Portugali[Arte] #158
uma viagem com Sara Duarte Brandão, a banda sonora da semana, Salto de Fé, A Vida Dupla do Espião Traidor e sugestões culturais
[estante cápsula]
Descolonizar o Sujeito Poético, Sara Duarte Brandão
O corpo fragmenta-se em silêncio, numa «lenta e incendiária viagem», mas há algo nas palavras que desencadeia um encontro. Um reencontro, para ser mais precisa, entre as inúmeras versões resultantes desse processo subtil. Como se fossem um sopro frágil e, em simultâneo, indomável, resistem, porque se renovam e Sara Duarte Brandão parece ter encontrado nesse limbo um modo de multiplicar pontes com aquilo que nos habita.
Descolonizar o Sujeito Poético abre o peito e tira-nos o tapete com a mesma rapidez com que nos acolhe e nos abraça na sua travessia. Aliás, leva-nos até às raízes da autora e a «todas as coisas a que não se deram nome», mas sobre as quais não deixou de escrever. Talvez os seus versos sejam uma forma de encontrar essa denominação, já que faz das palavras morada e caminho. E, a certo ponto, transmite-nos uma sensação de conforto perante o naufrágio, como se fosse uma oportunidade para repousar e desbravar novas fronteiras — independentemente da natureza e das coordenadas de cada uma delas.
João Gesta afirma que descolonizar é preciso e eu acrescento que necessitamos de nos libertar do que mantém o nosso coração preso, a temer a vulnerabilidade, quando é ela que nos permite ampliar o debate e descobrir pontos de contacto com os outros e mais focos de luz. A madrugada «vigia-nos os impulsos» e Sara, sem o omitir, traçou na sua poesia um gesto de resistência. Atrevo-me, inclusive, a dizer que teve a ousadia de nos fazer acreditar que também na escuridão é possível sonhar, porque nos ajustamos: não pela conformidade, mas pela capacidade de descermos às profundezas de quem somos.
Estava na página do primeiro poema e já perdida, no melhor sentido possível, a pensar sobre uma das perguntas, atendendo a que não sei para «onde regressam as almas/que nunca saíram do lugar», porque há ocasiões em que me sinto um barco parado no cais a rever sempre o mesmo horizonte. No entanto, onde poderia florescer mágoa, prefiro que haja a convicção de «que um dia vou voltar/aonde nunca fui», como uma promessa que, apesar de semeada em terreno incerto, contribui para a esperança de um amanhã.
Há, aqui, uma noção de futuro que recupera memórias passadas, que nos impulsiona a seguir, porque é forte a certeza de termos onde ancorar. E por entre silêncios, solidão, ausência, distância e o tempo que passa sem pedir, fala-nos sobre sermos livres, sobre perigos e sobre a saudade, com o mesmo cuidado com que nos fala sobre a beleza dos detalhes, cravos e amor. Pode chover por dentro, mesmo assim, o poema nunca acaba.
Sinto que esta obra é, também ela, uma maneira preciosa de impedir o esquecimento: daqueles que nos moldam, dos lugares que nos formaram, das casas que edificamos ao nosso redor e onde podemos crescer. Por esse motivo, estes poemas também são sobre pertencer — muito mais do que sobre caber. A título de curiosidade, embora seja uma redução inglória, visto que «é um livro comovente» no seu todo, próximo e complexo na mesma intensidade, confesso que Expansão marítima do poema, Navio de combate ao esquecimento, O espaço vazio, Flôr di nha esperança ficaram com todo o meu coração.
Descolonizar o Sujeito Poético alicerça-se num património afetivo que abre portas a um património cívico que nos quer atentos, reativos. A deambular pelas palavras que são casa, manteve-me sempre em movimento, a preencher as minhas margens. Fabuloso!
🎧 Banda Sonora: Ouvi Dizer, Ornatos Violeta | Rua da Saudade, Bárbara Bandeira | Cajuína, Caetano Veloso | Quem Me Vê, Os Quatro e Meia & Luís Trigacheiro
[gira-discos]
A banda sonora da semana
As músicas: afraidofbeingloved, Mariana Tereso | Hoje Tem, Pikika | Pinga, Isak & Armando Teles | Pega ou Larga, Chico da Tina | Ouro, bapcat & Carolina Deslandes | Caracol, Jasmim | Som do Vinho, Guima.
[caixa mágica]
Salto de Fé: Temporada 3
O Padre Tiago está de volta para novas aventuras e desventuras, naquela que é a série menos católica a que podemos assistir — talvez esteja a exagerar nesta parte, mas a fé cristã está sempre no limbo, pela comunidade que parece um «rebanho de pecadores».
Nesta terceira temporada, o jovem e idealista padre é enviado para Ribeira Sonsa, uma aldeia raiana portuguesa, não só para recuperar a igreja, mas também para restituir «o orgulho lusitano»: é que devido a «manias históricas e fenómenos naturais estanhos», a população «sente-se no direito de passar a ser espanhola», ansiando por um rei, por «fazer siestas a meio do dia [e] pagar menos pela gasolina». O desafio é estratosférico.
Já tinha saudades deste ambiente, que mantém quatro personagens centrais — Tiago (o padre), Moisés (o sacristão), Isabel (mãe de Tiago) e o Bispo —, porque preserva uma dose de insanidade e leveza que nos permite descontrair, ao mesmo tempo que levanta questões interessantes sobre moralidade, direitos individuais, confiança e vários tipos de fronteiras. Além disso, como a maioria do elenco se altera, é interessante perceber o que é que as novas personagens acrescentam à base do projeto e como é que estas se ligam à narrativa que serve de fio condutor entre as três temporadas. E, honestamente, sinto que conseguiram um excelente equilíbrio e dinamismo entre ambas as vertentes.
É necessário um Salto de Fé para lidar «com um tocador de corno manso, dois irmãos gémeos que têm tanto de trafulhas como de ambiciosos, duas mulheres apaixonadas [pelo padre] e um guarda-florestal mais português que qualquer um dos portugueses», mas, no final, vale a pena embarcar nesta viagem tão alucinada, perigosa e vingativa.
[biblioteca sonora]
A Vida Dupla do Espião Traidor
Frederico Carvalhão Gil foi detido num café em Roma, em 2016, na companhia de um agente da SVR, «acusado de vender segredos da NATO à Rússia». O espião português, ao que tudo indica, por dinheiro ou convicção ideológica, aceitou vender informações e, agora, podemos conhecer a sua história, bem como «a operação internacional para o apanhar, que envolve a PJ, a polícia italiana e os serviços secretos americanos».
O novo Podcast Plus do Observador «é uma série para ouvir em seis episódios» e a sua narração é feita por Ivo Canelas — ainda não comecei, mas fiquei logo entusiasmada.
[bilheteira]
O Bairro da Comédia
Uma noite de stand-up comedy marcada para hoje (10 de agosto), às 21h, no Alface Hall (Lisboa). Os bilhetes têm o custo de 7€.
Humor Negro
Os corredores das noites mais sombrias de comédia levaram à criação das «famosas noites de humor negro do Chiado Comedy Club». Dia 14 de agosto (sexta-feira), às 21h30, no Anexxo (Sintra), há uma nova sessão. Os bilhetes têm o custo de 12€.
Doce: Concerto Tributo
Dia 15 de agosto (sábado), às 22h, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, ocorre um concerto de tributo às Doce. Os bilhetes variam entre os 20€ e os 30€.
Notas ao Entardecer: Expresso Transatlântico
O grupo atua no dia 16 de agosto (domingo), às 19h, no Mosteiro de Santa Maria de Seiça (Coimbra). Os bilhetes têm o custo de 15€.
☕ Se gostares do meu trabalho, considera pagar-me um macchiato
«lê com atenção os silêncios
que sobrevivem nos lábios»[in Descolonizar o Sujeito Poético, Sara Duarte Brandão]
![Portugalid[Arte]](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!hFQh!,w_40,h_40,c_fill,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fa31a334b-a9fb-4cd6-b8cc-4802dfd6b8d8_500x500.png)


