Portugalid[Arte] #129
uma viagem com Manuel Abrantes, as músicas da semana, João Miguel Costa, Palavrão, Aqui Há Crime e sugestões culturais
[estante cápsula]
Na Terra dos Outros, Manuel Abrantes
As boas histórias ficam connosco, embora nos possamos esquecer dos seus contornos mais profundos, visto que há uma memória emocional a recordar-nos desse vínculo. E creio que um dos motivos para que isso aconteça se prende com uma ideia que Afonso Cruz escreveu: «o território inexplorado dentro de nós é acessível através [da] imersão em personagens que nunca fomos e jamais seríamos ou talvez venhamos a ser». E no livro de Manuel Abrantes, que escolhi para o Alma Lusitana, esperava essa dimensão.
Gatilhos: Linguagem Gráfica e Explícita
Na Terra dos Outros é um «diário involuntário», compilando «episódios da vida privada (…) de uma rapariga da aldeia que vai para a capital como criada de servir». Maria do Carmo teve de deixar a família, como tantas outras meninas/mulheres, para encontrar um futuro mais promissor, para encontrar o horizonte que não veria caso ficasse pelo «quotidiano severo no campo». Só que a realidade nem sempre acompanha o propósito.
O título foi um dos cenários onde mais me demorei, porque acredito que acaba por ser um espelho dessa incompatibilidade entre vontade e concretização, entre o propósito com que partimos e a realidade que habitamos. Através da personagem principal, fica claro que há ali um espaço que nunca é bem seu, como se fosse figurante ou, pior, um rosto invisível numa história que sempre destacou mais a necessidade de terceiros. A função principal de Carmo era servir e, por consequência, anular-se ao máximo para que a sua presença não atrapalhasse e isso abre janelas para vários tipos de reflexões.
As dificuldades económicas levam, muitas vezes, não só a aceitar condições precárias, como também a fechar os olhos a comportamentos abusivos. Naturalmente, não quero entrar em generalizações, mas é inegável que nem todas as práticas laborais cumprem o mínimo da decência, que existem patrões que se aproveitam do seu estatuto para se imporem, perpetuando um discurso de superioridade. Encontramos esse retrato aqui, ainda que, sendo justa, também exista quem o desconstrua, mostrando que há quem olhe para as pessoas como pessoas e não como um extrato bancário. Este pensamento, a acompanhar um felizmente que preferi omitir, desencadeou logo outro onde tenho regressado com frequência, uma vez que não deixa de ser curioso, surreal até, termos de valorizar comportamentos que deveriam ser a norma. Problema: atendendo a que não o são, parece urgente destacar o lado humano, caso contrário, a sensação é a de que estamos próximos de o vermos a extinguir-se, aspirado como se fosse só cotão.
O autor, apesar disso, não procurou criar uma personagem santificada, demonizando um dos lados e glorificando o outro, porque estas questões têm várias tonalidades de cinzento. Não obstante, sente-se que esta narrativa precisava de ser concretizada, que a voz da Maria do Carmo não fica restrita ao caminho desta protagonista: representa a vida de todas as que permanecem anónimas. E, enquanto os seus dias se transformam, se repetem, se confinam à realidade dos outros, sempre tão mais imprescindível, veem de longe a história do próprio país a mudar, como se habitassem uma terra estrangeira.
Na Terra dos Outros explora desigualdades, ausências, subserviência, competição e dor, mas também nos faz navegar por um lado diferente, pelo lado de quem cuida, de quem descobre o mundo com uma dose modesta de espanto (mesmo que a principal razão se prenda com a praticidade) e muda toda a sua trajetória por mais uma oportunidade, já que a história não terminou. É um livro sobre conflitos (internos e externos), relações sociais e emancipação, tudo condensado na figura de Maria do Carmo, que se colou à minha pele. Confesso, porém, que gostava de ter encontrado uma coesão maior entre as diferentes partes, porque acusei algumas transições céleres e perguntas pendentes.
🎧 Banda Sonora: A Terra Gira, Os Quatro e Meia | Pela Minha Voz, Carminho
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Vento, xtinto | Olha P’ra Ela, Iolanda | Kiss Me, Maro | Alta Cultura - Mal e Bem, Jimmy P | Escolhas, Capitão Fausto | O Teu Momento, Dealema & Bezegol | Prá Frente, Ana Bacalhau | Todo o Santo Dia, PZ & Samuel Úria | Mina (F.O.Q.Q.), Alex D’Alva | crescer, Rita Onofre | Não Não, Matilde Leite | Nunca Imaginei, Smile & Raptruista.
O álbum: Inverbo, Pedro Abrunhosa & Comité Caviar.
[caixa mágica]
Isto Não é Bem Política
O João Miguel Costa é uma das vozes mais promissoras da comédia, em Portugal, por isso, foi com todo o agrado que o vi anunciar que tem como objetivo lançar um set de stand up por mês. Acredito que, para quem começa a trilhar o seu caminho na área, é uma ótima forma de se dar a conhecer, enquanto vai construindo a sua comunidade.
O primeiro set já está disponível e, tendo em conta que não chega aos 10 minutos, é um excelente aliado para uma pausa entre tarefas — fica a sugestão. Focando-se em questões políticas recentes, sem deixar de incluir uma visão mais ampla, este episódio combina imagens das suas atuações nas duas sessões da Casa da Discórdia nº 55.
[biblioteca sonora]
Palavrão
A Livraria Lello comemorou o seu 120º aniversário, no passado dia 13 de janeiro, e, em jeito de celebração, lançou o podcast Palavrão, conduzido pela Magda Cruz. Visto que «o Porto fala alto e a Livraria Lello ouve e amplifica», unindo-se na palavra, a proposta passa por convidar artistas e pensadores para que desconstruam «os palavrões da sua arte», na Literatura, na História, na Música. Há episódio novo todas as sextas-feiras.
Permitam-me uma breve nota: acho apaixonante quando espaços com tanta história continuam a procurar maneiras de promover a Cultura, de unir a sociedade aos livros, de criar pontes entre diferentes visões e sensações. Senti isso no primeiro episódio e, creio, esse talvez seja o fio condutor que ligará todas as conversas que estão a chegar.
Aqui Há Crime
O «primeiro podcast de crime da SIC» junta Júlia Pinheiro e Marta Gonçalves, para, juntas, reconstituírem «os crimes que marcaram Portugal», revelando os detalhes e dando «voz a todos os pormenores». Assim que a Sofia me enviou a publicação, fiquei logo entusiasmada, contudo, admito, tive uma ligeira preocupação com a duração dos episódios: por um lado, tinha receio que fossem demasiado extensos; por outro, temia que fossem tão curtos que perdessem informação relevante. Mas já a posso descartar.
Os episódios terão diferentes lados e gostei muito da forma como construíram a sua sequência. Além disso, achei particularmente interessante o tom de quem nos está a ler uma história de ficção, mas sem que essa abordagem perca a seriedade jornalística. Sai um episódio novo todas as sextas-feiras e eu vou querer continuar a acompanhar.
[bilheteira]
O Lugar da Incerteza, Patrícia Reis
Livro em pré-lançamento, com entrega prevista a partir de hoje (19 de janeiro). Deixo-vos com uma parte da sinopse: «O palco é Lisboa, o cenário principal, um consultório de psiquiatria: poltrona, sofá baixo de tom amarelo-ocre e um tapete garrido cuja singular relevância para a história é a de aludir aos labirintos em que as suas personagens se veem — e verão — enredadas».
O Pátio da Saudade
O filme é transmitido dia 20 de janeiro (terça-feira), no Centro Cultural de Carregal do Sal, às 16h. Os bilhetes têm o custo de 2€.
Justa
O filme é exibido dia 20 de janeiro, no Cine-Teatro Avenida (Castelo Branco), em duas sessões: uma às 18h, outra às 21h30. O bilhete tem o custo de 4€ em ambas.
Concerto Ana Bacalhau
A artista atua no Teatro Maria Matos, dia 21 de janeiro (quarta-feira), às 21h. Os bilhetes variam entre os 20€ e os 25€.
Baião D’óxigénio
João Baião regressa ao Teatro Tivoli BBVA, nos dias 21, 22, 23 e 24 de janeiro (quarta-feira a sábado): nos três primeiros dias, com sessão às 21h; no último, com sessão às 15h30 e às 21h. Os bilhetes variam entre os 15€ e os 30€ em todas as datas.
Concerto Duque Província
A banda atua dia 23 de janeiro, no Quartel das Artes (Oliveira do Bairro), às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 5€.
Concerto Gisela João
O concerto está marcado para dia 23 de janeiro, no Coliseu do Porto Ageas, às 21h30. Os bilhetes variam entre os 16€ e os 35€.
Napa ao Vivo nos Coliseus
Os Napa atuam no Coliseu do Porto Ageas, dia 24 de janeiro, às 21h. Os bilhetes variam entre os 30€ e os 40€.
Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«Perdeste a coragem no caminho
Tinha a minha para te dar
É que eu não posso esperar, tenho pressa
Dá-me colo, não dores de cabeça»[in Defesa, Bárbara Bandeira]
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