Portugalid[Arte] #131
uma viagem com Júlio Machado Vaz, a banda sonora da semana, Refúgio do Medo, Margarida Santos, pontos de ajuda, dois episódios de podcast e sugestões culturais
[estante cápsula]
Outonecer, Júlio Machado Vaz
A melancolia do outono prefiro vê-la de perto, como se fosse a extensão de um verso, a quietude de uma palavra suspensa num pensamento a ser processado ou que deixamos partir. E Júlio Machado Vaz, com a sua sapiência que não larga a mão da sensibilidade com que encara o Outro e a Vida, levou-me para esse quadro intimo no seu novo livro.
Outonecer, escrito como quem nos conta um segredo valioso, como quem nos embala na melodia de um verbo que só ele poderia bordar, é feito de partilha e de introspeção. O médico psiquiatra trouxe para a mesa algo «que se aproxima, passo a passo» e para o qual «não há fuga possível»: o envelhecimento e os medos que traz no regaço. Só que esta reflexão confessional, por vezes sombria, também arranja espaço para prosperar e ser um «hino a todas as estações do ano», porque, mesmo sabendo que não é eterno, a vida continua a sorrir-lhe e há qualquer coisa de inebriante no amanhã que se escreve.
O que mais me fascina em Júlio Machado Vaz, para além do conhecimento e de toda a generosidade, para além da abertura para debater vários assuntos e quebrar muros, é a sua capacidade de seguir associações livres e dar espaço a pensamentos que «nunca se [lhe] ofereceram alinhados». Já tinha adorado essa abordagem no livro que li antes, À Escuta dos Amantes, porque acompanha o tom que reconhecemos em projetos como O Amor É (com Inês Meneses) ou Old Friends (com Manuel Sobrinho Simões), mas, acima de tudo, porque, tal como um ouvinte lhe disse, «enquanto o doutor hesita, eu penso».
Nesta obra, transita entre o passado, o presente e o futuro, recupera as memórias «dos que já não estão», aclama o amor pelos filhos, pelos netos e pelos animais, sem deixar de parte as amizades, a música, as viagens e todos os vínculos que as estreitam, até os menos óbvios. Em simultâneo, partindo de cenários pessoais, leva-nos a refletir sobre sexualidade, atualidade política, inseguranças e, inclusive, inteligência artificial, sem guiões, sem filtros, como se estivéssemos só a participar numa conversa entre amigos.
Outonecer mostra-nos que «o outono chega depressa», que existem medos e angústias transversais e que a passagem do tempo nos «convida a olhar para dentro», mas Júlio Machado Vaz borda palavras como quem transforma a vida num permanente poema, como quem olha para o Porto e sabe que, nos seus incontáveis tons de cinzento, existe sempre beleza. Sem ocultar receios, mas escudando-se nas diversas formas de amor — e das recordações que nos acalentam —, sinto que encontrei um novo verbo favorito, porque, se for para outonecer desta maneira, haverá sempre um horizonte para onde olhar. Eugénio de Andrade afirmaria que é urgente o amor. Júlio Machado Vaz, creio, concordaria, completando que é urgente vivermos todas as nossas estações interiores.
🎧 Banda Sonora: Eu Vim de Longe, Eu Vou Pra Longe, José Mário Branco | Walk On The Wild Side, Lou Reed | Penny Lane, The Beatles.
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Leva-me, Rita Rocha & Carolina Deslandes | Notas & Traumas, Dengaz & Agir | Foi Sem Querer (Versão Acústica), Elvira | Waridu?, João Maia Ferreira | Alta Cultura - BrownSkinDevil, Jimmy P | Maratona, R1os, Menfins, Mundo Segundo & Andreia Lopes | Sem Carta, MAR | No Bolso, Joana Alegre | não me apetece, Capital da Bulgária | Vai Dar, Glockenwise | Sinto Muito, Inês Apenas | meu norte, Matilda.
Os álbuns: So Much Has Changed, Maro | Feliz(mente) Triste, Carolina de Deus | Olheiras, João Mesquita | Tristana II, Stereossauro & Ana Magalhães | Lavoisier, ACE.
[caixa mágica]
Refúgio do Medo
O mundo dentro de quatro paredes pode ser tão austero e violento que a única solução é fugir para um lugar longínquo, cortando raízes e laços afetivos, e deixando de parte a realidade tal como era conhecida. O problema é se esse abrigo se torna só temporário.
Refúgio do Medo centra-se em Maria, que emigrou para uma «remota ilha na Islândia, em busca de uma vida melhor para si e para a sua filha adolescente, Bela». A razão da mudança torna-se evidente nas primeiras cenas, uma vez que pretende libertar-se de um passado «marcado pela violência doméstica e por segredos profundos». Logo aqui surge uma pergunta impossível de ignorar, porque queremos saber se conseguiu. Seis meses depois de chegar a Vestmannaeyjar, a protagonista «é encontrada sem vida».
De repente, a paz daquela ilha é abalada, a família fica virada do avesso e há teorias que se multiplicam: poderá o passado cruzar-se com o presente? Quem teria razões para cometer tamanha atrocidade? Estará Bela em perigo? O mistério adensa-se e as respostas parecem distantes, porque, conforme avançamos no argumento, são mais as pontas soltas. Aliás, a morte de Maria vem mostrar que todo este caso está repleto de camadas complexas e que não há uma personagem que não tenha algo a esconder.
Um dos aspetos que mais me agradou na série foi a sua pluralidade, porque, a partir de um assunto tão fraturante na sociedade como é a violência doméstica, e dos vários focos em que se divide (desde o tipo de violência até às marcas psicológicas que deixa naqueles que a sofreram na pele e/ou naqueles que a observaram de perto), articulou outras componentes, como a adolescência, a experiência da emigração, a solidão, o luto, os pontos de viragem e o equilíbrio entre «o dever profissional» e a vida privada.
Sem querer aprofundar em demasia, porque a série está toda disponível na RTP Play, mas pode ser acompanhada, semanalmente, no canal público, sinto que existe um tom sombrio a pairar, como se as personagens estivessem a um passo do abismo, como se as pistas nos conduzissem para um cenário pior. Cruzando mistério, trauma e drama, confronta-nos com aquilo que consideramos ser verdade, com a nossa moralidade e com os efeitos do isolamento — tantas vezes camuflado. Além disso, no meio de todas as perguntas que fui anotando no caderno, dei por mim a pensar naquilo que exigimos aos outros, na nossa capacidade para desaparecermos e pedirmos o inimaginável só porque existiu uma ligação antes. Quantas feridas é que cabem nesse silencioso vazio?
Para mim, há, ainda, outra reflexão pertinente: até que ponto se protegem os filhos a omitir a verdade? As mães deste argumento (e de um modo geral) fizeram de tudo para que os filhos não percebessem que a imagem que tinham dos progenitores podia não corresponder à realidade, impedindo-os de crescerem, talvez, revoltados, descrentes, amargurados, mas, longe de querer fazer qualquer tipo de julgamento, isso não será mais uma forma de proteger o agressor, contribuindo para a sua impunidade? Achei mesmo interessante como, sem ser um ponto central, esta questão foi criando raízes.
Refúgio do Medo compõe-se à medida que se recuperam memórias. Confesso que não adorei o final, visto que o senti pouco coerente com o que tinha acontecido antes. No entanto, por outro lado, acabo a compreendê-lo, tendo em conta que a manipulação também foi protagonista neste enredo. Fico a pensar se será possível quebrar o padrão.
[gavetas]
Como é Que Se Recebem Más Notícias?
A Margarida Santos chegou ao substack e eu sinto que a plataforma ficou muito mais bonita por causa disso. A sua forma de comunicar é sempre descomplicada, sensível e honesta, só não contava que me deixasse de lágrimas nos olhos logo no primeiro texto.
Todos sabemos que não há fórmulas secretas que nos protejam de más notícias, o que não significa que custem menos a processar, mas a humanidade da partilha levou-me a pensar noutro prisma: que podemos passar pela vida das pessoas e deixar uma pegada que faça a diferença; que a dor proveniente de novidades que dispensávamos receber é, também, consequência do cuidado que dispensamos aos outros, independentemente da nossa profissão. Fica o vazio, mas, antes do silêncio, houve o olhar de quem quis ver.
Estou curiosa para a acompanhar neste formato e descobrir que outras reflexões trará.
Pontos de Ajuda
A tempestade tem sido extremamente cruel para a região centro e, visto que «o povo é quem mais ordena», a população tem-se unido para recolher o máximo de ajudas que possam colmatar os principais danos e trazer conforto a quem perdeu (quase) tudo. Assim, consciente de que é apenas uma amostra de como podemos contribuir, trouxe algumas publicações com pontos de recolha e serviços de apoio disponibilizados.
Além disso, foi criada a plataforma Tempestade SOS, onde é possível pedir e oferecer ajuda. Desta maneira, será mais fácil de fazer chegar os pedidos ao destino certo.
[biblioteca sonora]
Biblioteca de Bolso: Sérgio Godinho
Escutar conversas sobre livros é, por si só, aconchegante, mas ouvir Sérgio Godinho a partilhar a sua relação com os livros era a motivação que eu precisava para começar a semana. Não conhecia o podcast conduzido por Inês Bernardo e José Mário Silva, mas gostei muito do tom descontraído que esta conversa assumiu — ficaria mais tempo.
Os Segredos da Seita do Yoga
O novo Podcast Plus do Observador, como partilhei no último número da newsletter, é o «resultado de uma investigação jornalística sobre a ascensão e queda de Gregorian Bivolaru», guru de yoga, narrado por Daniela Ruah. Neste primeiro episódio, ficamos com uma ideia do mundo sombrio para onde seremos encaminhados e eu dei por mim a pensar no quanto a nossa vulnerabilidade é uma atração para aqueles que pretendem lucrar com isso. Por um lado, admito, fez-me confusão como é que certos aspetos não foram um alerta para potenciais problemas, mas, por outro, consigo entender que o desespero cegue de tal forma, que a única solução seja mesmo aceitar todos os termos.
Numa primeira impressão, gostei da construção do episódio, porque equilibra bem os factos com a partilha de testemunhos. Ademais, sinto, serem seis episódios permitirá explorar o assunto, mas sem que se torne repetitivo. Estou curiosa com o que aí vem.
Um episódio para tirar da lista de espera: Quando o privado se torna público: Efeitos na saúde mental (Somos Todos Malucos, de António Raminhos, com Inês Marinho).
[bilheteira]
Mãos no Fogo
Filme exibido no Cine Teatro Eduardo Brazão (Vila Nova de Gaia), dia 4 de fevereiro (quarta-feira), em dois horários: 15h30 e 21h30. Na primeira sessão, o bilhete tem o custo de 2,50€; na segunda, tem o valor de 3,50€.
Matrioska
Guilherme Duarte leva o seu quarto solo de stand up ao Centro Cultural do Cartaxo, no dia 6 de fevereiro (sexta-feira), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 18€.
Concerto Equinócio
A dupla de Aveiro atua dia 6 de fevereiro, às 21h30, no Quartel das Artes (Oliveira do Bairro). O bilhete tem o custo de 5€.
Concerto Rapaz Ego
O artista atua no Plano B (Porto), dia 6 de fevereiro, às 22h30, para apresentar o seu mais recente álbum, Fazer as Pazes. O bilhete tem um custo de 10,61€.
Concerto João Só e Tiago Nogueira
A parceria entre estes dois nomes tem resultado em canções e concertos. No dia 7 de fevereiro (sábado), atuam no Centro Cultural de Carregal do Sal, às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 20€.
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«Mas quem és tu p'ra ser
A minha falta de ar e em mim a culpa toda
De não teres para dar, só dás a quem te ecoa
Eu só queria ser uma parte mas faltaste-me em todas»[in P’ra Sermos 1 Agora, Iolanda]
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