Portugalid[Arte] #126
uma viagem com Ana Rita Areias, a banda sonora da semana, Raptuga em 25', Crente na Estrada, Tia Bli, sugestões culturais e o Era Uma Vez do mês em modo favoritos do ano
[estante cápsula]
Dar a Volta aos Medos, Ana Rita Areias
As histórias florescem sem que sejamos capazes de as controlar. E eu gosto da ideia de uma narrativa que tem força suficiente para criar raízes por dentro e que apenas nos permite descansar quando a passamos para o papel. Foi mais ou menos neste embalo que a Ana Rita Areias construiu o seu terceiro livro, que tão gentilmente me ofereceu.
Gatilhos: Luto, Referência a Violência Doméstica, Bullying
Dar a Volta aos Medos concentra-se em Afonso, «um rapaz que cresce entre silêncios e ausências, mas também entre o amor e as palavras que nunca foram ditas». Oscilando entre a inocência da infância, os desafios característicos da adolescência e a vontade de assumir o controlo da sua vida adulta, libertando-se das feridas do passado, vemo-lo a socorrer-se das memórias para ressignificar aquilo que não aprendeu a nomear.
É curioso como o silêncio tem tanto a dizer, como agrega tantas camadas e nos molda o futuro. Acho que é algo que tenho sentido com a passagem do tempo, embora não haja aqui um peso acrescido, uma ferida aberta pelas palavras que ficaram suspensas. Ao contrário do protagonista, sei que a minha jornada foi feita com muitas presenças, mas isso não me impediu de compreender a sua solidão e o seu mecanismo de defesa: ter na literatura um refúgio, uma fonte de esperança. E comoveu-me o pedido que fez ao pai, porque acho que foi uma tentativa de preencher vazios e de estreitar laços; foi uma maneira muito humilde e serena de mostrar que o que lhe falta tem significado.
Acredito que este envolvimento com o enredo também se prende com a sensibilidade da escrita da autora, que procurou abordar os temas delicados com humanidade e sem traços de condescendência. E, com naturalidade, vamos refletindo sobre inseguranças, medos, a sensação de ficarmos para trás quando as nossas pessoas avançam, traumas e perguntas que ficam por fazer — independentemente dos motivos; vamos refletindo sobre alicerces, sobre família e sobre o quanto pode demorar o nosso processo de cura.
Dar a Volta aos Medos tem uma estrutura fragmentada, como se Afonso fosse abrindo o álbum e se demorasse numa imagem. Embora goste dessa abordagem, gostava de ter encontrado uma narrativa mais coesa, que nos permitisse mergulhar ainda mais fundo nos momentos e no seu verdadeiro impacto, mas, se calhar, o mais importante não são os acontecimentos, são «as vozes que nos guiam» através deles. Preferências à parte, o livro não perde a carga emocional, nem a capacidade de nos centrar em temas cruciais.
🎧 Banda Sonora: Venho Falar dos Meus Medos, Ana Moura | Brave, Sara Bareilles | A Pele Que Há em Mim, Márcia & JP Simões | Há Sempre Um Fardo, Capitão Fausto
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Balada de Um Gajo Invisível, Tatanka | Coimbra B e Desvio na Mealhada, Não Mates o Mandarim.
O álbum: Volume II, Avalanche.
[caixa mágica]
Raptuga em 25’
O RICHIEP quis terminar 2025, à semelhança do que já tinha feito, com um recap do que foi lançado ao longo do ano, dentro do Hip Hop nacional. Cada vez mais alinhada com estas origens, ou não tivesse sido o meu género mais ouvido, sinto que 2025 foi prolífero em músicas extraordinárias e soube bem vê-las entrelaçadas neste set.
Crente | Na Estrada
A Luana do Bem andou em tour com o seu primeiro solo de stand up comedy, Crente, que disponibilizará no Youtube, na próxima sexta-feira (2 de janeiro). Para aguçar a curiosidade, lançou Na Estrada, que nos mostra «partes do caminho para lá chegar».
[biblioteca sonora]
A Tia Bli traz conselhos, histórias hilariantes e uma mensagem de Natal imperdível! Estou cada vez mais fã desta personagem, que é uma lufada de ar fresco na comédia.
[bilheteira]
Impossível ao Vivo
Luís de Matos, durante a semana, tem várias sessões para o seu espetáculo no Teatro Tivoli BBVA. Os bilhetes variam entre os 16,50€ e os 29€ em todas.
30 de dezembro (terça-feira), às 21h;
1 de janeiro (quinta-feira), às 18h;
2 de janeiro (sexta-feira), às 21h;
3 de janeiro (sábado), às 11h, às 16h30 e às 21h;
4 de janeiro (domingo), às 11h e às 16h30.
Taskmaster - Especial Fim de Ano
O Taskmaster «recebe 2026 em festa com um programa inédito», no dia 31 de dezembro (quarta-feira), a partir das 22h, na RTP e na RTP Play.
[era uma vez: favoritos do ano]
O meu ano fez-se de muitas peças interligadas, que foram impulso de motivação, de descoberta, de paz no meio do caos. Quando chega a esta altura, e me sento para ver o que mais me marcou, em diferentes áreas, há sempre um aconchego diferente, porque é como se tivesse a oportunidade de regressar ao passado e experienciar novamente as sensações que me despertaram na altura — sabendo, claro, que nunca serão iguais, até porque se cobrem de uma familiaridade que se sobrepõe ao deslumbramento inicial.
Assim, embalada neste balanço retrospetivo, deixo-vos com os meus favoritos do ano.
os livros
Educação da Tristeza, Valter Hugo Mãe: É um objeto visualmente lindíssimo, cheio de cor, de vida e de memórias que nos amparam e que trazem esperança. Com ilustrações de Valter Hugo Mãe, parte da ausência para nos fazer refletir sobre o quanto a nossa vida é cheia por termos tido aquelas pessoas por perto. Também é por isso que a sua perda nos magoa mais, mas continuo a acreditar que as saudades partem de um lugar benigno, de um amor que é incondicional. O quotidiano fica fragmentado, mas nunca esqueceremos;
Filho do Pai, Hugo Gonçalves: Há uma análise quase sociológica, mas sem perder a emotividade, o traço familiar, o impacto da perda, as nossas idiossincrasias, as nossas incoerências, fruto de um crescimento que é sempre mais emocional do que racional. E enquanto nos implica numa conversa sobre parentalidade, faz-nos observar toda a estrutura familiar, faz-nos pensar sobre as feridas que continuam abertas, ainda que nos incomodem com menos ardor, faz-nos voltar às coisas que nos dizem e que ecoam uma vida inteira, moldando o nosso caráter, as nossas certezas, as nossas carências, tudo o que somos;
Lobos, Tânia Ganho: É curioso constatar que este livro é mais sobre os silêncios e a forma como as pessoas lidam com os seus traumas, com os seus demónios, e não tanto sobre a situação em si, porque aquele momento termina, mas a vergonha, o medo, o desgaste, o desamparo, a sensação de perdermos a nossa identidade e, inclusive, o gosto por viver persistem e fazem com que as feridas continuem expostas, a magoar. E este livro dói, embora não queiramos parar de o descobrir, porque talvez a esperança encontre o seu espaço;
Perguntem a Sarah Gross, João Pinto Coelho: Creio que me cruzei com protagonistas que dificilmente esquecerei, porque, acima de tudo, o livro é sobre elas, sobre as suas histórias, sobre as suas dores, sobre a forma como resistiram às mais diversas circunstâncias. E sem que seja possível esquecer, também, este período histórico, fica evidente que não estamos perante mais um retrato dentro do tema: o autor trouxe uma perspetiva que parece estar em falta;
Apesar do Sangue, Rita da Nova: A minha mente divagou muito durante a leitura, porque sinto que é um livro capaz de desencadear vários debates: sobre maternidade, sobre a necessidade de preenchermos vazios, sobre fissuras, sobre diferentes tipos de dor, sobre como aquilo que não vemos condiciona a nossa perceção das situações, sobre dinâmicas familiares e sobre amor. Existe muita tristeza nesta história, no entanto, o amor é força motriz em muitos dos seus momentos, aliás, só isso justifica a forma como se foram curando algumas feridas.
as músicas
tua falta, ed & Lhast;
Deslocado, NAPA;
de noite, VASCO;
Doutros Tempos, Dealema;
Meu Amor, Dorme Bem, Os Quatro e Meia;
Lento, Vanyfox & Ana Moura;
Insomnia, Richie Campbell;
do raso ao fundo, Mariana Nolasco & Maro;
Cacau, Deejay Telio & Slow J;
lado a lado, ed;
Saudade, Gama WNTD;
Aura, BUH BUH;
Avisem Que Eu Cheguei, Sara Correia;
Depressa, Pikika;
Assunto Meu, xtinto.
os álbuns e ep’s
Violetta, Lhast: Parafraseando um dos temas que o compõem, tem inocência e maldade na dose certa. É leve, mas também é introspetivo. É generoso, honesto e enigmático e eu tenho estado a viver nas suas canções desde que saiu. Há uma viagem de autodescoberta incrível e acredito que seremos capazes de descobrir novas camadas a cada nova audição, porque as letras são feitas de subtilezas e porque o seu lado criativo abriu portas que ainda não tinham sido exploradas. O futuro pode ser incerto, no entanto, Violetta guia o caminho;
Alta Costura, Van Zee & Frankieontheguitar: Um trabalho bordado com mestria e originalidade. Ao reinterpretarem temas que fazem parte do nosso panorama musical, criam pontes entre o passado e o presente e conseguem unir visões distintas, que se encontram a meio do caminho. E eu acho sempre interessante perceber como é que o mesmo tema chega às pessoas;
Um Gelado Antes do Fim do Mundo, Capicua: A Capicua é uma das artistas da minha vida e este álbum veio reforçar essa certeza, porque é poético e interventivo, porque é cru e emocional, porque nos abala por dentro enquanto não deixa de plantar uma semente de esperança. O mundo está em colapso, é preciso resistir aos tempos conturbados e estas canções resgatam-nos do abismo, mostrando como a arte é uma arma;
Wonder, Papillon: O conceito de criar um álbum de Palíndromos (palavras que são iguais de trás para a frente) é já um indicativo da criatividade do Papillon e desta vontade de arriscar e de chegar a novas camadas na sua arte. Com temas que nos inquietam, que nos fazem pensar sobre sonhos, relações, transformações, é um trabalho que nos impulsiona a estar em movimento, a reagir e, também, a fazer as pazes com a nossa criança interior;
Sozinha e Mal Acompanhada, Pikika: Para mim, uma das vozes emergentes mais fascinantes. Neste EP, explora o declínio de uma relação, os medos, os pensamentos que ecoam e esta sensação de estarmos sós e a nossa companhia nem sempre ser a mais benéfica;
A Casa Ganha Sempre, Lunn: O projeto de estreia do produtor Lunn chega com colaborações cirúrgicas e uma narrativa plural, que aparenta não ter um fio condutor, mas que se expande nesta ideia de casa e de tudo o que conquistamos quando abrimos a porta e convidamos outras pessoas a entrar;
Desculpa Qualquer Coisa, Ícaro: A sonoridade do Ícaro é muito diferente, o que acaba por ser uma lufada de ar fresco no panorama nacional. Com letras que transbordam referências de várias áreas, raízes e uma linguagem própria, incisiva, sarcástica, é interessante perceber como é que, sem encaixar num molde, as canções se interligam com naturalidade.
os podcasts
Contraluz, Luana do Bem;
Prata da Casa, Luís Franco-Bastos, Vítor Sá e André Pinheiro;
As Pessoas Têm Que Se Acalmar, Imediatamente, Tia Bli;
Sem Barbas na Língua, Guilherme Duarte e Hugo Gonçalves (na realidade, foi um reencontro depois de largos meses sem os ouvir).
o filme e as séries
Pátria: A realidade deste argumento apresenta-se como distópica, no entanto, reconhecemos o rosto da opressão, do medo e das várias formas de tortura em diferentes momentos, expressões e diálogos. Mesmo que os cenários assumam um certo exercício criativo, partem de capítulos dolorosos para a humanidade e permitem-nos refletir sobre como seria vivê-los na primeira pessoa. Numa altura em que contactamos com posições tão extremadas, que colocam em causa direitos básicos, é crucial debatê-las, compreender qual é a sua origem e aquilo que lhes dá força para que continuem a minar o presente;
Ruído: A série transborda de subtilezas, mesmo quando parece que as rábulas não são mais do que representações parvas, com o propósito de entreter. Potenciar esse lado de lazer é ótimo e acredito mesmo que nos faz falta, porque talvez nem tudo tenha de ser educativo e profundo, mas acho genial quando, através da comédia, da piada mais ou menos fácil, existem cenários que ficam a ecoar e que nos obrigam a pensar neles;
Rabo de Peixe: Os protagonistas eram pequenos peixes num mar imenso, que lhes exigia um tipo de jogo que não estavam habituados a jogar. Ainda assim, foram-se movimentando com mestria e inteligência, mesmo quando as emoções lhes toldavam a racionalidade. E um dos aspetos que mais me fascinou, para além de todo o contexto do narcotráfico, foi mesmo a relação de amizade que nunca perderam. Aliás, sinto que essa é uma das valências mais poderosas da série, não só porque humaniza o ambiente, mas também porque quebra a tendência subjacente das relações por conveniência tão associadas a este tipo de negócios obscuros. Eles estavam juntos no melhor e no pior, sem reservas;
Espias: É uma série minuciosa, que também nos faz refletir sobre a pertinência destes esquemas pantanosos. Apesar de termos acesso a diversos pontos de vista e narrativas, nunca é fácil identificarmos aqueles que merecem o nosso apoio, porque a causa em si pode ser nobre — e queremos posicionar-nos ao lado daqueles que procuram garantir a liberdade do ser humano —, mas os meios nem sempre acompanham essa luta. Além disso, espelha a hipocrisia política e social, os jogos de poder e a facilidade com que se descartam as pessoas do nosso caminho, quando sentimos que já não nos são úteis. Foram sete episódios muito intensos e viciantes. Preciso de uma segunda temporada;
Situações Delicadas: O argumento oscila entre humor negro e uma ligeira insanidade, sempre com ritmo e um excelente equilíbrio. Aliás, acho que uma das maiores valências da série se prende com a capacidade de tornar credível a falsa leveza com que as coisas se processam. Por vezes, existe um traço de normalidade na tragédia: não por a romantizarem, mas pela forma como transformam os comportamentos atípicos em reações quase lógicas, até necessárias, para continuarem a (sobre)viver. E nós acompanhamos esses conflitos;
Casa-Abrigo: Estas mulheres não esquecem a situação dramática que viveram, muito menos tudo aquilo que foram ouvindo e interiorizando como se fosse verdade, mas entenderão que não são apenas este retrato, que carregam muito mais por dentro. E parte da beleza desta série prende-se com a amizade que Vera, Madalena, Conceição e Gabriela foram construindo, com a empatia que desenvolveram, com a sororidade que as fortaleceu. Na ausência de filtros, por vezes, houve um pouco de amor bruto nas palavras, mas estiveram ali umas para as outras — até quando o silêncio parecia imperar entre elas.
os eventos culturais
O ano do qual me despeço teve algumas exigências emocionais, contudo, foi muito generoso na esfera cultural. Entre concertos, espetáculos de comédia, apresentações de livros, conversas, teatro e sessões na feira do livro, não faltaram programas únicos.
Van Zee no Coliseu do Porto: Tem sido um privilégio vê-lo a navegar e a alcançar o seu lugar no panorama musical português, uma vez que não só lhe reconheço talento, como também sinto que chegou com os valores certos, sem egos e com uma enorme vontade de estar pela música. Por esse motivo, depois de assistir ao seu concerto na Queima das Fitas do Porto, estava desejosa de o ver numa grande sala, com outro tipo de condições, em nome próprio, o que aconteceu em fevereiro, num Coliseu do Porto bem composto;
Bispo no Coliseu do Porto: Uma vez que não era um dos meus artistas-casa, confesso que marcar presença num dos seus concertos não era uma prioridade, mas até essa intenção foi mudando. E, no natal de 2024, fui surpreendida pela minha comadre, que me ofereceu um bilhete para o concerto no Coliseu do Porto. Tenho adorado a experiência de ir sozinha a eventos deste género e, por isso, estava confortável com o facto de ser outro momento assim, mas teve graça quando, ao conversar sobre a surpresa, percebi que era intenção da Sofia perguntar se queria ir. E fomos juntas ouvir os nossos temas favoritos ao vivo;
Capicua na Casa da Música: A Sala Suggia esgotou para receber a rapper portuense e foi extraordinário assistir a este momento, a este feito, não só por ver uma das minhas artistas favoritas ao vivo, mas também por ver a forma como desconstruiu por completo a energia do lugar. A sala é linda e associo-a sempre a espetáculos mais estáticos, se é que é justo dizê-lo desta forma, talvez pela necessidade de permanecer sentada. A Capicua não ficou deslocada naquele palco, mas, como lhe confidenciamos no final, foi bom ver a sua arte a chegar a uma sala que parece estar mais adaptada a outros estilos musicais;
Hotel ao Vivo no Teatro Sá da Bandeira: A podsérie saiu do estúdio para o palco, após 6 temporadas e 81 episódios, para uma despedida especial. E isso, por si só, já seria entusiasmante para mim, porque adoro perceber como é que funcionam os projetos que acompanho de perto, mas acresceu o facto de conhecermos a origem de cada personagem e de termos a possibilidade de ver um episódio integral a ser gravado à nossa frente, com toda a adrenalina e eventuais falhas que essa dinâmica possa significar. O LFB já tem muitos anos de experiência a lidar com o público, porém, não deixa de ser uma aventura com outras exigências;
Lançamento de Outonecer, de Júlio Machado Vaz: Outonecer é uma palavra com uma sonoridade que embala, que abraça, sem esconder a entoação melancólica. E só a sua cadência foi suficiente para despertar a curiosidade, portanto, antes de mergulhar nas memórias que nos reserva, fui ao Teatro Rivoli para assistir ao lançamento do livro, com apresentação de João Luís Barreto Guimarães. Há oportunidades imperdíveis e esta era uma delas, até porque acredito mesmo que as partilhas de Júlio Machado Vaz nos engrandecem. E talvez seja impossível voltarmos ao nosso quotidiano sem nos sentirmos impactados, sem sentirmos que algo mudou: não necessariamente a grande escala, como se regressássemos virados do avesso, mas com a certeza de que nos alargou horizontes e mostrou a vida de outros patamares. Se for para outonecer assim, é um privilégio. Ficaria horas a ouvir Júlio Machado Vaz;
Feira do Livro do Porto: A edição que mais aproveitei, a transbordar de sessões e de concertos memoráveis;
Diogo Piçarra no Noites dos Jardins do Palácio: O Diogo que descobri — e por quem vibrei — no Ídolos continua presente, sobretudo na maneira como se entrega à sua arte, como encara o compromisso com o público, no entanto, cresceu, até porque nunca parou de procurar novas rotas. E fá-lo com verdade. Foi, de facto, uma noite mágica, como são todas aquelas em que tenho o privilégio de o ver a atuar, uma vez que a viagem que fazemos através das suas músicas desarma e é sempre única e eletrizante. Com temas mais ou menos dançáveis, ninguém fica muito tempo parado. Ademais, é sempre comovente escutarmos as nossas canções favoritas ao vivo, porque parece que crescem em nós, parece que temos acesso a uma camada paralela, que só conseguimos descobrir ali, com o artista em palco a viver o momento;
Volto Já, de António Raminhos: Promete «ressignificar o luto e celebrar a vida» e eu creio que cumpriu ambos com naturalidade e relevância, até porque, sem diminuir dores, ajuda-nos a relativizar. E, por vezes, só precisamos de alguém que nos faça sair da nossa cabeça e praticar o denominado «é o que é». Há muitas coisas que não controlamos e nem sempre é fácil aceitar isso, mas havemos de lá chegar e, quem sabe, rir disso. Com um tom intimista e um texto que, creio, conseguirá perdurar no tempo, espero que o Raminhos volte já;
30 Anos de Silence 4: Quando anunciaram um reencontro para celebrar os 30 anos da sua formação, admito, hesitei um pouco antes de comprar o bilhete, porque questionei-me se fazia sentido estar presente, tendo em conta que não vivi de perto o crescimento da banda. Só que, depois, questionei-me se estaria disposta a perder a oportunidade de cantar ao vivo a Borrow ou a To Give, por exemplo, e se estaria disposta a desperdiçar um momento que talvez não se voltasse a repetir. A resposta negativa às duas foi bastante esclarecedora;
À Primeira Vista: O silêncio foi tudo o que me abraçou quando saí do Teatro Sá da Bandeira, porque ver o monólogo interpretado por Margarida Vila-Nova foi ainda mais duro e impactante do que aquilo que idealizei. E, por isso, continuo a processar. À Primeira Vista é um valente e necessário murro no estômago, porque precisamos de mudar o paradigma, porque precisamos de rever a maneira como a lei se posiciona. Os meus pensamentos permanecem dispersos, visto que este texto com tom de denúncia aborda demasiadas camadas revoltantes;
Conteúdo do Batáguas ao Vivo: Foram mais de duas horas de espetáculo, sem pausas, com tudo pensado ao pormenor. Houve muita insanidade, realização de sonhos, trocadilhos de várias escalas, registos comprometedores, aparições e imagens que, uma vez vistas, não se podem esquecer. Só não houve uma visita ao Tutti-Frutti, «que é um bar todo espelhado em Arganil», talvez na próxima tour, mas tiveram muito lampo e uma fonte inesgotável de pimpo;
Dealema com a Banda Musical Leverense: Conhecer artistas pela visão de quem nos é próximo — ou por quem nutrimos alguma consideração — tem sempre um vínculo especial, até porque acabamos por construir novos significados. Os Dealema eram um mundo que não me pertencia, compreendi-os, primeiro, por aquilo que faziam sentir os outros, até que passei a falar no mesmo dialeto que eles, a identificar-me, a compreender os lugares espelhados em cada verso. E, assim, bordei-os na minha história, visto que passaram a fazer parte de quem sou.
«Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir»
[Álvaro de Campos]
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