Portugalid[Arte] #125
uma viagem com Sérgio Barreto Costa, a banda sonora da semana, Três Tristes Tigres (a série), BABELL, quatro episódios de podcast e sugestões culturais
[estante cápsula]
A Blogosfera Portuguesa, Sérgio Barreto Costa
A minha pegada digital tem quase duas décadas, se contar com o saudoso Fotolog, mas só cheguei à Blogosfera em 2009, sem qualquer referência dentro do meio, incentivada por um primo que, para além de escrever, sempre soube que eu era feita de palavras. Já que este ano teve uma jornada blogosférica desafiante, fez-me sentido ir ler o retrato que Sérgio Barreto Costa escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
A Blogosfera Portuguesa centra-se numa época em que «escrever na internet não dava dinheiro», desde o primeiro caso de sucesso, A Coluna Infame, até ao seu auge, no ano de 2008, sem deixar de parte a «migração da maioria dos bloggers para o Facebook e para o Twitter». Uma vez a circular neste ciberespaço, é natural que alguns nomes se destaquem pela relevância e pela popularidade, ou por ambas, mas também é curioso que, sendo um lugar de permanência quase irreversível, porque «uma vez na internet, para sempre na internet», se assista a um desaparecimento silencioso desses blogues.
Comecei no extinto Parte do que sou e, pelo meio, tive projetos paralelos (um dedicado ao Porto e ao Quaresma, outro de fotografia). Quatro anos depois, quando percebi que não queria só partilhar os meus textos ficcionais, mudei-me para As gavetas da minha casa encantada, hoje Entre Margens. Passei por várias fases, sempre agregada à mesma plataforma, e assisti a muitas chegadas e a muitas partidas não anunciadas. Aliás, se for abrir a lista de leitura do blogger, são mais os espaços vazios. Ninguém fechou a porta, não existiram despedidas, mas o curso das nossas palavras seguiu outra rota.
Este livro revelou-se uma espécie de viagem ao passado. Embora não acompanhasse os blogues mencionados, foi interessante descobrir o arco evolutivo, a explicação do êxito, a intencionalidade, a vaidade e, até, o declínio. Com um foco maior no plano político da blogosfera, algo que me surpreendeu, devo confessar, gostei bastante do tom cómico e sarcástico com que o autor construiu o seu texto e resgatou memórias. Não obstante, gostava de ter encontrado uma visão mais diversificada dentro do tema.
O meu lado poético quer muito acreditar que a blogosfera continuará a ter expressão na sociedade, porque haverá sempre alguém a escrever e a manter esta chama acesa. Ainda assim, o meu lado racional reconhece que o seu impacto é totalmente diferente nos dias de hoje. Seja como for, A Blogosfera Portuguesa ajuda a contar parte da história.
🎧 Banda Sonora: Cântico Negro, João Villaret | What Difference Does It Make?, The Smiths | Ana de Amsterdam, Chico Buarque
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: Primavera, Bandidos do Cante & António Zambujo | Amélia, Tiago Nacarato | Sinto-te Tão, Rita Onofre.
O álbum: Entre Nós Deluxe, Bispo.
[caixa mágica]
Três Tristes Tigres
Um momento, ainda que fugaz, basta para colocarmos em causa as nossas «escolhas, princípios [e] liberdades», tal como as protagonistas da minissérie de José Pimentão.
Três Tristes Tigres parte de uma noite improvável e permite-nos conhecer Ana, Teresa e Charlotte, cujos percursos e decisões não só são moldados por crenças sociais, como também influenciam a forma como se relacionam com os outros. Com os seus dilemas a orientarem a narrativa, refletimos sobre amor, sexualidade, comunicação, confiança e relações não-monogâmicas. E se, por um lado, há visões que afunilam para um certo conservadorismo, por outro, temos personagens a dar voz à diversidade, reforçando o quanto o mundo não é feito de lugares estanques, mas que floresce nas áreas cinzentas.
A excitação da novidade é rapidamente condicionada pela culpa, do mesmo modo que a leveza da intimidade fica ofuscada pelo peso da mentira. É neste jogo de sombras, de avanços e recuos, que a história destas três mulheres se constrói, servindo de espelho para as «lutas diárias de muitos portugueses», que continuam a ter de ocultar a sua verdadeira identidade por medo de julgamentos e de opiniões não solicitadas sobre a forma como amam e vivem a sua vida. Em simultâneo, é uma narrativa que retrata a complexidade dos nossos sentimentos, bem como as complicações que deles advêm.
Três Tristes Tigres é composta por três episódios, mas a travessia emocional não tem menos impacto por isso, até porque ficam claros os assuntos que permanecem como gatilho, que levantam questões, que exigem uma mudança urgente. E é dura por ser próxima e sermos capazes de reconhecer outros rostos naqueles lugares — inclusive, poderia ser a nossa história. Cada personagem está em confronto permanente com a pessoa que almeja ser, sem filtros, e vamos percebendo até onde estão dispostas a ir ou o que estarão dispostas a sacrificar para esconder o que ainda não conseguem dizer.
Creio que a minissérie é um ótimo ponto de partida, uma vez que entretém e «invoca discussões necessárias sobre os laços que nos unem e as expectativas que criamos». O final deixou-me em suspenso, pela angústia, e com vontade de saber o que aconteceu após aquele momento. Espero mesmo que esta história ressoe em quem a descobrir.
[gavetas]
BABELL
O Porto é «um lugar profundamente poético e romanesco, berço e casa de muitos dos maiores escritores portugueses». Com o propósito de reafirmar essa identidade, nasce na Cidade-Livro um evento literário e cultural, denominado BABELL, «que acontecerá sobretudo em espaço público, em praças e ruas» do Porto, de 24 a 30 de junho de 2026.
Estou muito entusiasmada com o projeto, não só pela sua essência, mas também pelo cruzamento de manifestações artísticas, atendendo a que estão pensadas conversas com escritores, exposições, concertos, colóquios e perfomances. O «corpo central da programação é internacional», contudo, o cartaz é norteado por «escritores e outros artistas portuenses e portugueses», estabelecendo pontes entre a cidade e o mundo.
Um aspeto que achei curioso no projeto é a maneira como podemos aceder às sessões: feito mediante a compra de livros nas livrarias do Porto. Portanto, não existe um custo fixo de entrada, mas há um compromisso a partir deste gesto simples e simbólico.
Para conhecerem BABELL na integra, aconselho a leitura destas duas publicações.
[biblioteca sonora]
A lista de podcasts em espera continua a aumentar, mas um sábado a cumprir serviços mínimos, entre mantas, chás e tarefas simples de organização literária, ajudou-me a reduzi-la. Portanto, ainda que à distância, sentei-me à mesa com pessoas bastante talentosas, cujo trabalho gosto de acompanhar de perto e que faço por incluir sempre que aparecem neste género de formatos, já que também gosto da forma como pensam e partilham as suas visões sobre diversos assuntos. Não podia ter escolhido melhor!
[bilheteira]
Concerto Solidário com Mountain Valley
A banda atua dia 22 de dezembro (segunda-feira) no Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra), às 18h30. Os bilhetes têm o custo de 10€.
UHF - O Lugar do Rock ao Norte
O concerto está marcado para dia 26 de dezembro (sexta-feira), às 21h30, na Sala Suggia da Casa da Música do Porto. Os bilhetes têm o custo de 25€.
Concerto Fernando Daniel
O artista atua no dia 27 de dezembro (sábado), às 17h, no Forum Braga. Os bilhetes variam entre os 25€ e os 30€.
Concerto Puro L
O artista atua dia 27 de dezembro no Hard Club, na sexta edição da B.I.T.A.I.T.E.S, às 22h (o evento prolonga-se até às 4h). Os bilhetes têm o custo de 12€.
«Fizeste-me falta, mas faz parte
Então faço arte»
[in Espinho, Avalanche, LEFT., Sara Megre & xtinto]
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Super ansiosa pelo Babell 😍😍😍
Bom ano, gosto muito de te acompanhar por aqui! ✨🙌🏼