Portugalid[Arte] #128
uma viagem com Joana Bértholo, a banda sonora da semana, Mário Falcão, Richie Campbell, Alta Costura, As Desobedientes, Bumba na Fofinha e sugestões culturais
[estante cápsula]
Natureza Urbana, Joana Bértholo
A necessidade de ir trocar uns livros e um olhar breve pela estante dos de bolso foram o pretexto que me empurrou para uma obra que há muito queria descobrir, não só pela premissa, mas também (e principalmente) por ser da autoria de Joana Bértholo, para mim, uma das vozes femininas mais fascinantes e versáteis da literatura portuguesa.
Gatilhos: Luto
Natureza Urbana apresenta-nos uma mulher cujo nome nunca chegamos a conhecer e a sua intenção de responder à pergunta «como foi que vim aqui parar?». Visto que não é capaz de contar a história de uma forma breve — palavras da narradora —, leva-nos a percorrer os seus passos, a redescobrir partes de uma vida atribulada, das dificuldades que se entranharam em cada poro da sua existência e da relação oscilante com a mãe.
É um conto que se lê num sopro, embora tenha preferido demorar-me um pouco mais nele, embalada pela necessidade que a protagonista tinha de «caminhar devagar», mas que, acredito, ressoará por dentro: primeiro, pelas mudanças recentes e, segundo, pelo tom triste que explica e justifica essa vontade de caminhar devagar, e que acaba a abrir a porta para um conjunto de acontecimentos inquietantes. Se, por um lado, parece que esta mulher abraça uma espécie de libertação, contactando com um mundo que lhe foi vedado, por outro, ecoa a sensação de serem inquebráveis as amarras que a revestem.
Nós, enquanto leitores, enquanto observadores indiretos de uma narrativa que escala sem pressas, vamos por onde a sua voz nos direciona, descobrindo as direções que se transformam em destinos e os pontos de luz que trazem esperança e novos estilhaços. Em simultâneo, vamos refletindo sobre luto, solidão e desigualdades; sobre afeto (ou a falta dele) e diferentes tipos de relações (familiares, sociais, urbanas). A premissa deste conto parece simples, no entanto, ramifica várias camadas e sinto que nos predispõe a debater a maior parte delas, visto que também nos confronta com os nossos valores.
Natureza Urbana impactou-me pela dúvida, pelo que fica em suspenso, pelo tom que se estreita ao conformismo na mesma medida que o vai rejeitando. Creio que este livro é sobre crescermos em meios inóspitos e sobre sermos capazes de calar as palavras que foram repetidas tantas vezes, que passamos a acreditar que nos definem por inteiro.
🎧 Banda Sonora: Casa no Campo, Capicua & Mistah Isaac (Versão Acústica) | A Vida é Hoje, A garota não | Devagar, Ornatos Violeta
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Nome, Harold | Marcha, Bárbara Bandeira | Alta Cultura - Na Via, Jimmy P | Sonhos, Dengaz | Anestesia, Rita Santos.
Os álbuns: Bairro das Flores, Bandidos do Cante | Bola de Bilhar, Nunca Mates o Mandarim.
[caixa mágica]
Menino de Ouro - Mário Falcão
O nome Mário Falcão desperta-me uma memória muito particular: o meu professor de Geografia do secundário, que foi, provavelmente, dos seres humanos — e profissionais — mais fascinantes que encontrei no meu percurso académico. Se calhar, não fiquei a saber imenso da disciplina, mas deu-me mundo e, olhando para trás, acho que sempre encontrou uma forma de interligar os conceitos do programa nas conversas que tinha com a turma, durante os 90 minutos de aula. Mas este texto não é sobre ele, é sobre o Mário Falcão humorista, de quem não tinha ouvido falar até me começarem a aparecer vídeos no tik tok. Como até gostei de alguns momentos, resolvi ir assistir ao especial.
Menino de Ouro é o seu espetáculo de estreia, abordando «temas que marcaram o seu crescimento e o mundo atual». Assim, tão depressa o ouvimos a falar sobre o facto de ter nascido nos anos 90 e da sua família disfuncional, como o ouvimos a falar sobre música, artistas e trivialidades. Ser adulto não é uma tarefa fácil, mas contactar com a sua visão tão cómica acerca de assuntos mais ou menos sérios e complexos até nos dá um certo alento, quanto mais não seja porque nos mostra que temos margem para rir das situações (ainda que não aconteça no imediato) e porque sabemos que não estamos sozinhos, que já estivemos naquele lugar e existe alguém que percebe o que sentimos.
Fiquei surpreendida com o ritmo e a forma como equilibrou experiências gerais com experiências pessoais. Tem espaço para evoluir, mas sinto que, para primeiro solo de comédia, apresentou um texto bastante consistente, coeso e, também, relacionável.
Richie Campbell Live in London
As saudades que eu tenho, não da minha alegre casinha, mas de um concerto do Richie Campbell são muitas e impossíveis de omitir quando, numa quinta-feira à noite, dou por mim extasiada a assistir ao vídeo do concerto que deu em Londres, no ano passado.
É dos artistas que acompanho há mais tempo, dos que nunca podem faltar nas minhas playlists e dos que não me desiludem. Era ter um concerto dele todos os meses e nunca seria triste (talvez não fosse assim tão linear, mas vocês percebem), visto que a energia que transmite para o público, tão entrelaçada às suas canções, é sempre contagiante; visto que é sempre uma viagem emocional que desperta diferentes estados de espírito, sensações e memórias. As letras podem não ser todas percetíveis, mas é incrível como isso nunca é uma fronteira que impeça de compreender — e abraçar — a mensagem.
Claro que uma gravação não substitui a presença, claro que, por melhor qualidade que tenha, nunca transmite a totalidade do ambiente e do espetáculo em si, mas assistir a este concerto, sabendo que foi a concretização de um objetivo antigo e sentido que a plateia vibrou em cada segundo, só podia impactar. E como é que não ficaria rendida se ainda incluiu o Blame It On Me, um dos meus temas favoritos de sempre? Adorava ter estado lá, ainda assim, não sendo possível, este vídeo deu para encurtar a distância.
É altamente provável que regresse a este concerto muitas vezes durante o ano.
1 ano de Alta Costura
Alta Costura, o álbum que uniu Van Zee e Frankieontheguitar, celebrou um ano desde que foi lançado (10 de janeiro de 2025) e, para comemorar a data, decidiram lançar os videoclipes que faltavam. Assim, podemos assistir à viagem visual de Atitude, O Amor é mm Assim, Mas…, Ainda Prendes o Cabelo e Fica Só. Que bela forma de fechar o ciclo.
[biblioteca sonora]
As Desobedientes
As «boas meninas vão para o céu, as más mudam a história», sinto, é o mote perfeito para o novo podcast da Rádio Observador, As Desobedientes, contado por Margarida Vila-Nova, Maria João Lopo de Carvalho e Alexandre Borges, ao longo de 12 episódios.
O fio condutor que inspira estas conversas é o livro As Revolucionários, de Maria João Lopo de Carvalho, centrado em 12 personalidades femininas inspiradoras que, à sua maneira, foram fazendo as suas revoluções e quebrando barreiras na sociedade. Uma vez que queria apostar em projetos diferentes, achei que esta proposta seria uma boa forma de começar, até pela hipótese de descobrir nomes que não tenho tão presentes.
Não vou entrar em grandes detalhes, para não comprometer as narrativas, mas fiquei com a sensação de que existirá um excelente equilíbrio entre a parte informativa e a parte de entretenimento. Além disso, ainda que possamos não concordar ou não nos rever nas atitudes destas mulheres, creio que abrirá a porta para debates interessantes.
Sai um episódio novo todas as segundas e estou muito entusiasmada para acompanhar.
[cartaz]
Sombra, Bumba na Fofinha
A Bumba na Fofinha montou o carrossel e convidou-nos para uma segunda volta no seu espetáculo. Uma vez que queríamos descobrir que novas sombras traria para o texto inicial, aceitamos o reencontro, sem qualquer hesitação, na Super Bock Arena.
Não creio que faça sentido estar a desenvolver uma consideração detalhada acerca do solo, até porque, como seria de esperar, grande parte das histórias já tínhamos ouvido e reforçaram tudo o que escrevi na newsletter 63. Não obstante, permitam-me apenas destacar o quanto continuo fascinada com a sua forma de narrar as peripécias que lhe aconteceram, o que mudou, que angústias surgiram, que lugares emocionais passou a habitar, porque fá-lo com naturalidade, a dose certa de exagero e uma graça que lhe é mesmo natural. Acho impressionante a cadência e a sua capacidade de interligar tudo como se fosse a sequência mais óbvia. Além disso, agrada-me que não tenha qualquer receio de levar o texto para uma parte mais emocional, porque não compromete o seu lado cómico, risível. Esta sensibilidade, para mim, faz com que se sobressaia no meio.
O palco fica-lhe bem e mal posso esperar para a descobrir num futuro solo de stand up.


[bilheteira]
Festival Na Minha Casa
A segunda edição do festival começa hoje (12 de janeiro) e prolonga-se até ao dia 3 de fevereiro, com espetáculos todas as segundas e terças-feiras, sempre às 21h. Durante esta semana, no Teatro Armando Cortez, atuam Cuca Roseta e Ruben Alves (12/01) e Herman José (13/01). Os bilhetes custam 25€ e a receita reverte para a Casa do Artista.
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas
A peça do Tiago Rodrigues está em cena na Culturgest - Auditório Emílio Rui Vilar, de 12 a 17 de janeiro (segunda-feira a sábado). As sessões, neste momento, encontram-se todas esgotadas, mas partilho para, caso vos interesse, ficarem atentos a eventuais lugares libertados mais perto da data (não sei se acontecerá). Os bilhetes custam 25€.
Mães Solteiras
O concerto, no qual será apresentado o álbum Vamos Ser Breves, está marcado para 16 de janeiro (sexta-feira), às 21h30, na sala M.Ou.Co (Porto). Os bilhetes custam 12€.
Concerto Luís Severo
A Casa Cheia convidou «artistas a fazerem uma residência artística, de duas semanas, que resultará num projeto inédito». A partir do mote «Fim dos Tempos», Luís Severo apresenta a sua proposta dia 17 de janeiro, às 21h, na Casa Cheia — bilhetes no site.
Concerto Ricardo Ribeiro
O fadista tem concerto marcado para dia 17 de janeiro, às 21h30, no Centro das Artes do Espetáculo, em Sever do Vouga. Os bilhetes têm o custo de 15€.
Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«Dobra-me a folha, pergunta: “Quantos queres?”
Escolho ser feliz, no quadro que tu quiseres
Com tantas dobras, comecei-me a pеrder
O Origami desfez-sе»[in Origami, VSP AST]
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