ataques de fúria ou tratamentos de silêncio. Quando alguém está em sofrimento, tudo à sua volta parece menor, menos importante e tudo é válido para preencher o vazio que ficou, mesmo que isso leve a decisões pouco seguras;
episódio sete: há silêncios que escondem feridas profundas, traumas dos quais não se recupera. Como é que alguém consegue destruir a vida de outra pessoa e seguir os seus dias sem qualquer tipo de remorso, fingindo que nada aconteceu?
episódio oito: nunca é fácil descobrir algo que pode aumentar ainda mais a dor de um coração ferido, sempre a um passo do abismo. A dúvida instala-se, porque decidir entre contar a verdade e esconder pode ter repercussões irreversíveis, consumindo-nos por dentro. Acho que há um caminho que nos parece óbvio, quando vemos as coisas de fora, mas nunca haverá uma decisão certa, sobretudo se a motivação for proteger quem amamos.
O Grito surpreendeu-me, mas sinto que o final foi um pouco abrupto. Há pontas soltas que mereciam um desfecho, para compreendermos o verdadeiro impacto da situação, e preferia que alguns acontecimentos não escalassem tão rápido, ficando a impressão de que houve pressa para os concluir — creio que, à semelhança do que fizeram com outros indícios, teria sido mais valioso se os fossem encaminhando mais cedo naquela direção. Apesar disso, o argumento não perde totalmente a força da sua mensagem e deixou-me a pensar que as nossas pessoas compreenderão sempre os nossos silêncios.
Capitão Fausto: Um Ensaio Para o Futuro
Os Capitão Fausto atuaram na maior sala de espetáculos do país, no passado dia 24 de janeiro, mas, antes, abriram as portas do estúdio Cuca Monga para que assistíssemos a um ensaio intimista, intercalado com uma breve entrevista. E é extraordinário como, através deste registo, nos envolvem nas canções e nas suas histórias e como despertam a vontade de nos levantarmos da cadeira para dançar. Se calhar é presunçoso da minha parte falar no plural, mas sinto mesmo que a energia deles é contagiante, inebriante.
Um Ensaio Para o Futuro, disponível na RTP Palco, mostrou-nos canções como Santa Ana, Amanhã Tou Melhor, Certeza ou Na Na Nada, ao mesmo tempo que nos permitiu ouvir, entre outras, partilhas sobre a coisa mais doida que lhes aconteceu em palco, a grande decisão de se dedicarem em exclusivo à música, a cumplicidade musical; sobre o disco gravado no Brasil e a necessidade de reaprenderem a fazer música a quatro.
Daqui a vinte anos, espero que a subida continue a ser infinita e não, como os próprios referem, um cair com estilo, até porque Capitão Fausto nunca terá os dias contados.
[gavetas]
quando uma coisa corre mal
A Joana Miguel, a partir de algo que uma professora lhe disse, escreveu uma reflexão breve na sua newsletter, fora de compasso, sobre a tendência que temos para considerar um falhanço «tudo o que não é perfeito», tudo aquilo que não corre como achamos que devia correr, ignorando por completo o esforço que depositamos naquela tarefa. Sinto que precisamos deste lembrete, até para aprendermos a ser menos duros connosco.
[biblioteca sonora]
Intrusivos: Bumba na Fofinha
Sou pouco consistente a acompanhar os projetos do Tiago Almeida, devo confessar, apesar de ter adorado o seu Prisão Preventiva. No entanto, a Bumba na Fofinha foi a primeira convidada da segunda temporada de Intrusivos, um podcast onde «convida amigos e conhecidos para falarem sobre pensamentos intrusivos e coisas que fazem mais têm vergonha de admitir», e isso fez-me perceber que, se calhar, devia estar mais disponível para as suas propostas, não só por ter graça, mas também por ter aqui um conceito mesmo interessante. Chorei a rir com o escalar de insanidade destes dois — com a grande benesse de, pelo meio, abordarem questões/dúvidas super pertinentes.
[bilheteira]
Conta-me Uma Canção
O encontro de hoje (09/02), às 21h, no Teatro Maria Matos, junta Benjamim e Tozé Brito. Os bilhetes têm o custo de 22,50€.
Fernando Tordo - 60 Anos de Canções
O concerto está marcado para dia 10 de fevereiro (terça-feira), às 21h, na Sala Carmen Dolores do Teatro da Trindade Inatel. Os bilhetes variam entre os 20€ e os 30€.
Conversas de Miguel
Pedro Teixeira da Mota e Carlos Coutinho Vilhena sobem ao palco da Super Bock Arena nos dias 12 (quinta-feira), 13 (sexta-feira) e 14 (sábado) de fevereiro. As sessões começam todas às 22h e os bilhetes variam entre os 24€ e os 38€.
Agora Noutro Lugar
O monólogo interpretado por Tiago Castro está em cena no CAL - Centro de Artes de Lisboa, nos dias 12, 13 e 14 de fevereiro. Todas as sessões estão marcadas para as 21h e os bilhetes têm o custo de 12€.
Concerto Filipe Karlsson
A tour de Filipe Karlsson passa pelo Maus Hábitos, no Porto, dia 12 de fevereiro, às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 13€.
Concerto Miguel Araújo
O artista atua no Grande Auditório do Teatro de Vila Real, no dia 13 de fevereiro, às 21h30. Os bilhetes variam entre os 22€ e os 30€.
As Grandes Canções de Amor de Sérgio Godinho
O espetáculo integra o Festival Montepio Às Vezes o Amor e ocorrerá em duas datas: dia 13 de fevereiro, no Sagres Campo Pequeno, às 21h30, com bilhetes entre os 25€ e os 47,50€; dia 15 de fevereiro (domingo), no Coliseu do Porto Ageas, às 18h, com bilhetes entre os 17,50€ e os 47,50€.
Apontar o Dedo
Pedro Sousa e Pedro Correia atuam dia 14 de fevereiro, no Teatro da Comuna, às 18h. Os bilhetes têm o custo de 14€.
À Primeira Vista
Margarida Vila-Nova interpreta este monólogo no Auditório Municipal da Lousada, dia 14 de fevereiro, às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 15€.
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«A poesia é feita de detalhe e de espanto. Como os amigos. Os amigos são os meus poetas favoritos» [in O Coração Ainda Bate, Inês Meneses]
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