Portugalid[Arte] #127
uma viagem com um breve recado, José Saramago, João Gesta, a banda sonora da semana, Capicua, A Garota Não, 2006 foi há 20 anos, Luana do Bem, dois episódios de podcast e sugestões culturais
[quadro com recado]
Buy Me a Coffee
Uma das minhas resoluções era combater a síndrome do impostor a pairar, sobretudo, no que concerne a receber dinheiro por aquilo que crio aqui. Em 2025, quase cheguei lá, mas depois fui adiando porque me parecia descabido cobrar por algo que construo a partir de casa, sobre conteúdos que leio/ouço/vejo sem pretensões de maior, apenas por gostar ou ter curiosidade em descobrir. E como não queria usar as mensalidades definidas pelo substack, por me parecerem inflexíveis, continuei no mesmo registo.
Conversei muito sobre o assunto, ao longo do ano, e cheguei ao compromisso que me parece mais confortável: o Buy Me a Coffee, que é uma plataforma que permite pagar a um criador de conteúdo de forma regular ou esporádica, na qual as pessoas escolhem o valor que lhes parece mais justo ou mais adequado dentro do seu orçamento. Assim, na lógica de me pagarem um café — preferi pedir um macchiato — podem contribuir para a Portugalid[Arte] se gostarem do que faço e quiserem apoiar o meu trabalho.
No final de cada newsletter, deixarei o link para a minha conta. Obrigada 💜
[estante cápsula]
Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago
A minha relação com José Saramago é intermitente, mas tinha curiosidade em relação a uma das obras que mais vezes me aparece como recomendada, até porque a premissa entusiasma. Assim, trouxe-o da Feira do Livro e foi uma das últimas leituras de 2025.
Gatilhos: Linguagem Gráfica e Explícita
Ensaio Sobre a Cegueira transporta-nos para um cenário distópico, quando um homem «se encontra no seu carro no meio do trânsito» e «fica cego, inexplicavelmente». E esta cegueira que começa por ser individual amplia para uma dinâmica coletiva, o que não só instala o pânico, como também levanta muitas questões acerca da sua origem. Num mundo sem tempo definido e com personagens sem nome, passamos a andar à deriva.
O contraste entre aquilo que se espera da sociedade numa calamidade e a forma como as pessoas se comportam é surpreendente, porque a gestão das expectativas continua a ficar desfasada. Ou seja, acreditamos que este mal comum possa ser um gatilho para sermos mais empáticos, mais conscientes do outro e dos seus problemas, no entanto, a lei da sobrevivência e as necessidades particulares imperam. E isso ficou muito claro, por exemplo, na altura da pandemia — ao avançar na leitura foi impossível não pensar nessa realidade —, porque sinto que nos fechamos ainda mais, permitindo que o tom egocêntrico e pouco tolerante conquistasse espaço. Portanto, consciente de que o livro foi escrito antes, achei interessante que me permitisse estabelecer tantas comparações.
Outra camada que se destaca é a capacidade de transcender a cegueira física para algo mais profundo, para algo que não precisa de ser quase palpável, mas que se revela em demasiados aspetos do nosso quotidiano: até podemos ser capazes de ver, porém, será que estamos mesmo a olhar para a situação, para a paisagem, para os contornos que se desenham à nossa frente? Não estaremos somente a ver aquilo que mais nos convém?
O que não funcionou comigo foi sentir que o autor estendeu as deambulações (e teve algumas cenas gratuitas). Talvez tenha existido a intenção de mostrar que, em certas epidemias, o ser humano é capaz de ter comportamentos mais bizarros e deploráveis, mas o impacto perdeu-se conforme foi perdendo o foco nessas reflexões. Não deixei de ficar impressionada com o retrato tão certeiro que Saramago conseguiu traçar da sociedade, só gostava de ter encontrado um enredo mais equilibrado no seu ritmo.
Ensaio Sobre a Cegueira tem uma história intemporal e transversal a outros contextos, não obstante, faltou-me algo que me entrelaçasse à travessia destas personagens — e, se calhar, um tom menos moralistas, porque, efetivamente, precisamos uns dos outros.
🎧 Banda Sonora: Prism, Tim Hecker | Vital, Gouper | Lullaby, Low
Uma Falha nos Dentes, João Gesta
A Feira do Livro do Porto tem figuras incontornáveis, nomes que citamos de cor, uma vez que os reconhecemos como parte essencial da sua história, como é o caso de João Gesta, o coordenador da programação do evento. Habituada a vê-lo pela Avenida das Tílias e pela Biblioteca Municipal Almeida Garrett, senti que tinha chegado a ocasião de descobrir a sua voz poética, lendo o volume que integra a coleção elogio da sombra.
Gatilhos: Linguagem Explícita
Uma Falha nos Dentes é um nome que nos transporta logo para um espaço vazio, para algo que parece estar em falta e que pode (ou necessita de) ser preenchido, quem sabe, substituído. Com textos escritos entre 1993 e 2018, e integrando alguns inéditos, não deixa de ser curioso que esta brecha seja já um convite para abraçarmos a imperfeição.
Filipa Leal, na nota introdutória, realça que Gesta está sempre a pensar «noutra coisa» e eu achei particular graça a esse jogo, porque, em boa verdade, não somos capazes de prever para onde escalarão os seus pensamentos, as suas observações. Mesmo quando as imagens dos versos nos parecem óbvias, existe uma margem para duvidarmos, para questionarmos a pertinência das nossas associações e para nos deslumbrarmos com a possibilidade de haver uma camada sobre a qual não pensamos. Tendo ou não vivido o arco temporal que o poeta explana, há referências que se tornam próximas, visuais, e isso não só demonstra a sua atenção à realidade, mas também o dom de a desconstruir.
A partir do erro, ironiza, provoca, rima, satiriza, entrelaça imagens improváveis, usa trocadilhos, escreve sobre sensualidade e sexualidade sem filtros, sem temer qualquer noção do ridículo, porque está confortável na sua pele. A obra, sem estar certa disto, não me parece autobiográfica, mas creio que beba de várias experiências vividas na primeira pessoa — ou vistas na primeira pessoa — e isso torna a leitura um pouco mais íntima, visceral, até na maneira como nos arranca gargalhadas. Honestamente, acho que nunca me tinha rido tanto a ler poesia e isso, admito, tornou-se refrescante.
Outro aspeto interessante do livro, para mim, é o «lugar da rugosidade», é o facto de ser «humano, demasiado humano», como destacou Sérgio Almeida, atendendo a que não procura embelezar as situações, da mesma maneira como não pretende cobri-las com um manto sombrio, pouco esperançoso. Talvez, aqui, as coisas não sejam bem o que aparentam ser, mas não é por isso que perdem impacto e uma certa crítica social.
Uma Falha dos Dentes, parece-me, quebra um pouco os padrões daquilo que é poético, é revolucionário e «contracultura», mas vira-nos do avesso e mostra-nos ângulos que não são tão usuais. Gostei, particularmente, dos poemas Afinal Havia Outra, Coimbra B e Descubra o Analfabeto Que Há em Si e fiquei com a sensação de que, embora não me mude a vida, este livro diminui as fronteiras entre o que é erudito e coloquial e «não admite preconceitos», aproximando-nos do mundo que somos sem qualquer pudor.
🎧 Banda Sonora: Coimbra B e Desvio na Mealhada, Nunca Mates o Mandarim
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: póano, O Simples Mente | Vendaval, Cateto | Memórias, Rodrigo Mira | Casa dos 20, bapcat & Russo (2025).
Os álbuns: Por Fora Ninguém Diria, Miguel Araújo | RAPHANUS RAPHANISTRUM, Filipaa Mon Sant (2025) | Mogno, Denise (2025).
[caixa mágica]
Capicua e Sopa de Pedra - Souvenir
A canção Souvenir foi uma das que marcou Um Gelado Antes do Fim do Mundo, o álbum da Capicua. Para terminar o ano, partilhou o videoclipe que a junta às Sopa de Pedra.
Quem Nesta Aldeia Morar
A garota não lançou Ferry Gold e não se quis forçar «a escolher um tema para servir de single», quebrando um pouco a corrente que depois os atira para a qualidade de «faixa solitária no meio da miríade de playlists onde, com sorte, consegue entrar». Por esse motivo, acabou «por não ter telediscos» e desafiou o Pedro E. Semedo para criarem um formato alternativo. Foi assim que chegaram a esta curta metragem extraordinária. O álbum conta uma história muito específica — ou várias interligadas pelo mesmo tema — e acredito que este trabalho audiovisual espelha bem essa energia. Fiquei rendida.
2006 Foi Há 20 Anos - Quero Lá Saber #62
A tradição mantém-se, por isso, o meu ano só começa verdadeiramente quando assisto ao Foi Há 20 Anos, do Diogo Batáguas. Chegamos a 2026 e isso significa, portanto, que passou em revista o ano de 2006, onde aconteceram coisas tão díspares como nevar em Portugal, surgir a versão portuguesa da Floribella, o Manzarra ganhar o CC Casting, a Bebé Lilly e a estreia do próprio Batáguas na comédia televisiva. Ademais, foi um ano marcado pela morte de Francisco Adam e pelo homicídio de Gisberta Salce Júnior.
Crente, Luana do Bem
O Relatório DB deu-me a conhecer a Luana do Bem e, assim, passei a estar mais atenta aos seus projetos individuais. Como resultado das sessões do Talvez Resulte — e de um ano a integrar a tour Processo, do Diogo Batáguas — lançou um pequeno set de stand up, o que me pareceu uma ótima forma de conhecer um pouco melhor o seu humor. E a verdade é que me deixou com vontade de ver uma versão mais longa. Quando veio ao Porto com o seu primeiro solo, não consegui alinhar a agenda para a ir ver, no entanto, começou 2026 a disponibilizar o seu espetáculo, gravado no Tivoli BBVA, no Youtube.
Crente começa no tom certo, com uma música de abertura que nos faz acreditar que o texto tem tudo para ser hilariante (e eu nem gosto da artista em questão, mas a versão que a Luana escolheu é maravilhosa e, mais do que isso, apropriada para o momento). Portanto, o início prometia e a humorista cumpriu em todas as sequências. Sei que é injusto estabelecer uma comparação com o set que mencionei no parágrafo anterior, quer pela duração, quer pelo contexto, contudo senti-a mais confiante e descontraída. Além disso, fiquei com a sensação de que interligou as histórias com maior coerência.
O texto está mesmo bem escrito e acho que isso se nota pelas narrativas que utilizou: por si só expõem memórias engraçadas, mas é a ligação entre cada uma delas que nos desarma, porque torna a experiência mais próxima e, até, visual. Com inteligência, a Luana explora perspetivas inesperadas e ângulos novos, por vezes, pouco confiáveis. Ou será que podemos confiar em tudo o que contou em cima daquele palco? A dúvida fica a pairar, mas há uma certeza que se sobrepõe: a capacidade de comunicar e cativar.
O impacto deste solo, para mim, também passa pela interpretação, porque as palavras ganham vida no modo como as transfere para o público, como as reveste de um certo exagero e como as entoa. De uma forma muito natural, a sua expressividade transmite-nos a sensação de estarmos a viver aquelas histórias na mesma altura e com a mesma intensidade — de repente, é como se fossem nossas também. A Luana consegue ser bastante enérgica a contar as suas histórias e sinto que, aqui, usou isso a seu favor.
Crente tem um lado intimista que me agradou e, pela consistência, fez-me rir do início ao fim. Sem querer comprometer a experiência, permitam-me apenas este levantar de véu: todo o segmento eu estive lá, acerca da Casa dos Segredos, é épico. Aliás, sinto que é um dos pontos altos, embora o solo esteja cheio de pérolas memoráveis. Creio que a entrega e os tempos foram pensados ao detalhe e é por esse motivo que resultam tão bem. Ademais, achei brilhante a forma como construiu o significado do nome do solo.
O Bom Partido também está de regresso, desta vez, em modo Presidenciais.
[biblioteca sonora]
A lista de episódios em espera diminuiu drasticamente, sinal de que a transição para um novo ano estava à espreita, porque aproveito sempre a ocasião para só deixar os que sei que ainda tenho interesse em ouvir. Assim, para além dos podcasts habituais, dediquei-me a duas conversas que adorei acompanhar — muito pelos intervenientes.
Como episódio prioritário, para ouvir durante a semana, tenho a conversa de Miguel Nabinho com Ricardo Araújo Pereira, no podcast Que País é Este (há versão vídeo).
[bilheteira]
À Primeira Vista
O monólogo interpretado por Margarida Vila-Nova está em cena no Teatro Maria Matos, durante esta semana, nos dias 5 (segunda-feira), 6 (terça-feira) e 7 (quarta-feira) de janeiro, às 21h. Os bilhetes têm o custo de 20€.
Bridezilla
Jessica Athayde atua no Teatro Villaret, esta semana, nos dias 5 e 6 de janeiro, às 21h. Os bilhetes têm o custo de 18€.
Jasmim
O cantor atua na Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva (Ericeira), no dia 7 de janeiro, às 21h30. Os bilhetes têm o custo de 5€.
Kilt Teste
As noites de stand up comedy com a curadoria da Kilt têm data marcada para dia 7 de janeiro, às 21h30, no Hot Five Jazz & Blues Club (Porto). Bilhetes a 9€.
Concerto Lázaro
O músico atua no Tokyo Bar (Lisboa), no dia 8 de janeiro (quinta-feira), às 22h. Há bilhetes a partir dos 5€.
Sombra
A Bumba na Fofinha está de regresso à Super Bock Arena, nos dias 9 (sexta-feira) e 10 (sábado) de janeiro, às 21h30. Os bilhetes variam entre os 20€ e os 30€.
Dois Pares de Botas
Nena e Joana Almeirante atuam no Teatro Municipal de Bragança, no dia 10 de janeiro, às 21h. Os bilhetes têm o custo de 11€.
Orquestrae com FF
A Filarmónica do Alqueidão junta-se à Orquestra de Jazz da EACAE e recebem o FF como convidado, em mais uma sessão da Orquestrae. O concerto está marcado para o dia 10 de janeiro, às 21h30, no CAE da Figueira da Foz. Bilhetes a 15€.
Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«Eu não sabia que dançar era por dentro.
Eu não sabia que dançar era até ao fim»
[in Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, Filipa Leal]
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